Figura no nosso imaginário como o País dos Mil Lagos. Condicionado por um clima frio, onde as noites se confundem com os dias, na Finlândia muitos jogos são disputados após uma bela noite de sol. É o chamado sol da meia-noite, um apaixonante fenómeno meteorológico que nos faz perder a noção do tempo. Ao invés do resto do mundo, nestas gélidas regiões o futebol é um desporto de Verão. Os rigorosos invernos duram de Novembro a Abril, seis meses em que a vida se torna branca. Com os primeiros pálidos raios de sol, a temperatura aproxima-se dos 10 graus, e o futebol volta a pisar os duros relvados, esfregando o nariz vermelho e dando os primeiros passos de uma época que irá até Setembro. Apenas seis meses por ano de competição não permitem grandes aspirações aos seus clubes e selecções.
Nesse universo, tal como a maioria das nações do norte da Europa, a Finlândia viveu durante longos anos distante da elite do futebol do Velho Continente. Ainda hoje as maiores paixões desportivas dos nórdicos são pelo o hóquei o gelo, o ski e outros desportos de Inverno. Até aos anos 80, a expressão competitiva do seu futebol resumia-se à Suécia.
A década de 90 iria, no entanto, mudar este status internacional. Assim, no corolário de um processo de profissionalização estrutural, muitas selecções das terras do norte, decidiram quebrar o gelo e, com a força física como bandeira, invadiram, sem medo, os grandes palcos do futebol mundial.
Para trás fica a imagem caricata que muitos davam do estilo de futebol norte europeu, insinuando que o seu jogo assentava apenas em três formas de fazer sofrer o adversário: 1.ª taclke por trás, 2.ª agarrar a camisola, 3.ª cotovelada no nariz. Tudo em 90 minutos onde era proibido rir!
Hoje, o futebol norte-europeu é respeitado por todo o mundo. Seguindo a explosão competitiva de nações como a Noruega e a Dinamarca, para além claro, da Suécia, a Finlândia também despertou e, na última década do século, inspirada sobretudo no talento de Litmanen, a sua maior estrela, conseguiu incutir maior componente técnica no seu jogo essencialmente atlético, permitindo-lhe, desta forma, ambicionar atingir a um nível competitivo nunca antes sonhado.
O quebrar do gelo

Historicamente, a selecção finlandesa nunca logrou o apuramento para uma grande competição internacional. O seu maior feito reside numa longínqua presença nas meias-finais dos Jogos Olímpicos de 1912. Só durante os anos 80, o nível do seu jogo ganhou alguma dimensão internacional, destacando-se, nesse tempo, figuras como Ari Hjelm e Mixu Paatelainem, a jogarem na Alemanha e em Inglaterra. Apesar do valor desta geração, a primeira da era semi-profissional, seria só com a chegada do técnico dinamarquês Roger-Moller Nielsen, em meados dos anos 90, que a Finlândia ficaria, pela primeira vez na sua história, muito perto de se apurar para um Mundial, quando após vencer na Suíça e empatar na Noruega, bastava-lhe apenas uma vitória no último jogo, em Helsínquia, contra a Hungria, para obter o passaporte para o França-98. No entanto, talvez sentindo a pressão, o onze suomi tremeu e, após estar a ganhar desde cedo, sofreu um golo no ultimo minuto e acabou afastado dessa histórica qualificação.
Sem atingir o palco de um Europeu ou de um Mundial, a selecção da Finlândia, actual xxª do Ranking da FIFA, com um estilo de jogo tecnicamente mais evoluído que o noruegês, não atingiu a mesma projecção de outras selecções norte europeus, com valor semelhante, como a Noruega e a Dinamarca.
A campanha realizada na fase de apuramento para o Mundial-2002, onde empatou com a Alemanha e Inglaterra, provam, no entanto, esta evolução. No comando do equipa está agora o experiente treinador Antti Muurinen, que antes de chegar á selecção, passara já pelo banco de vários clubes finlandeses, como Kuusysi, Jaro, Lahti, Kontu e o credenciado HJK Helsenki. Com ele a equipa ganhou maior confiança, mas, com a maioria dos seu principais jogadores a alinhar no estrangeiro, o conjunto parece, muitas vezes, perante fracas assistências, denotar alguma falta de ambição em campo. Talvez por isso, as suas melhores exibições sucedem contra adversários mais fortes, quando o estimulo competitivo é maior. É difícil, no entanto, combater uma herança de longos anos em que o futebol sempre foi um desporto filho de um gelo menor.
