EVERTON: Utópico regresso ao passado

October 8, 2005 12:00 AM
VINTE ANOS DEPOIS, O EMOCIONANTE RETORNO DO EVERTON Á TAÇA DOS CAMPEÕES.
Há vinte anos, em Inglaterra, havia uma equipa que mudou a cor à cidade de Liverpool: o Everton. Ganhou a Taça das Taças e a Liga inglesa, mas, depois, a tragédia do Heysel, tirou-lhes a possibilidade de jogar na Taça dos Campeões. Duas décadas depois, regressou aos grandes palcos do futebol europeu. Os tempos e, sobretudo, os seus intérpretes já não eram, no entanto, os mesmos.
Naquela inolvidável equipa dos anos 80, orientada por Howard Kendall, um treinador tipicamente inglês que não hesitava em dizer que a táctica era despejar a bola para a área, em cruzamentos longos, procurando jogadas de choque e ressaltos para o poderoso ponta de lança Andy Gray aproveitar para marcar, alinhavam, entre outros, jogadores empolgantes que a memória retêm: o inestético guarda redes Southall, o lateral direito Gary Stevens, que ia atrás e à frente todo o jogo e transformava cada lançamento de linha lateral num cruzamento para o coração da área, o médio defensivo Peter Reid, que dizia-se poder fazer um jogo de manhã, outro à tarde e ainda mais um à noite, o playmaker Trevor Steven, o mais tecnicista do onze, e, no ataque, ao lado de Gray, um young boy que se começava a destacar e fazia golos como respirava, Lineker. Com as sanções aplicadas ao futebol inglês (cinco anos fora da UEFA) esfumava-se a oportunidade de subir à eternidade no grande futebol europeu. Por isso, para os velhos amantes do puro futebol inglês, o regresso, esta semana, do Everton à Liga dos Campeões trouxe à memória o destino falhado desse memorável onze de Kendall, que agora surge, já algo trôpego, nas bancadas, quase como o «fantasma bom» do passado. Para ajudar a reminiscência futebolística, diga-se que o actual Everton de David Moyes, um técnico escocês sem grandes pretensões tácticas, também exibe o mesmo fighting spirit -espírito lutador- tipicamente britânico, só que o futebol mudou muito nos últimos vinte anos. O velho estilo inglês de muita correria e bola para cima da baliza, já não intimida, por si só, qualquer equipa latina, de inspiração sul-americana, como o Villarreal do chileno Pellegrini que pisou Goodison Park no regresso do Everton à elite europeia. Para os blues de Liverpool, foi o duro choque entre o sonho e a realidade. Já não estão Steven, Reid, Lineker, Gray… Pelo que o confronto entre os lutadores, mas táctico-técnicamente rudimentares Weir, Hibbert, Davies Kilbane, e os tecnicistas que fazem correr a bola vindos de Espanha como Riquelme, Sorin, Senna, Figueroa evidenciou uma insofismável diferença de classe. Um abismo impossível de colmatar apenas com utopia de ressuscitar o passado, cujos seus intérpretes continuarão a ser, para os devotos de Goodison Park, um grupo mítico.

EVERTON 1984/85

A inesquecível equipa do Everton que defrontou o Rapid Viena na final da Taça das Taças 84/85. Era um onze fantástico que também conquistaria a liga inglesa, então já como o jovem Lineker na frente de ataque a marcar golos atrás de golos. Na foto: Em cima: Mountfield, Andy Gray, Trevor Steven, Sharp, Sheedy e Van den Hauwe ; Em baixo: Gary Stevens, Southall, Bracewell, Ratcliffe e Reid.

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