A marcação à zona é, por si só, um sintoma de inteligência no jogo de uma equipa. Por isso, é estranho ver uma equipa holandesa, pátria futebolística de superior cultura táctica, a marcar individualmente.
Esta visão perturbadora sucedeu no último clássico Feyenoord-PSV. Preocupado com a influência do nº10 Afellay na organização de jogo do PSV, Erwin Koeman, técnico do Feyenoord, ordenou a que, quando o onze do seu irmão Ronald recuperasse a bola, Drenthe, lateral-esquerdo de origem, posição que ocupava inicialmente no jogo, caísse em cima do maestro de Eindhoven.
Este duelo entre os irmãos Koeman gerou um jogo essencialmente táctico. Receoso, o PSV alinhou num falso 4x4x2, sem ponta de lança, com dois avançados abertos (Farfan-Konè) que, a atacar, tinham o apoio mais próximo de Afellay que surgia sobretudo pela direita. Atrás, a dupla de médios defensivos Cocu-Simons segurava a equipa na transição ataque-defesa. Atrasado na classificação, o Feyenoord montou um dinâmico 4x3x3, com Charisteas em cunha entre os centrais Alex-Salcido do PSV, servido por dois flanqueadores com vocação de extremos, Kolkka e Houysegems. No meio campo, De Guzman geria a transição defesa-ataque, Lucuis cobria atrás e Hofs assumia-se como o 10 organizador.
Era, à partida, um duelo interessante ao qual só a marcação individual Drenthe-Afellay retirou brilho. Sobretudo, porque Drenthe, apenas 19 anos, é uma bela promessa holandesa como lateral-esquerdo, aguerrido a defender e dinâmico a atacar, enquanto Afellay é um poeta com a bola nos pés, com uma visão de jogo e precisão de passe notável.

Ao ver esta marcação individual lembrei-me, no entanto, de uma velha história que se contava sobre um treinador que marcava ao homem por todo o campo. O 5 com o 8, o 2 com o 7, o 6 com o 10, etc. No final, após perder por 0-4, um dos seus jogadores foi entrevistado ainda no relvado, ofegante. Quando lhe perguntaram como correra o jogo, respondeu de pronto: “Perdemos, correu mal, mas…o meu nem tocou na bola!”
Em Roterdão, o empate final (1-1) traduziu o equilíbrio no jogo e Afellay quase nunca teve espaço, nem tempo, para soltar o seu futebol iluminado. Drenthe quase não o deixou respirar, mas também raramente teve liberdade para se soltar, e jogar o seu jogo, atacando como gosta.
Quando se retira auto-determinação a uma equipa, ou a alguns dos seus elementos chave, este é o primeiro passo para, em vez de corrermos por onde queremos, passar a correr por onde o adversário quer.