EUROPEU SUB 21/SUÍÇA 2002: O Futebol europeu do futuro

15 de Maio de 2002
É dos livros. Uma boa selecção de esperanças é o segredo de uma boa selecção principal. Na embrionária faixa etária de Sub-21, ou, como era no passado, Sub-23, terão de estar, obrigatoriamente, as bases que irão suportar, geração após geração, o sucesso ou, no caso de deficiente preparação, o insucesso, do futebol de selecções de uma inteira nação. É, por isso, que, cada vez mais, a formação, e não os projectos faraónicos sem suporte, continuam a ser o elixir mágico do sucesso futebolístico.
Claudio Gentille, actual seleccionador nacional italiano de esperanças e antigo defesa direito da squadra azzurra, nascido na Líbia, responsável, em 1982, por uma das mais duras marcações individuais, sobre Maradona, que há memória no futebol mundial, é um homem preocupado. Na sua frente está a missão de prosseguir a bela carreira realizada no passado pelos seus antecessores no cargo, Césare Maldini e Marco Tardelli, responsáveis pela brilhante conquista de quatro títulos da categoria nas últimas cinco edições da competição. Observando esses atraentes onzes, detectámos muito dos ragazzos que fizeram, nos últimos dez anos, a sempre difícil e sensível transição de gerações dentro do futebol italiano. A obra de Maldini começara, no entanto, alguns anos antes, em 1986, quando assumiu o cargo, então na posse de Vicini, ao tempo chefe geral de todas as selecções, poucos dias depois de, com uma sedutora selecção onde estavam os jovens Giannini, Donadoni, Vialli e Mancini, perder, nos penaltis, a final do Europeu-Sub 21 desse ano, frente á Espanha. Após esta derrota, seguir-se-ia uma década gloriosa, cujo inicio sucederia em 90/92 quando a equipa de Albertini, Dino Baggio e Meli, entre outros, venceu, na final a duas mãos, a selecção sueca (2-0 e 0-1). Mais presente na nossa memória lusa, estará, certamente, a final de 1994. Em Montpellier, como opositor da squadra azzurra estava então a nossa queiroziana geração de ouro formada pela base que, poucos anos antes, se sagrara bi-campeã mundial Sub-20. Tudo se iria decidir, no entanto, com um dramático golo de ouro marcado por Orlandini, dando um novo titulo á selecção italiana, na qual jogava então um magrinho avançado que no futuro se tonaria um terrível ponta de lança: Inzaghi, apoiado na defesa por dois promissores ragazzos, Panucci e Cannavaro, á frente de Toldo, entre os postes. Dois anos depois, em 1996, o sonho azzurro voltaria a repetir-se, frente á Espanha, vingando, de novo nos penaltys, a derrota de 1986. No ataque estavam Vieri e Del Vecchio, na defesa, nascia uma divina dupla de centrais, Nesta e Cannavaro, enquanto como médio ofensivo surgia Del Piero. Seria o ultimo titulo de Cesarone, entretanto chamado para seleccionador principal, sacrificando o Euro-98, onde, chefiado por Giampaglia, a selecção italiana, com Totti, seria eliminada na primeira fase. Das equipas que conquistaram estes três títulos, de 90/92 a 94/96, sairiam nove jogadores futuros titulares da selecção principal: Panucci, Cannavaro, Toldo, Dino Baggio, Del Piero, Albertini, Nesta, Inzaghi e Vieri, esperando-se que o mesmo suceda com Zambrota e Gatuso no Mundial-2002. Uma sucessão natural que prova como, historicamente, a Itália sempre foi dos países que melhor aproveitou a selecção de esperanças como ponte para a selecção principal.

