FC DINAMO DE KIEV: FUTEBOL CIENTÍFICO

4 de Dezembro de 2000
A história do grande laboratório de Kiev, berço do futebol científico de Lobanovski, expresso, ao longo de três gerações, por talentos mecanizados como Bolkhine, Burjak, Kolotov, Vermeiv e Onichenko, nos anos 70, Demianenko, Rats, Mikhailitchenko, Zavarov, Kuznetsov e Belanov, nos 80, e Shevchenko, Rebrov e Dmytrulim, entre muitos outros, no limiar do século.

Fundado em Novembro de 1927
Onde joga: Estádio Olympiyskyi de Kiev
Campeão soviético: 1961, 1966, 1967, 1968, 1974, 1975, 1977, 1980, 1981, 1985, 1986 e 1990
Campeão ucraniano: 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000
Taça da URSS: 1954, 1964, 1966, 1974, 1978, 1982, 1985, 1987 e 1990
Taça da Ucránia: 1993, 1994, 1996, 1998, 2000
Taça das Taças: 1975 e 1986
SuperTaça Europeia: 1975
Em Nivki, quarteirão da cidade de Kiev, capital da Ucrania, os olhos de Alexander Leonidov, embaciados como um copo de vodka, viajam pelo rio da memória acima. Uma vida dedicada á escola de futebol do Dinamo de Kiev, onde com o seu temperamento perfeccionista e exigente ganhou a admiração de todos. Nos últimos tempos, as novas gerações insinuavam que os seus métodos, como os da ideologia soviética, estavam ultrapassados. Leonidov, cabelos brancos, perante os seus detractores, encolhe os ombros e diz enquanto vira costas: “vão formar outro Blokhine e depois venham outra vez falar comigo...” O final do milénio suscita no homem uma inquietação pessoal, um testemunho espiritual. No último século, a história do imenso território onde se ergueu a velha URSS, tem o sabor dos sonhos utópicos que provocam alucinações. Unindo vários povos e nações cuja história moldou com diferentes temperamentos, a pátria dos sovietes lembrou a ousadia de tocar o gelo com a ponta dos dedos. Entre as diferentes regiões que viveram ao lado da grande Rússia, sobressaiu, aos olhos do mundo, a nação ucraniana, que apesar das repressões, sofrimentos, tumultos políticos e desastres nucleares que a assolaram através dos tempos, permaneceu sempre como a orgulhosa e temperamental Ucrania, encruzilhada obrigatória nas rotas que ligam o báltico ao mediterrâneo. Situada nas margens do rio Dniepr, a capital Kiev, com cerca de 3 milhões de habitantes, ofereceu ao mundo grandes tesouros artísticos e arquitectónicos. Apesar de manter sempre a sua identidade própria, a sua história recente confunde-se com a da URSS. Por isso, a vida e obra do seu futebol, e do seu mais prestigiado clube, o Dínamo Kiev, fundado em 1927, apenas faz sentido se interpretada no contexto do futebol soviético. Nos remotos tempos do ancestral reino de Kiev, os seus príncipes eram coroados na maravilhosa Catedral de St.Shofia. Muito tempo depois, no auge do mecanizado futebol soviético, os seus supremos príncipes também foram coroados noutro templo de Kiev, o Olympiyskyi Stadium. Para muitos não existem grandes dúvidas que os maiores génios do temido futebol da URSS eram, na sua grande maioria, produto da escola de futebol ucraniana, dona de um génio criativo superior ao da escola russa. Juntas, elas eram, o método e o génio. Os primeiros registos do talento do futebol ucraniano, remonta a inícios dos anos 30, quando, em 1935, uma equipa nacional da Ukrania, composta por 7 jogadores do Dínamo Kiev, efectuou, com grande brilhantismo, uma digressão por terras da França e da Bélgica, em cujo maior momento ocorrera com uma soberba exibição frente ao profissional clube francês, Red Star Olympic, goleado por 6-1. Dessa longínqua tarde, os registos idolatram, com elogios supremos, três jogadores do Dínamo: Schegoltsky, Fomim e Shylovsky, de imediato admitidos na selecção da URSS que em breve iria jogar á Turquia. Nasciam, assim, as primeiras grandes estrelas da história do Dínamo Kiev que, no ano seguinte, em 1936, marcaria presença no primeiro campeonato nacional da URSS. Na época inaugural, terminaria em segundo, atrás do Dínamo Moscovo, mas para a eternidade ficavam imortalizados os nomes de Tusevych, Shegotsky, Livshytc, Tytchev, Shylovsky, Komarov, Mahinya, Kuzmenk, Pravoverov, Klimenko e Goncharenko.

