É uma questão cíclica. A face do futebol europeu está a mudar. Desde que, no inicio dos anos 70, quando o estilo latino começou, apesar do seu virtuosismo técnico, a não conseguir acompanhar o ritmo da condição atlética, as nações anglo-saxónicas, com a Alemanha á frente, tomaram de assalto o poder do futebol europeu, nada intimida mais o resto do mundo futebolístico do que o futebol força. Imperiosas as suas equipas cavalgaram nas competições europeias, deixando marcas com grandes exibições e títulos, protagonizados por jogadores de grande nível e equipas terríveis, cujo auge se expressou, ao longo da década de 70, pelos fabulosos Bayern Munique de Beckenbauer e Muller e Borussia Monchengladbach de Netzer e Simonsen.
Uma atmosfera que também se estendeu a outras nações geograficamente próximas. Situada entre o norte e o sul do Velho Continente, a Holanda começou, na primeira metade do século, por expressar um jogo essencialmente físico, de inspiração britânica. Com o tempo, porém, foi lapidando os seus conceitos e acrescentando-lhe uma notável circulação de bola congeminou a grande revolução táctica dos anos 70. O suporte de tal ideologia, mentora do Futebol-Total, estava, no entanto, na capacidade atlética dos seus jogadores. Sem ela era impossível a polivalência demonstrada ser eficaz.
Analisando a evolução competitiva das equipas alemãs nas competições europeias de clubes podem-se observar a evolução da força no cenário do futebol europeu. Depois de os últimos anos terem marcado um regresso aos velhos tempos de domínio latino, o paraíso europeu da técnica, o inicio do novo século parece indicar, como tendência dominante, o renascer do império do futebol força, sublimado na poderosa Alemanha, saído de um período de crise de identidade que tocos os seus clubes e selecção.
A final da Taça UEFA, entre o Borussia Dortmund e o Feyenoord holandês, após ambos eliminarem equipas italianas, mais do que um mero facto de circunstância futebolística, parece indicar uma nova era, á que, esta época, só o Real Madrid resiste.
Razões para um novo domínio

Mas, afinal, o que condiciona e motiva o nascer e consolidar de um ciclo de poder no futebol mundial ou europeu? Pode-se falar em vários factores: questões geracionais, evolução táctica, aspectos financeiros, alterações de regulamentos (como o número de estrangeiros ou a forma de disputa das provas), até, numa análise mais profunda, questões de projecto global desportivo.
No presente, enquanto os italianos, acusam, como diria Trapattoni, numa tentativa de explicar a débacle transalpina, um excesso de stress competitivo, os anglosaxónicos voltam ao poder, mantendo inalterável o seu desenho táctico, 3x5x2, salvo o Bayern Munique que joga em 4x4x2. Depois de um período de alguma encruzilhada estilística, demasiado hipotecados á condição atlética, resgataram a criatividade musculada e criaram novos médios ofensivos muito fortes técnica e atleticamente, como Ballack, Scholl e Deisler. Juntos eles são o embrião do novo ciclo da força que em plena era pós-Bosman, surge temperado com outras influências. Brasileiros, argentinos, checo, etc. Uma mescla explosiva de que o Borussia Dortmund e Bayer Leverkussen são exemplos perfeitos.
Noutro campo, ao invés dos italianos e espanhóis, financeiramente não cometem grandes loucuras, formando, assim, muitas vezes, planteis mais equilibrados. Para além disso, sentem menos pressão para ganhar as suas competições internas, dispondo de uma concentração competitiva permanente, ao contrário dos latinos, mais voluteis emocionalmente.
Todo o futebol do norte da Europa mudou muito nas ultimas duas décadas. Basicamente, o segredo reside na adaptação da força aos novos tempos técnico-tácticos. O caso alemão é evidente. A permissão de utilizar maior número de estrangeiros foi, no entanto, decisivo para esse novo impulso. Neste momento, todo o futebol latino, sobretudo o italiano, necessita de repensar as suas propostas exibicionais. Um aspecto parece, porém, consensual. É a técnica a raiz da classe futebolística. O novo rosto do futebol-força confirma essa teoria.
BORUSSIA DORTMUND:
A arte e o músculo

As tradições do Borussia Dortmund no futebol europeu remontam aos anos 60, década em que se tornou a primeira equipa germânica a vencer uma competição europeia. Sucedeu em 1966, quando, no fervor de Glasgow, bateu o Liverpool de Shankly por 2-1 e conquistou a Taça das Taças. Neste onze, orientado por Multhap, alinhavam cinco figuras da selecção alemã dessa época: o guarda redes Tilkowski, os extremos Emmerich e Held, o ala direito Libuda e o médio armador Sturm. O futebol alemão de clubes passava, finalmente, a integrar a elite europeia. Teriam, no entanto, de passar quase três décadas para o Borussia Dortmund voltar a acariciar uma coroa europeia.
