Falar com as «máquinas»

8 de Abril de 2010 09:08
Em Manchester, mesmo com 3-0, a atmosfera era «estranha». Do outro lado estava uma equipa alemã…

 

É impossível fugir ao destino. É uma sensação que, futebolisticamente, cresce quando se vê uma equipa alemã a jogar. O maior erro que se pode cometer é imaginar que mesmo com o céu prestes a cair-lhes em cima da cabeça, elas já morreram no jogo. Se, nesta equação, juntarmos Van Gaal, o cenário fica quase dantesco.
Foi essa a atmosfera que pressenti em Old Traford, quando, com o estádio enlouquecido, o Manchester fez 3-0 aos 40 minutos. Nenhum jogador do Bayern levou as mãos à cabeça nessa altura. Aos poucos, juntaram as peças da máquina, colaram-nas no jogo e viraram-no ao contrário. Tudo isto tem, claro, explicação táctica mais terrena, mas a base para a poder aplicar nasce, sem dúvida, na força mental que se respira no futebol alemão (e entra nos estrangeiros que lá jogam).
Na formatação do seu Bayern, o maior problema de Van Gaal tem estado na segunda linha do meio-campo, no lugar do chamado médio-centro ofensivo. Em termos de sistema, vagueia entre as variantes do 4x4x2 e o 4x2x3x1. Nessa hesitação táctica, chegou a jogar Ribery no meio ou Schweinsteiger mais subido. Mas o problema persiste, como se viu em Manchester, em 4x2x3x1, o sistema adoptado nestes grandes jogos, onde Van Gaal prescinde da dupla de pontas-de-lança e joga só com um (em geral, Olic, ficando Gomez e Klose no banco).
O segundo avançado central tem sido Muller. É um erro de casting na maioria do jogo. Ou melhor, é uma opção que impede Muller de colocar em prática a sua característica mais forte, a velocidade com bola, algo que precisa de espaço para explodir. Por isso, vejo Muller claramente como um jogador de faixa que não consegue respirar no centro. Foi o que sucedeu em Manchester, engolido por Carrick, Fletcher e Gibson. Na segunda parte, Van Gaal meteu Gomez, passou ao 4x4x2 clássico e pediu a Robben diagonais de fora para dentro desde a esquerda. Quando, nesse movimento, surgia no corredor central, confundia a organização do Manchester.
Com dois médios recuados muito fortes na contenção (Van Bommel e Schweinsteiger) e que ajudam (ou dobram) muito bem os laterais, este Bayern é uma equipa que, ao contrário do normal funcionamento organizativo de um onze, cresce a parir dos flancos. Ora com as diagonais de Robben, ora com a verticalidade de Ribery. Combinando isso com a mobilidade lutadora de Olic ou Gomez, é temível a atacar. A maior deficiência está nas transições, onde é muito pesada (lenta mesmo) e não faz posse de bola. Se o adversário, porém, a oferece, está condenado. 
Problemas tácticos que, no fim da noite em Manchester, não o impediram de ver mais perto a final da Champions. É o regresso do futebol das máquinas.  
 
 
 
A melhor imagem   
 
São, claro, sobretudo as imagens dos golos que dão a volta ao mundo. É a máxima expressão da sua arte, doces e travessuras, com bola. Mas, sabem qual a imagem que, no final, mais me impressionou e cativou no recital Messi? Foi a forma como, mal acabado o jogo, andava pelo relvado com a bola debaixo do braço, brincando com ela, batendo-a no chão, rindo-se. Aquela é a imagem do miúdo que vinha de jogar futebol de rua com os amigos. É esse o melhor, mais puro e sincero, futebol do mundo. Messi é sua personificação nos grandes Estádios dentro de uma equipa que tece uma teia de aranha de passes e triangulações em cada jogada.
Ver um jogo do Barcelona é hoje uma questão de culto. Fabrègas, que só jogou na primeira mão, levou mais longe, porém, esta sensação: “Uma coisa é vê-los na bancada ou pela televisão, mas quando os tens à tua frente, ainda é pior. É impressionante a facilidade que têm para passar a bola. Não há maneira de a tirar. Uma simplicidade maravilhosa”.
Desenhá-lo frente a uma equipa, o Arsenal, que tantos elogios tem recebido por defender os mesmos ideais de toque e passe, faz deste Barça muito mais do que uma simples equipa de futebol. O expressionismo do seu jogo revoluciona conceitos. Tal como Messi. Sem traços de rebeldia ou pop-star, o primeiro génio simples a ameaçar entrar na dinastia dos melhores de todos os tempos.
 
 
Mourinho
Guardiola
 
Dois nomes para dividir a filosofia do futebol. O “positivismo” da táctica pragmática. O “existencialismo” das jogadas bonitas. Mourinho e Guardiola. Duas filosofias, dois “elementos químicos” que dividem dois estilos de jogo. Não é só a questão de um lado estar Messi, uma pulga disfarçada de ET em forma de jogador de futebol. É, sobretudo, uma questão de conceito. Por definição, entre a construção e a criatividade. Ambos, não se limitam a “jogar” futebol. O Inter “constrói” futebol, o cimento táctico liga os jogadores em campo. O Barcelona “cria” futebol, a valia técnica faz os jogadores falar uns com os outros em campo. Para o Inter, a táctica é uma “causa”. Para o Barça, a táctica é uma “consequência”.
Partindo de locais diferentes, no fim, ambos podem ter razão. O futebol admite todas as filosofias. No registo, eterniza os resultados. Na memória, perpetua as emoções. Se o Inter lê a mente, o Barça toca os corações. Quando um homem (uma equipa) tem uma paixão, o melhor que tem a fazer é ir tratar dela. Acima disto, já não há mais nada. 
 
 
Nani e o
destino
 
Antes da bola, um jogador vale muito pelas sensações que transmite. É a força e o culto da imagem. Nani não tem o starsystem de Ronaldo mas pisa a mesma relva em Old Traford. No mesmo espaço, o esquerdo. Ao longo da carreira, Nani começou por parecer o menino tímido do futebol de rua que chegou assustado aos grandes estádios. Ganhou confiança a cada boa jogada (finta, arranque) que fazia. Acendia e apagava-se. Fez-se “homenzinho”, como um dia disse Paulo Bento. Deu “corpo” ao seu jogo, lapidou a imagem e rumou a Manchester. E há noites em que tudo parece possível.
No glamour da Champions, dois golos estilo “CR”, a pirueta nos festejos. A perfeição é possível. Faltava o pormenor de, no outro lado, estar uma equipa alemã. Uma casta que mesmo a perder 0-3, com o estádio a cair-lhes em cima da cabeça, nunca pode ser dada como “morta”. E não estava. 2-3 e o “Teatro dos sonhos” inverte-se. Nani escureceu o olhar. O jogo de uma vida fora traído pelo destino. Fica a memória das emoções. Tudo o resto, esqueçam.  

 

 

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