1954 e 1961: Os primeiros grandes títulos

Numa época em que o futebol soviético começava a ser respeitado em todo a Europa, seduzida com a selecção vermelha que, em 1960, venceu o primeiro Europeu da história, o Dínamo Kiev tornava-se, a nível de clubes, uma das suas principais forças, capaz de se bater com os gigantes de Moscovo. Em 1954, com uma equipa superiormente orientada por Oshenkovon, o Dínamo de Zazroyev, Popovic, Fomim e Bogdanovic, entre outros, conquista, batendo na final o Spartak Yerevan 2-1, a primeira Taça da URSS da sua história. Em 1961, 22 anos depois do seu inicio, o campeonato soviético seria finalmente ganho por uma equipa fora da capital Moscovo e de toda a região russa. Esse vencedor só poderia ser, naturalmente, o Dínamo de Kiev. Foi uma época histórica. Orientados pelo lendário M.M. Koman, auxiliado por Soloviev e Torentiev, os magos de Kiev, realizaram um campeonato fabuloso, conquistando 45 pontos, com uma goal-average favorável de 58-28, resultado de 18 vitórias, 9 empates e apenas 3 derrotas. Durante os nos 60, o Dínamo seria campeão soviético por mais quatro vezes. 20 jogadores ficaram imortalizados na primeira épica conquista: Makarov, Koltsov, Schegolkov, Suchkov, Amufrienko, Sabo, Voinov, Turanchyk, Serebrianikov, Bazilevich, Byba, Troyanovsky., Lobanovsky e Kanevsky Era o inicio da grande aventura da escola de Kiev no futebol soviético. Uma década depois, um desses jogadores, temível avançado, penduraria as chuteiras e, como treinador, iria apresentar ao mundo do futebol as virtudes supremas da escola futebolística de Kiev. Seu nome: Valery Lobanovsky, pois claro.

