Sem grande imaginação, procurando sempre aumentar a dimensão física do jogo, a Finlândia, embora tecnicamente mais evoluída do que, por exemplo, a Noruega, vive, em campo, refém da falta de criatividade que é, no global, comum a todas as selecções norte-europeias. É uma questão de escola. No relvado, Litmanen, o maior símbolo do futebol finlandês, é ainda, apesar do peso dos 35 anos, o patrão de uma selecção hoje orientada por um técnico inglês conhecedor do futebol nórdico, Roy Hodgson. Antes já treinara Orebro SK, Malmoe, FC Kopenhagen e Viking FK. Os progressos do futebol finlandês nas últimas década são, no entanto, evidentes. As suas principais figuras jogam no estrangeiro e isso deu-lhe uma mentalidade competitiva mais forte. A verdade, porém, é que, depois, de atravessar um período de crescimento em meados dos anos 90, o onze dos mil lagos quebrou no início do novo século. Faltar-lhe uma politica de base que sustente as várias fases desse processo de crescimento. Apesar disso, esta é a melhor geração da história do futebol finlandês.
Vayrynen-Tainio-Litmanen: o equilíbrio do onze
Em termos tácticos, alterna entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1. Em ambos, funciona como um bloco, mantendo sempre as linhas entre a defesa e o meio-campo muito próximas, sem nunca perder os elos de ligação entre elas. Esta união pode ter, no entanto, diferentes consequências em campo, conforme a dinâmica de transição ofensiva do onze. Ou seja, quando o faz dentro do 4x4x2, com dois pontas-de-lança mais clássicos, tal dificulta, muitas vezes, o lançar do contra-ataque, pois, como é muito forte no jogo aéreo (com duas verdadeiras torres no centro da defesa, a dupla Tihinen-Hyypia) não receia recuar para defender perto da sua área, o que provoca, depois, uma distância demasiado longa entre a linhas meio-campo-ataque, separados, assim, por um fosso só superado através de lançamentos longos. Não é esse, porém, o estilo preferido do futebol finlandês que, apesar da escola nórdica, gosta de trocar a bola, em dois-três toques no máximo (consciente das suas limitações técnicas) e sair apoiado para o ataque, papel interpretado, de trás para a frente, por três jogadores que são os pilares da equipa: Vayrynen, o pivot que assegura o inicio da transição, Tainio, médio recuperador e queima-linhas, e Litmanen, nº10/enganche com o ponta de lança.
ENTRE O 4X2X3X1 E O 4X4X2: Litmanen, a chave da transformação

Os últimos dois jogos realizados (Irlanda, particular, e Polónia, Euro-2008) exemplificaram as duas dinâmicas tácticas do onze. Na Irlanda, em 4x4x2, com dois médios recuperadores, alas posicionais que partiam de trás para a frente, e dois pontas de lança em cunha, a equipa partiu-se na transição ofensiva, algo que só era disfarçado quando um dos avançados, Eremenko, recuava para vir buscar jogo. Defendeu demasiado atrás e perdeu a fluidez de contra-ataque. A exibição na Polónia, sábado passado, foi a prova de como o onze se equilibra tacticamente melhor em 4x2x3x1, adquirindo, depois, na fase ofensiva, um design de 4x4x2, fruto da subida do médio ofensivo-segundo avançado, Litmanen. É ele que gere os timings de transformação do sistema. Quando o onze não tem a bola, recua e, colocando-se de perfil com os médios-alas, trabalha na recuperação sobre o corredor central (4x2x3x1). Quando a recupera, solta-se para a frente de ataque, surgindo ao lado do ponta de lança, como um segundo avançado que entra de trás (4x4x2). Uma missão desempenhada com grande inteligência táctica, visão de jogo e qualidade técnica, embora, claro, sem a velocidade de outrora. Em qualquer sistema, Hodgson nunca prescinde de dois médios-centro defensivos. Um mais recuperador (Heikkinen, Ilola ou Rihhilahti), e outro mais solto, como pivot, o primeiro passo na transição defesa-ataque, papel desempenhado por Vayrynen, o farol da equipa. Sabe segurar a bola e, embora sem ser muito rápido, sair a jogar com cabeça levantada, funcionando como placa giratória para fazer circular o jogo.
PONTO FRACO A ATACAR: OS FLANCOS. Principal missão: defender

Apesar da intenção em alargar o jogo nas faixas, a verdade, porém, é que reside nesses espaços, um dos pontos menos fortes da equipa, pois sem extremos, raramente dá profundidade de jogo pelos corredores laterais. É, nesse sentido, uma equipa sem flancos, realidade potenciada pelas características dos jogadores que ocupam essas zonas. Na esquerda, Kolkka, como é destro, tende sempre a flectir no terreno, jogando de fora para dentro. Na direita, tem surgido Tainio, médio-centro defensivo de origem. Colocado numa faixa, cumpre a defender, fechando o sector, mas, depois, recuperada a bola, revela dificuldades em soltar-se para o ataque. O onze tende, assim, a afunilar demasiado o jogo, facto que é agravado pelo facto de, preocupado em manter a defesa sempre completa para nunca perder a segurança atrás, os laterais raramente subirem. Quer Pasanen, à direita, como Kallio, à esquerda, preocupam-se mais em fechar o seu flanco do que sair em apoio ao ataque. Apenas Kallio se solta algumas vezes, mas sempre muito cauteloso. O único momento em que as faixas ganham maior profundidade é com Nurmela, um ala mais clássico, veloz e que, sobre o lado direito, procura a linha para cruzar. Com ele em campo, a equipa estende-se melhor a toda a largura do terreno e ganha maior profundidade pela faixa. A solução seria, assim, colocar Tainio na sua posição de origem, fazendo dupla com Vayrynen no centro, e soltar Nurmela no flanco direito, mantendo Kolkka na esquerda. Hodgson prefere, no entanto, a variante onde a prioridade seja fechar os flancos, garantido a consistência defensiva desde posições mais adiantadas.
PONTAS-DE-LANÇA DE RESPEITO: Johansson, Forssell e o «russo» Eremenko

Para o ataque, existe um interessante trio de avançados: Forssell, Johansson e Eremenko. Tem estilos diferentes. Na Polónia, jogou o veterano Johansson, em cunha ente os centrais adversários. Não é muito veloz pelo que tem dificuldades em fugir às marcações. Usa sobretudo o seu poder físico para ganhar a bola e segurá-la para esperar a chegada, desde trás, de Litmanen. Forssell é diferente. Mais móvel e rápido, surge muito oportuno nos espaços vazios, obrigando os defesas a correr atrás dele. O mais talentoso é Eremenko. Embora também não seja muito veloz, é possante, ganha bolas divididas e, depois, tecnicamente evoluído, recua para vir buscar jogo atrás, passa e surge na área. Nas costas, Litmanen é o cérebro que coordena o ataque nas imediações da área adversária.