AS ESTRELAS DOS MIL LAGOS

Tanto ou mais importante do que o talento técnico de um futebolista, é muitas vezes a sua atitude competitiva. Dono de grande fantasia com a bola nos pés, capaz de gestos artísticos quase latinos e com sublime visão colectiva de jogo, Jari Litmanen parecia, quando em meados doa anos 90 explodiu com a camisola nº10 do Ajax, destinado a afirmar-se como uma das principais figuras do futebol europeu dos anos seguintes. Foi, aliás, pensando nesses atributos que Van Gaal o trouxe consigo para Barcelona. Em Espanha, porém, sem o mesmo protagonismo dentro da equipa, sujeito a maior pressão competitiva, o brilho do futebol de Litmanen foi-se apagando. Hoje, com 31 anos, no Liverpool, encontra-se já numa clara fase de, digamos, descompressão competitiva. Apesar disso, o jogo da selecção finlandesa continua a girar em torno dele.
Quase todas as principais estrelas do futebol dos mil lagos jogam no estrangeiro, sobretudo em Inglaterra, onde, tal como sucede com a vasta legião de noruegueses presentes nos relvados da Velha Albion, o seu estilo atlético, forte no jogo aéreo e com poder de choque se enquadra com perfeição.
Na baliza, continua o seguro Antti Niemi, guarda redes do Hearts, da Escócia, a última barreira do iceberg futebolístico finlandês, tacticamente explanado num agressivo 4-4-2, com um ponta de lança, Forssel, do Chelsea, dois médios alas que, sem a bola, na fase defensiva, fazem o papel de interiores, pressionando o adversário. Uma missão de sacrifício desempenhada sobretudo por Kolkka, jogador do Panathinaikos e Johansson, do Charlton, escudados na defesa pelo imponente Hyypia, figura do Liverpool.. Embora o onze possua outros elementos de valor, como, Tihinen, do Viking Stavenger e Saarinen, do Rosenborg, na defesa, e Tainio, do Auxerre e Riihilahti, do Crystal Palace, é no quarteto formado pelas estrelas Hyypia-Johanssen-Litmanen-Forssel que assenta toda a coluna vertebral da equipa
Este são os seus bilhetes de identidade:
Sami Hyypia
28 anos
Posição: Defesa-central
Clube: Liverpool (desde 1999, ex-Willem II)
Um gigante. Com 1,92m., só a sua simples presença inspira respeito. Muito forte no jogo aéreo, gosta de jogar de primeira e executar longos passes m profundidade. O típico estilo defensivo inglês, maturado com um exemplar posicionamento em campo, comandando todo o sector mais recuado.
Jari Litmanen
31 anos
Posição: Médio-centro
Clube: Liverpool (desde 2001, ex- Ajax e Barcelona)
A grande estrela da equipa. Dele se poderá dizer o lugar comum que passou ao lado de uma grande careira, pois não triunfou em Barcelona, quando, pelo seu talento, técnica e inteligência tinha valor suficiente para ser o nº10 que o Nou Cam precisava. Faltou-lhe carácter em campo.
Jonatan Johansson
26 anos
Posição: Médio
Clube: Charlton (desde 2001, ex-Glasgow Rangers)
Um sueco naturalizado finlandês. Forte fisicamente, com 1,85 m., é um operário do meio campo, tacticamente muito influente. Não possui grandes dotes técnicos, mas corre os noventa minutos.
Mikael Forssel
21 anos
Posição: avançado
Clube: Chelsea (desde 1998, ex-HJK )
Um investimento do Chelsea para o futuro. Contratado muito novo ao HJK, foi emprestado ao Crystal Palace para adquirir experiência. De regresso a Stanford Bridge, actuando entre o meio campo e a linha ofensiva, já fez quatro golos. No inicio da época falou-se nele para substituir o checo Jan Koller no Anderlec