AS TRÊS GERAÇÕES DO LABORATÓRIO DE LOBANOVSKY

Foi nos anos 70 que, inspirado no futebol total, Valery Lobanovsky, o homem que nunca sorri, finda a carreira nos relvados, começou a congeminar, nos laboratórios de Kiev, junto com o seu fiel amigo e adjunto Vassiliev, o chamado futebol científico, obra táctica sistematizada para deter o menos tempo possivel a posse da bola, reduzindo o tempo a pensar com ela nos pés, preferindo o passe ao primeiro toque, com velocidade e eficaz ocupação de espaços vazios em lineares jogadas de contra ataque. O ideal colectivista em forma de movimento táctico futeblistico. Um estilo que foi, durante décadas a imagem das equipas de leste, mais ou menos cotadas, que incutiam grande respeito nos anárquicos adversários do ocidente. Era raro um jogador destacar-se num onze tipicamente de leste, pelo que os eleitos teriam mesmo de ser jogadores de grande dimensão. De inicio a escola de artes futebolísticas de Kiev começou a ser gerada em aparentemente complicadas folhas de papel quadriculado. Desde esses tempos, em que toda a nação soviética exultava com as proezas espaciais de Youri Gagarine, o primeiro homem no espaço, três gerações de talentos sublimam o laboratório de Kiev. Também o futebol era obrigado a construir a nova e superior noção do chamado hommo sovieticus, á imagem do homem socialista, regido pelos ditames do colectivo. Ao longo dos tempos, a máquina de futebol de Kiev teve sempre um principio básico: a disciplina táctica unida ao estudo do comportamento físico e da disciplina mental. Um conceito que interpretado por jogadores talentosos, ofereceu ao mundo um futebol feito de rápidas triangulações ao primeiro toque, com a bola a ser sempre jogada nos espaços vazios e onde o drible era considerado uma estéril lateralização de jogo. Nos anos 60, Lobanovsky compunha ao lado de Kanevski e Basilevitch, o trio ofensivo do Dinamo de Kiev. Era um jogador dotado, tecnicista e que gostava de fintar, embora não fosse um grande apaixonado pelo futebol, que intercalava com os seus estudos superiores de termo-técnica. Jogou seis anos no Dínamo, entre 58 e 64, passando depois pelo Chermorets e Shaktior Donetz, onde pendurou as botas em 68, após 258 jogos e 71 golos na Liga Soviética. Vestira por 2 vezes a camisola da URSS. Iniciou a carreira de treinador na época 68/69, com apenas 29 anos, tornando-se, á frente do Dniepr, no mais jovem técnico do país. Desde logo fez-se notar pela meticulosa organização do seu trabalho. Em 1974, com 35 anos, recebeu então o convite para treinar o Dinamo Kiev. A partir dessa data nunca mais nada seria como dantes. Logo no primeiro ano, venceu o Campeonato e a Taça da URSS. Na época seguinte, em 74/75 conquistava a Taça das Taças e toda a Europa começava a falar no estilo veloz, atlético e tacticamente dotado do onze de Kiev. Os mesmos ditames futebolísticos seriam depois aplicados á selecção soviética que, durante os últimos 25 anos, dirigiu durante muitas épocas. (75/76, 82/83 e 86/90), sendo o seu maior feito o segundo lugar no Europeu-88.

ANOS 70: A Primeira Geração

A primeira geração teve um líder incontestável: Oleg Blokhine, o avançado que corria á velocidade da luz, um esquerdino que conduzia a bola ao ritmo do Kalinka e aliava o génio ao sentido táctico. A seu lado, na frente de ataque jogava Onichenko. Duas flechas apontadas ás redes contrárias. No meio campo, o carrossel mecânico era composto por Burjak, Kolotov e Vermeiv. Em 1975 tornou-se na primeira equipa soviética a vencer uma competição europeia, batendo o Ferencvaros da Hungria, 3-0, na final da Taça das Taças, conquistando depois a SuperTaça da Europa contra o Bayern Munique de Beckenbauer, derrotado nos dois jogos por 1-0 e 2-0.

ANOS 80: A Segunda Geração

Dez anos depois do sucesso de 1975, o laboratório de Lobanovsky, ofereceu a segunda geração de talentos, onde ainda estava, na ternura mágica dos 30 anos, o temperamental génio de Blokhine, agora integrado num onze que, mantendo os mesmos princípios tácticos, se desdobrava nas movimentações ofensivas com anda maior velocidade, expressa, sobretudo, no futebol de Demianenko, Rats, Mikhailitchenko, Zavarov e Belanov. O estilo ofensivo era agora enquadrado num mais eficaz sistema defensivo, chefiado pelo glacial líbero Kuznetsov. Em 1986, no Stade Gerlan de Lyon, a consagração europeia traduziu-se num autêntico festival de futebol ofensivo, que trocou os olhos ao At. Madrid, impotente para travar a máquina de Kiev, rumo á conquista da Segunda Taça das Taças da sua história, coroado com uma clara vitória por 3-0.