O arranque para os novos dias de gloria, sucederia em 1991, data da chegada ao seu banco, após oito anos na Suíça, o técnico que iria congeminar os melhores onzes da história de Dortmund: Ottmar Hitzfeld. Para tal missão contou cm um must de figuras onde se destacava um grupo resgatado á Juventus, com Reuter, Kohler, Moller, Paulo Sousa e Júlio César. Estrelas para um firmamento onde também passaram Riedle, Chapuisat, goleador suíço, Povlsen, avançado centro dinamarquês, Zorc, médio defensivo australiano, as promessas germânicas Ricken e Reinhardt, e o magistral líbero Matthias Sammer, actual treinador, aquele que foi, nas palavras de Hitzfeld, o Beckenbauer dos anos 90. Juntos conquistariam o titulo europeu em 1997.
No estilo de jogo do fabuloso Borussia Dortmund dos anos 90, mescla de força e técnica, pode-se observar a evolução do futebol alemão nos últimos 50 anos. Apesar de Hitzfeld já ter partido há vários anos, ainda se nota um leve toque da sua obra em certos movimentos desta equipa agora liderada pelo seu antigo super-líbero, Sammer, que, após o fracasso de Skibe, devolveu a confiança e o espirito de conquista ao Westfalanstadion.
A herança de Hitzfeld faz-se sentir, sobretudo, no plano defensivo, com o veterano Kohler, 36 anos, campeão europeu em 1997, e o experiente Worns, enquanto Reuter, antigo central solidificou-se no meio campo. O toque de classe é dado, porém, pelo jovem Kehl, 21 anos, central ou lateral direito, ideal para sistemas de 3x5x2, com apenas três defesas. Rápido, muito inteligente a ler o jogo é o tipo de jogador que basta olhar para se ver quem tem classe.
Contando a meio campo com os dinâmicos Ricken, outro sobrevivente de 97, o ganês Addo e o jugoslavo Stevic, o onze de Sammer ganha aroma técnico através de um quarteto de brasileiros que integraram-se com destreza e perfeição no futebol alemão, onde o drible, ao invés do que sucede na América do sul, terá sempre de ser em progressão: Amoroso, o desconcertante avançado centro que faz dupla no ataque com o possante ponta de lança checo Koller, o extremo Ewerton, ex-Corinthias, autor de 10 golos, quase todos decisivos para a conquista da Bundesliga, e os defesas laterais Dédé, na esquerda e Evanilson, na direita. Uma sublime mescla de escolas gerida, a meio campo, pelo jovem nº10 checo Rosicky, 22 anos, um franzino maestro com técnica, picardia e grande visão de jogo.
FEYENOORD:
A escola do futebol ofensivo

No inicio, era o pequeno campo De Kromme Zandweg. Depois, foi o estádio Afrikaanderplein. Em 1937, por fim, nasce o mítico De Kuipt, a Banheira, o inferno de Roterdão, feudo do Feyenoord, o primeiro clube holandês, na história, a surgir com força no Velho Continente. Tudo começou em finais dos anos 60, numa época em que o poder do futebol europeu se encontrava dividido entre o estilo latino e o clássico chuta e corre britânico, o futebol holandês ofereceu ao Velho Continente uma nova forma de abordar o jogo, que partindo de sólidas bases físicas, mesclava depois a condição atlética, com a técnica e, sobretudo, a dinâmica da táctica. A nível de clubes, antes do Ajax, foi o Feyenoord a levar essa mensagem a todo a Europa.
Na condução da equipa estava a velha águia austríaca Hernst Happel que construiu a equipa em torno de quatro homens chave: Na defesa, o líbero Israel. A meio campo, dois médios demolidores, Wim Jansen na direita e Van Hanegam na esquerda. No ataque, o terrível goleador sueco Kindvall. Um grupo de grande categoria que levaria, em 1970, o Feyenoord á final da Taça dos Campeões Europeus, frente ao Celtic Glasgow de Jock Stein (a primeira final sem uma equipa latina) decidida, no prolongamento, com um golo de Kindvall. O futebol holandês conquistava a sua primeira coroa europeia. Quatro anos depois, o Feyenoord, ainda com a mesma base, mas treinado por Coerver, voltaria ao topo da Europa com a conquista da Taça UEFA.
