Os Mundiais costumam ficar na história pelos grandes jogadores que os marcam ou decidem. Pelé em 70, Cruyff em 74, Maradona em 86… Este Mundial, para além de consagrar um jogador por cima dos outros, consagrou outro elemento como o seu protagonista: a bola. Se há duelo que, neste momento, melhor aroma de bom futebol deixa no ar, é aquele que coloca no mesmo relvado Espanha e Holanda. Porque não existem equipas que hoje, no planeta futebolístico, melhor se relacionem com a bola. Nasceram e cresceram em pontos geográficos diferentes da Europa, fizeram trajectos estilísticos completamente diferentes (a Holanda, anglo-saxónica, revolucionou tacticamente o jogo a partir dos anos 70; a Espanha, latina, viveu longas décadas agarrada ao mito da “fúria”) mas ambas chegam a este ponto da história com filosofias de vida futebolística idênticas. Uma ideologia de respeito com a bola que mudou a face do futebol. Driblou a arte sul-americana perdida na encruzilhada do tempo (desde a excessiva europeização brasileira à desequilibradamente atraente Argentina de Maradona), ultrapassou os dogmas europeus (desde a frieza italiana à força reciclada germânica) e deu um novo rosto ao “velho continente”. O ano 2010 vai dar um campeão do mundo inédito ao planeta do futebol. Holanda ou Espanha. Eles são o “novo continente” europeu.
A Espanha foi a equipa que mais se transformou para atingir este nível de influência ideológica. Criou um chamado “futebol de autor” a partir da renúncia a uma atitude de jogo passada que durou longos anos mas que mais do que um estilo era antes apenas um estado de espírito, a lendária “fúria”. Hoje, a Espanha tem uma relação serena com o jogo que nasce da sua capacidade técnica e vontade de ter e tratar bem a bola que, em campo, faz questão de apresentar a todos os pedacinhos de relva existentes. A sua idolatrada “posse de bola” não é um mero desenho. É um estilo intencional que, nos pés de poetas (líricos ou épicos) como Xavi, Iniesta, Puyol, Xabi Alonso, Piqué, Villa, monta uma “teia de aranha” construtiva à medida que avança no terreno. Desmontou a teoria do poder físico com o império dos baixinhos, “Xavi e Iniesta, S.A.”, símbolos supremos, “gigantes” de 1,70m. que parecem atar a bola com uma corda à chuteira e circulam com ela por todo o campo.
O mais irónico disto tudo, porém, é que o mentor deste estilo, o homem que o semeou em, solo espanhol desmontando a “fúria”, foi, a partir de finais dos anos 80, um símbolo vindo de outras paragens. Johan Cruyff, o tal profeta holandês do “futebol-total” nos anos 70. O local do epicentro futebolístico foi Barcelona. A partir da escola catalã, Cruyff inspirou as novas gerações espanholas. Mostrou-lhes novos caminhos, o “futebol do toque”, solidificou essa impressão digital no jogo do Barça (hoje visível com Guardiola, seu discípulo) e deixou o exemplo que, Aragonés e Del Bosque, adaptaram, sabiamente à selecção. Ao mesmo tempo, a sua Holanda, sentiu alguns hiatos de classe geracional, mas nunca perdeu a sua imagem de marca: bola no pé e a girar de flanco para flanco. Ganhar ou perder, mas sempre com as mesmas ideias. A mítica geração de Cruyff jogador, junto de Resenbrink, Krol, Rep, teve seguimento na de Van Basten, Rijkaard ou Gullit, já abertos à babilónia do Suriname, até, agora, encontrar acolhimento nas botas de Robben, Sjneider, Van Persie ou Kuyt. A ideia que dá é que, mesmo com 40 anos por entre eles, todos podiam jogar na mesma equipa, sem se notar a diferença de hábitos tácticos ou ritmos de jogo. é esse o maior triunfo histórico do futebol holandês.
Profeta e missionário, Cruyff chega a 2010 como a alma-mater do novo futebol da técnica e do respeito pela bola. Inventou a Holanda e mudou a Espanha. Esta final tem a sua “impressão digital”. Um duelo para sonhar.