ANOS 90: A Terceira Geração

Na última década do século, órfã da velha URSS, Lobanovsky, agora um respeitado sexagenário, congeminou a chamada terceira geração de Kiev, onde emergiram, como grandes símbolos, os talentos Dmytrulim, Shevchenko e Rebrov. No entanto, com as fronteiras abertas, não teve tempo para preparar um nova aventura europeia, impotente face aos colossos do Ocidente, que lhe resgataram os seus maiores tesouros futebolísticos, agora a jogar em Inglaterra e Itália. Há pouco tempo, quando convidado a analisar o futebol actual Lobanovsky confessou-se desiludido: Hoje não se pode falar em revolução no futebol. A última vez que se inventou algo foi em 74, quando a Holanda e a RFA puseram em prática o futebol total. A partir dessa data, jogam todos da mesma maneira. Apesar de tudo, continua a falar do sonho de construir o futebolista perfeito: É o que tiver 1% de talento e 99% de garra. Um exemplo? Shevchenko, o melhor avançado do mundo. Ronaldo? É um jogador capaz de inventar, mas Shevy tem tudo: passa bem, lê o jogo com facilidade e é muito forte fisicamente. Aliás, penso que o tipo de jogador como Ronaldo está a impedir o desenvolvimento do futebol”, sentencia o Coronel, para quem o futebol moderno se baseia em trabalho sem bola e nunca viceversa.

VALERY LOBANOVSKY: O Sr. Dínamo de Kiev

Nos anos 60, Lobanovsky compunha ao lado de Kanevski e Basilevitch, o trio ofensivo do Dinamo de Kiev. Era um jogador dotado, tecnicista e que gostava de fintar, embora não fosse um grande apaixonado pelo futebol, que intercalava com os seus estudos superiores de termo-técnica. Jogou seis anos no Dínamo, entre 58 e 64, passando depois pelo Chermorets e Shaktior Donetz, onde pendurou as botas em 68, após 258 jogos e 71 golos na Liga Soviética. Vestira por 2 vezes a camisola da URSS. Iniciou a carreira de treinador na época 68/69, com apenas 29 anos, tornando-se, á frente do Dniepr, no mais jovem técnico do país. Desde logo fez-se notar pela meticulosa organização do seu trabalho. Em 1974, com 35 anos, recebeu então o convite para treinar o Dinamo Kiev. A partir dessa data nunca mais nada seria como dantes. Logo no primeiro ano, venceu o Campeonato e a Taça da URSS. Na época seguinte, em 74/75 conquistava a Taça das Taças e toda a Europa começava a falar no estilo veloz, atlético e tacticamente dotado do onze de Kiev. Os mesmos ditames futebolísticos seriam depois aplicados á selecção soviética que, durante os últimos 25 anos, dirigiu durante muitas épocas. (75/76, 82/83 e 86/90), sendo o seu maior feito o segundo lugar no Europeu-88. Entre 90 e 93, durante o terramoto que levou ao fim da URSS, foi seleccionador nacional dos Emiratos Árabes Unidos, seguindo-se depois, de 94 a 96, uma passagem pelo Kuwait. Em 1996, assaltado pela fria nostalgia de leste, regressou a Kiev, mas encontrou uma paisagem muito diferente. Onde antes havia organização, havia agora o caos, onde existiam estruturas, existiam agora campos abandonados. Foi tempo de voltar a começar tudo do zero, mas desta feita sem os meios de antigamente. Os ideais, porém, permaneciam os mesmos. Findo o Império soviético, este seu novo projecto só se aplica agora ao futebol ucraniano. Em 97 assumiu o cargo de Consultor nacional, até que em 1999, perto de fazer 62 anos, tornou-se, de novo, seleccionador nacional da Ucrania, cargo que acumula com o banco do Dínamo Kiev. Quando convidado a analisar o futebol actual, confessou-se desiludido: Hoje não se pode falar em revolução no futebol. A última vez que se inventou algo foi em 74, quando a Holanda e a RFA puseram em prática o futebol total. A partir dessa data, jogam todos da mesma maneira. Apesar de tudo, continua a falar do sonho de construir o futebolista perfeito: É o que tiver 1% de talento e 99% de garra. Um exemplo? Shevchenko, o melhor avançado do mundo. Ronaldo? É um jogador capaz de inventar, mas Shevy tem tudo: passa bem, lê o jogo com facilidade e é muito forte fisicamente. Aliás, penso que o tipo de jogador como Ronaldo está a impedir o desenvolvimento do futebol”, sentencia o Coronel, para quem o futebol moderno se baseia em trabalho sem bola e nunca viceversa. No presente, a sua imagem no banco, durante os jogos, lembra a metáfora do homem montanha que nunca sorri. Seja qual for o resultado, Lobanovsky, hoje carregando um peso desmesurado, mantêm sempre, como em toda a sua carreira anterior, o mesmo semblante imperturbável. Um Iceberg em forma de treinador de futebol. Por isso quando há tempos perguntaram a Toshack onde pretendia passar a reforma, ele respondeu “no banco, como Lobanovsky”. Nas palavras do credenciado técnico galês estavam implícitas a profunda admiração pela obra do velho lobo ucraniano.