O exército de Van Hoijdoonk
Tacticamente, o futebol holandês de clubes atravessou, esta época, uma fase de contradição histórica que preocupa os seus mais devotos adeptos, amantes do futebol belo e ofensivo que o tornou mítico. No seu lugar surgiram as tácticas defensivas antes desprezadas. Foram os casos de, no Ajax, Co Adriaanse, sem as grandes estrelas do passado, deixou o dinâmico 4-3-3, passando a jogar num defensivo 5-2-1-2, variante do 5-3-2, ao que seguiu Koeman também como um cauteloso 4-4-2, como antes fazia no Vitesse. O mesmo sistema de Rijkaard, no Sparta, com Winter a trinco, e Neeskens, no Nec, com marcações individuais.
A única excepção a este desolador cenário, foi o Feyenoord de Bart Van Marwijck, devoto do 4-3-3, que, muitas vezes, em fase ofensiva, na saída de bola, se transforma em 4-2-4, com dois extremos, Kalou e Leonardo, um ponta de lança de raiz, Van Hoijdoonk e outro falso, Tomasson, que entra de trás. O equilíbrio defesa-ataque é suportado, no entanto, pelos médios-ala, o jovem polaco Smolarek, 20 anos, sobre a esquerda, e o sueco Elmander, na direita, enquanto Bosvelt chefia na zona central, num sector onde o japonês Shinji Ono, sobre a direita, dá o toque oriental a este sedutor cocktail de estilos.
Para o sábio Van Marwijk, porém, o segredo para o êxito de uma equipa ofensiva no futebol moderno reside em ter uma defesa experiente que suporte a rebelde dos avançados. É, neste entendimento, que a defesa de Roterdão, é formada pelos experientes De Haan, Wonderen e Rzasa, o outro polaco da equipa, surgindo como grande revelação da equipa, o australiano Emerton, mais do que um simples defesa direito. Possante, faz todo o flanco e surge muitas vezes a jogar como médio em triangulações ofensivas.
EQUIPAS ALEMÃS E HOLANDESAS:
FINAIS EUROPEIAS
Taça / Liga dos Campeões
ANOS 60
1960 Real Madrid- Eintracht Frankfurt 6-3
1969 Milan-Ajax 4-1
ANOS 70
1970 Feyenoord-Celtic 2-1
1971 Ajax-Panathinaikos 2-0
1972 Ajax-Inter 2-0
1973 Ajax-Juventus 1-0
1974 Bayern Munique-At.Madrid 4-0
1975 Bayern Munique-Leeds 2-0
1976 Bayern Munique-Saint Etienne 1-0
1977 Liverpool- Borussia Monchengladbach 3-1
ANOS 80
1980 Nottingham Forest-Hamburgo SV 1-0
1982 Aston Villa- Bayern Munique 1-0
1983 Hamburgo SV- Juventus 1-0
1988 PSV-Benfica 0-0 (6-5 g.p.)
ANOS 90
1995 Ajax-Milan 1-0
1996 Ajax-Juventus 1-1 (2-4 g.p.)
1997 Borussia Dortmund-Juventus 3-1
1999 Bayern Munique- Manchester United 1-2
2001 Bayern Munique-Valência 1-1 4-3 g.p.)
Taça das Taças
ANOS 60
1966 Borussia Dortmund-Liverpool 2-1
1967 Bayern Munique-Glasgow Rangers 1-0
1968 Milan-Hamburgo SV 2-0
ANOS 70
1979 Fortuna Dusseldorf-Barcelona 3-4
ANOS 80
1987 Ajax-Lokomotiv Leipzig 1-0
1988 Malines-Ajax 1-0
ANOS 90
1992 Werder Bremen-Monaco 2-0
1998 VFB Stuttgart-Chelsea 0-1
Taça UEFA
ANOS 70
1973 Borussia Monchengladbac-Liverpool 2-0 e 0-3
1974 Feyenoord-Tottenham 2-2 e 2-0
1975 Borussia Monchengladbach-Twente 0-0 e 5-1
1978 PSV-Bastia 0-0 e 3-0
1979 Borussia Monchengladbach-Estrela Vermelha 1-1 e 0-1
ANOS 80
1980 Borussia Monchengladsbach-Eintracht Frankfurt 3-2 e 0-1
1981 Ipswich-AZ 67 Alkmaar 3-0 e 2-4
1982 IFK Goteborg-Hamburgo SV 1-0 e 3-0
1986 Colónia-Real Madrid 1-5 e 2-0
1988 Espanhol-Bayer Leverkussen 3-0 e 0-3 (2-3 g.p)
1989 VFB Stuttgart-Nápoles 1-2 e 3-3
ANOS 90
1992 Ajax-Torino 2-2 e 0-0
1993 Borussia Dortmund-Juventus 1-3 e 0-3
1996 Bayern Munique-Bordeaux 2-0 e 3-1
1997 Schalke 04-Inter 1-0 e Inter-Schalke 04 0-1 (1-3 g.p.)