Pirlo, o regista da nova geração azzurra

Depois do fracasso de Giampaglia, os dias de glória voltariam já no inicio do século, em 2000, quando com o carismático Tardelli no banco, a squadra azzurra venceu, no jogo decisivo, a Republica Checa, e reconquistou o seu titulo de campeão europeu Sub-21, com um onze onde estavam Zambrota, Gatusso, Ambrosini, Ventola e, entre outros, um médio centro de luxo, Pirlo, que, dois anos depois, continua a ser o regista da actual selecção que se prepara para, na Suíça, tentar revalidar o titulo, agora sob as ordens do General Gentile que, adepto da disciplina, deixou fora dos eleitos o géniozinho da Roma, Massaro, depois deste, no passado, ter criado problemas numa concentração quando lhe comunicara que não iria ser titular. Apesar da ausência de Massaro, a selecção italiana continua forte e sedutora, sob a batuta de Pirlo, em relação ao qual Ancelotti ainda não descobriu como fazer coexistir no meio campo do Milan com Rui Costa. Tecnicamente muito forte, perfil de líder, exímio marcador de livres e com grande visão de jogo, é o tipo de jogador que, na personalidade e na grinta, a garra italiana, representa uma dinastia de médios que sempre encheram o meio campo italiano e cuja maturação foi sempre feita, na ultima década, nas selecções Sub-21. Falamos, cronologicamente, da dinastia de Fuser, Dino Baggio, Di Francesco, Gattuso, Zanetti e, por fim, Pirlo. A actual squadra de Gentile, não vive, no entanto, só do seu talento. Com o dinâmico Maresca, uma grande promessa da Juventus, lesionado, os novos profetas do meio campo são Brighi, um dos melhores médios do actual futebol italiano, esta época um pilar do fantástico Bolonha, mas já a caminho da Juventus, Marchionni, do Parma, e Donati, do Milan, para além de Blasi, autor de um excelente final de época no Perugia. Na defesa, o coração das equipas italianas, muitos falam de Lucchini, central do Ternana da Série B, Paolo Canavaro, o jovem irmão de Fabio, do Parma, Bellini, activo lateral esquerdo do Atalanta, e Bonera, do Brescia. No ataque, destaque para Maccarone, goleador do Empoli, Série B, internacional «A» contra a Inglaterra no mês passado, um avançado muito perigoso, 7 golos na selecção Sub-21. A seu lado poderão jogar Bonazzoli, do Parma, ou Gilardino, do Verona, os homens mais adiantados num esquema de 3x4x1x2 com marcação á zona, o sistema clássico do futebol moderno.

INGLATERRA E SUIÇA: A Europa a duas velocidades

Para além da squadra italiana, o onze lusitano deverá, no entanto, preocupar-se também com outras duas fortes selecções: Inglaterra e Suíça. Cada qual no seu estilo, possuem jogadores com valor para formar sedutoras equipas. Quando há vinte anos, a Inglaterra se sagrou por duas vezes consecutivas campeão europeu Sub-21, o seu futebol ainda era feito de lançamentos longos e passes em profundidade. Duas décadas depois o futebol inglês está muito mudado, revelando-se tecnicamente mais evoluído desde as camada jovens, devotas seguidoras do estilo-Beckham. Entre o onze de David Platt, um dos virtuosos médios da atraente selecção inglesa de Bobby Robson que brilhou no Mundial-90, atenção ao médio centro Michael Carrick, organizador de jogo do West Ham, e ao capitão David Dunn, falso ponta de lança do Blackburn Rovers. Adepto do futebol de ataque, Platt convocou seis avançados puros para a Suíça: Malcolm Christie, Jermain Dafoe, Shola Ameobi, Peter Crouch, Bobby Zamora, explosivo goleador do Brighton, e o veloz avançado do Leeds, Alan Smith. Todos membros de uma geração de grande nível, da qual irão faltar Ashley Cole, Wayne Bridge, Gerrard, Heargreaves, Joe Cole e Vassel, todos com idade de esperanças, mas convocados por Ericksson para o Mundial-2002. Na Suíça, todo o jogo gira em torno do nº10 Ricardo Cabanas, a estrelinha do Grasshopers, o motor de uma equipa onde as outras principais figuras são o ponta de lança do Servette, Alex Frei e o defesa Magnin, pertencente aos quadros do Werder Bremen. Historicamente, o futebol suíço nunca foi um futebol de grandes feitos, mas, este ano, dirigida por Bernard Challandes, o onze helvético, tacticamente muito bem distribuído em campo, sonha em aproveitar o factor casa para ir longe no seu torneio.