BLOKHINE: A flecha de Kiev

Em Nivki, quarteirão de Kiev, cidade capital da Ukrania, os olhos de Alexander Leonidov, embaciados como um copo de vodka, viajam pelo rio da memória acima. Uma vida dedicada á escola de futebol do Dinamo de Kiev, onde com o seu temperamento perfeccionista e exigente ganhou a admiração de todos. Nos últimos tempos, as novas gerações insinuavam que os seus métodos, como os da ideologia soviética, estavam ultrapassados. Leonidov, cabelos brancos, perante os seus detractores, encolhe os ombros e diz enquanto vira costas: vão formar outro Blokhine e depois venham outra vez falar comigo... Nas suas sábias palavras estava o orgulho de ter descoberto o jogador que, integrado desde o inicio dos anos 70 no laboratório de Lobanovsky, iria reger, durante quase duas décadas o futebol veloz e mecanizado do Dínamo Kiev, conduzindo-o ás maiores conquistas da sua história Oleg Blokhine Chamavam-lhe a flecha da Ucrania, tal a velocidade de sprint que atingia (10.7 segundos aos 100 metros). No inicio da carreira jogava a médio ala esquerdo, mas com o passar dos anos, na escola de artes de Kiev, tornou-se um maestro do meio campo. Forte fisicamente, era um artista com um temperamento quase latino que rompia a frieza de leste, tal a forma como improvisava os lances e gesticulava com os colegas e adversários. Carismático, com estonteantes mudanças de velocidade, capaz de virar um jogo sozinho, arrastava toda a equipa atrás de si. Considerava-se um libero ... do meio campo para a frente. Se nem ele sabia o que iria fazer a seguir, então muito menos havia possibilidade de o adversário o descobrir. Em 1975 venceu a Bola de Ouro para o melhor jogador europeu do ano. Disputou 432 jogos no Campeonato soviético, marcando 211 golos. É, para a eternidade, o jogador soviético com maior número de internacionalizações: 112, entre 1972 e 1988, tendo marcado 42 golos. Jogou nos Mundiais de 82 e 86. Foi campeão da URSS como o Dínamo por 6 vezes (74, 75, 77, 80, 81 e 85), vencendo duas Taça das Taças, 75 e 86. Depois de 20 anos ao mais alto nível, poucos entenderam que, aos 34 anos, no final da carreira, quando se limitava a actuações esporádicas o Dínamo, finda a URSS e abertas as fronteiras, fosse jogar para um modesto clube austríaco Worwarts-Steyer. Pouco tempo depois pendurava as chuteiras.

