Naquela inolvidável equipa dos anos 80, orientada por Howard Kendall, um treinador tipicamente inglês que não hesitava em dizer que a táctica era despejar a bola para a área, em cruzamentos longos, procurando jogadas de choque e ressaltos para o poderoso ponta de lança Andy Gray aproveitar para marcar, alinhavam, entre outros, jogadores empolgantes que a memória retêm: o inestético guarda redes Southall, o lateral direito Gary Stevens, que ia atrás e à frente todo o jogo e transformava cada lançamento de linha lateral num cruzamento para o coração da área, o médio defensivo Peter Reid, que dizia-se poder fazer um jogo de manhã, outro à tarde e ainda mais um à noite, o playmaker Trevor Steven, o mais tecnicista do onze, e, no ataque, ao lado de Gray, um young boy que se começava a destacar e fazia golos como respirava, Lineker. Com as sanções aplicadas ao futebol inglês (cinco anos fora da UEFA) esfumava-se a oportunidade de subir à eternidade no grande futebol europeu.
Por isso, para os velhos amantes do puro futebol inglês, o regresso, esta semana, do Everton à Liga dos Campeões trouxe à memória o destino falhado desse memorável onze de Kendall, que agora surge, já algo trôpego, nas bancadas, quase como o «fantasma bom» do passado.
Para ajudar a reminiscência futebolística, diga-se que o actual Everton de David Moyes, um técnico escocês sem grandes pretensões tácticas, também exibe o mesmo fighting spirit -espírito lutador- tipicamente britânico, só que o futebol mudou muito nos últimos vinte anos. O velho estilo inglês de muita correria e bola para cima da baliza, já não intimida, por si só, qualquer equipa latina, de inspiração sul-americana, como o Villarreal do chileno Pellegrini que pisou Goodison Park no regresso do Everton à elite europeia.
Para os blues de Liverpool, foi o duro choque entre o sonho e a realidade. Já não estão Steven, Reid, Lineker, Gray… Pelo que o confronto entre os lutadores, mas táctico-técnicamente rudimentares Weir, Hibbert, Davies Kilbane, e os tecnicistas que fazem correr a bola vindos de Espanha como Riquelme, Sorin, Senna, Figueroa evidenciou uma insofismável diferença de classe.
Um abismo impossível de colmatar apenas com utopia de ressuscitar o passado, cujos seus intérpretes continuarão a ser, para os devotos de Goodison Park, um grupo mítico.
EVERTON 1984/85

A inesquecível equipa do Everton que defrontou o Rapid Viena na final da Taça das Taças 84/85. Era um onze fantástico que também conquistaria a liga inglesa, então já como o jovem Lineker na frente de ataque a marcar golos atrás de golos.
Na foto: Em cima: Mountfield, Andy Gray, Trevor Steven, Sharp, Sheedy e Van den Hauwe ; Em baixo: Gary Stevens, Southall, Bracewell, Ratcliffe e Reid.