ESTRELAS DO GRUPO B: Rosicky, o maestro checo e Govou, a flecha francesa

Para a maioria dos analistas futebolísticos, parece pacifico afirmar que o actualmente o melhor método para fabricar grandes jogadores e bom futebol reside em França e nos famosos centros de formação dos seus clubes. A selecção gaulesa Sub-21, tal como a principal evidenciado uma sedutora composição multirracial, é mais uma prova evidente desse fenómeno de reprodução de estrelas. Viajando para a Suíça sem o fabuloso ponta de lança fraco-guineense Cissé, já inserido na selecção «A», o onze de Domemech possui, mesmo assim, uma fantástica dupla de avançados, ambos do Lyon, composta por Govou, muito rápido e com excelente chegada ao golo, e Luyindula, mais cerebral e potente no confronto directo. Juntos são uma dupla empolgante, capaz de fazer levantar da cadeira o adepto mais adormecido, que também deverá prestar atenção a Armand, extremo esquerdo do Nantes. Outras figuras gaulesas a seguir são, na defesa, os elegantes centrais Méxes e Boumsong, ambos da escola de artes do Auxere, formados por pai Guy Roux. Sobre o meio campo, todos os olhares sobre Pedretti, médio patrão do Sochaux, um lutador puro, junto de Berson, do Nantes, mais requintado. No mesmo grupo dos gauleses, estará, no entanto, a maior estrela deste Europeu Sub-21, que só não será uma das principais figuras do Mundial-2002 porque a sua selecção, a Republica Checa para ele não se qualificou: Tomas Rosicky, 21 anos, campeão alemão pelo Dortmund, um maestro de grande classe, franzino mas com um pulmão infinito e dono de uma técnica capaz dos mais belos desenhos futebolísticos. Com a sua magia esta selecção checa poderá ser uma das surpresas da competição. Com esse objectivo, o seleccionador Miroslav Baranek chamou seis outros jogadores já internacionais «A»: o guarda redes Petr Cch, os defesas Grygera e Hubschman, do Sparta, o médio Polak, do FC Brno, e os avançados Vachousek, do Slavia, e Baros, membro do plantel do Liverpool. Revelando um assinalável progresso competitivo internacional nos últimos anos, a Grécia busca encontrar neste onze Sub-21 algumas soluções para a quebra da sua selecção principal. Apesar do revés que foi a lesão do avançado centro Vakufis, jogador do Iraklis, no ultimo jogo do campeonato grego, o seleccionador Andreas Michalopoulos confia na sua equipa onde se destaca o lateral esquerdo do Olympiakos, Patsatzoglou, incansável a atacar e a defender, num onze que também conta com os defesas Seitaridis e Kyrgiakos, do Panathinaikos. Por fim, a Bélgica, preconizando um futebol de contra ataque aposta muito no faro goleador de Thomas Chatelle e na influência a meio campo de Daerden, médio esquerdino do Genk, considerado o melhor jogador do ano no campeonato belga.

AS SELECÇÕES E SUAS ESTRELAS

GRUPO A SUÍÇA Treinador: Bernard Challandes Jogador-estrela: Ricardo Cabanas (Grasshopers) ITÁLIA Treinador: Claudio Gentile Jogador-estrela: Pirlo (Milan) PORTUGAL Treinador: Agostinho Oliveira Jogador-estrela: Hugo Viana (Sporting) INGLATERRA Treinador: David Platt Jogador-estrela: Alan Smith (Leeds) GRUPO B FRANÇA Treinador: Ronald Domenech Jogador-estrela: Govou (Lyon) REPUBLICA CHECA Treinador: Miroslav Baranek Jogador-estrela: Rosicky (Borussia Dortmund) BÉLGICA Treinador: Jean-François de Sart Jogador-estrela: Daerden (Genk) GRECIA Treinador: Andreas Michalopoulos Jogador-estrela: Patsatzoglou (Olimpyakos)

Europeu de Esperanças: Quadro de vencedores

1972* Checoslováquia 1974* Hungria 1976* URSS 1978 Jugoslávia 1980 URSS 1982 Inglaterra 1984 Inglaterra 1986 Espanha 1988 França 1990 URSS 1992 Itália 1994 Itália 1996 Itália 1998 Espanha 2000 Itália * selecções Sub-23

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