IGOR BELANOV

A fabulosa geração dos anos 80 abrigou grandes jogadores, mas entre todos, o que mais assombrou o mundo do futebol, foi o veloz extremo Igor Belanov, eleito em 1986, após um Mundial onde estivera brilhante, o melhor jogador europeu do ano. Pouco mais de uma década depois, a sua inclusão no elenco da Bola de Ouro ainda hoje causa grande embaraço aos analistas do futebol internacional quando posa ao lado de, por exemplo, Platini, Cruyff ou Beckenbauer, outros consagrados. Apesar da recordação do seu talento explosivo, Belanov fou um estrela fulgurante que apenas durou 3 ou 4 anos. Fora do sistema Lobanovsky, Belanov desapareceu. Talentosa, esta geração de 80 sucedera á lendária casta de Blokhine, nos anos 70. Ao contrário desta, no entanto, viu, a certo ponto da história, abrirem-se as fronteiras para jogar no estrangeiro. No entanto quando colocados num diferente habitat futebolístico e social, sem estarem integrados na tal mecânica do colectivo, não atingiram o mesmo brilho: Na Juventus, o virtuosismo de Zavarov, a visão de jogo de Aleinikov e os golos de Protassov, nunca conquistaram Turim. O fantástico Mikailichenko, á margem alguns rasgos, caiu na mediania, tanto na Sampdoria como no Glasgow Rangers, tornando-se uma sombra do que fora antes. Mas o caso mais evidente foi o do veloz Belanov, Em 1989 foi jogar para a Alemanha, no Borússia Monchengladbach. Em 1990, com 30 anos, faria o seu último jogo, o 32º, na selecção. De 1989 a 1991, na Bundesliga, Belanov faria apenas 24 jogos, marcando escassos 4 golos.

O velho futebol do ano 2000

Quando em meados dos anos 80, a expressão táctica e técnica da ideologia futebolistica de Lobanovsky atingiu o auge, no seu Dinamo de Kiev e na dinâmica selecção soviética que também orientava, muitos analistas concordaram que o Coronel estava de facto, como ele próprio insinuava, a antecipar o futebol do ano 2000, espécie de premonição sobrenatural do estilo que iria marcar o futebol do inicio do Século XXI. Muitas daquelas estrelas de Kiev, caído o muro de Berlim e abertas as fronteiras, rumaram ao futebol Ocidental, sobretudo para Itália, então meca principal das grandes figuras dos relvados. Apesar de talentosos, nunca atingiriam, porém, grande nível exibicional fora da selecção. O caso mais evidente desta realidade foi o do veloz avançado Belanov cuja inscrição na lista dos melhores jogadores europeus, em 1986, ainda hoje causa algum embaraço. Foi uma estrela fugaz que só durou dois, três anos. Depois de sair do Dinamo Kiev tentou o futebol alemão, mas pouco tempo depois já jogava, incógnito na IIª Bundsliga. Chegados ao novo século, o velho futebol de leste carrega consigo, no entanto, uma imagem quase fantasmagórica. Podem-se invocar várias razões para o seu idolatrado futebol do ano 2000, não ver hoje materializada a sua premonição de década e meia atrás. Entre outros aspectos, registe-se o facto de, mesmo durante o apogeu do seu conceito futebolístico, Lobanovsky nunca ter formado um verdadeiro onze base, onde os jogadores tivessem sempre o seu posto em campo definido. Ao invés, era constante, de jogo para jogo, a alteração de jogadores e sua posição no relvado. Por exemplo, na Final do Europeu-88, colocou o genial Mikhailichenko a marcar Gullit, quando antes do jogo decisivo com a Holanda, ele jogara sempre solto como médio ofensivo, ao mesmo tempo que recuava o médio Aleinikov para central de marcação. Noutro jogo, contra a Itália, abdicou dos extremos e jogou só com um ponta de lança, Protassov. É verdade que estas imprevisíveis alterações tácticas, suporte sempre de um jogo apoiado, ao primeiro toque com os jogadores a mudarem constantemente de posição, rodando como no Basket, produziram muitas grandes exibições e resultados, confundindo os adversários, mas, sem um onze base e esquema táctico bem definido, nunca poderiam servir de modelo para outras equipas ou selecções. Muitas vezes a organização falhava e a equipa parecia desintegrada em campo. Era o tal futebol científico que ficava confuso quando surgia alguma coordenada imprevisível ou desconhecida.

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