Depois de um inicio hesitante, que, face à ausência de golos, colocou em questão o sistema adoptado, sobretudo por no banco estar um ponta de lança como Trezeguet (o que levaria a uma alteração táctica, para o 4x3x1x2), Domenech soube aguentar a pressão e, insistindo nas suas ideias, conseguiu dar como uma, digamos, segunda vida, a jogadores que pareciam já extintos, como Thuram, Vieira e Zidane.
A filosofia de jogo
Em qualquer modelo (4x2x3x1 ou 4x3x1x2) mantêm a mesma filosofia. Não procura tomar a iniciativa. Prefere controlar do que dominar. Está consciente das suas limitações físicas e, em campo, sabe temporizar o ritmo, colocar a bola em zonas neutras e esperar pelo o que jogo dá, tentando, ao mesmo tempo, esperar por um erro posicional do adversário. Prefere um ritmo baixo que permita fazer a bola rodar de pé para pé. Joga de memória. Todos os jogadores adivinham os movimentos do colectivo. Raramente falham um passe, adormecem o adversário, e, depois, aceleram com Ribery e Henry, ou, claro, num rasgo de génio de Zidane.
PRINCIPÍOS E VARIANTES DO SISTEMA: As dinâmicas do 4x2x3x1

É o seu sistema preferencial, aquele em que os jogadores tem mais mecanizados os seus princípios de jogo subjacentes. Parte de uma clássica defesa a «4», com centrais poderosos no jogo aéreo e que tanto podem jogar à zona como ao homem. Thuram é o central que ataca a primeira bola, enquanto que Gallas joga mais nas dobras, com sentido de antecipação e intercepção das linhas de passe. Nas faixas, Sagnol é o dono do corredor direito. Sólido a defender, sobe, depois, em apoio, isto é para servir de referência de triangulação ao médio-ala extremo ou, noutra dinâmica, procurar cruzamentos, flanqueando jogo ou metendo a bola na área. Na esquerda, Abidal, menos consistente a defender, sereno com a bola nos pés, sabe sair muito bem a jogar pelo seu corredor, mas, muitas vezes, relaxa na marcação e perde o timing certo de corte. A outra opção é Silvestre, tacticamente mais culto, mas algo lento a lar o jogo no inicio da transição ofensiva.
O circuito de jogo do meio campo

Na primeira linha do meio campo, a primeira referência reside no pivot defensivo central: Makelele. É a placa giratória recuada que inicia, preferencialmente em passes curtos, o circuito preferencial de jogo gaulês. Segura a bola, lê o jogo, levanta a cabeça, traça coordenadas à direita ou à esquerda, e distribui. Sempre muito seguro e com velocidade de execução. A seu lado, Vieira é o médio de transição. Sem bola, recua para auxiliar na cobertura, mas, no momento imediato à equipa perder a sua posse, as suas acções de recuperação são sempre feitas mais adiantado no terreno, como responsável máximo do chamado pressing alto. Com bola, na dinâmica de transição ofensiva, tem tendência a descair para a direita. Cobrindo as costas a Ribery ou Sagnol, ou, com grande condição atlética, fazer, em posse e progressão, o transporte de bola para a frente. No centro da segunda linha, mora o último nº10 á moda antiga do futebol actual: Zidane. Está mais lento, naturalmente. A velocidade nunca foi, no entanto, a sua maior aliada. Em termos de visão de jogo, continua a ler todos os lances pelos menos 20 segundos antes de todos os outros jogadores em campo. Com a bola nos pés, ilumina qualquer jogada, abre nos flancos, descobre linhas de passe camufladas e, depois, ainda surge nas imediações da área adversária, para rematar ou fazer o último passe. É proibido dar-lhe tempo e espaço pensar muito tempo com a bola.
Extremos: velocidade e inteligência

A principal fonte de desequilíbrios ofensivos da equipa mora, no entanto, sobre as faixas. Na direita, Ribery é o acelerador de jogo. Tem uma velocidade com bola estonteante. Procura a linha para centrar, muito forte no um para um, ou mais em diagonal, quando busca flectir no terreno, descobriindo espaços para furar entre a defesa adversária. Na esquerda, Malouda é um jogador menos explosivo, mas tacticamente crucial para garantir o equilíbrio da equipa nas transições defesa-ataque-defesa. Temporiza muito na posse de bola, posicionalmente alarga muito bem o jogo, colando-se à linha, e, depois, ocupa o seu flanco com inteligência, procurando triangulações. Exímio nos movimentos interiores, ele é, em termos tácticos, a âncora posicional que liberta Zidane. Isto é, como o 10 gaulês descaí mais sobre a esquerda, Malouda, astuto, compensa defensivamente os seus avanços, nunca deixando a equipa descompensada na transição defensiva.
Os movimentos de Henry
No ataque, Henry é um daqueles pontas-de-lança impossíveis de marcar em cima, pois nunca dá uma referência posicional fixa. O seu movimento preferencial é quando recua sobre o flanco esquerdo, muitas vezes até quase a entrada do meio campo adversário, e, depois, arranca decidido, em velocidade serpenteada, rumo à baliza adversária, procurando espaço para fazer golo, ou, quando entra pela faixa, uma mortal linha de passe recuada.
4x3x1x2: A SEGUNDA OPÇÃO/ A fórmula-Trezeguet

É a segunda opção de Domenech, utilizada contra o Togo. Reside numa variante do 4x4x2, com dois pontas de lança. Nesta dinâmica, Trezguet é o ponta-de- lança fixo, em cunha entre os centrais, deambulando Henry por toda a frente de ataque. O meio campo esquematiza-se quase em losango. Makelele mantêm-se à frente da defesa, mas Vieira e Malouda oscilam mais para os flancos, para alargar jogo e cobrir melhor os espaços a atacar e defender. Zidane permanece o vértice ofensivo. Como contra o Togo estava castigado, foi Vieira que ocupou esse espaço, embora partindo de trás, surgindo Ribery na direita, menos consistente defensivamente, mas endiabrado a atacar. É um modelo, no entanto, que, em relação ao 4x2x3x1, privilegia menos o jogo pelos flancos, que, desta forma, fica mais entregue á iniciativas dos laterais.
Africa voltou a provar este Mundial como continua a ser o eterno futebol do futuro. Esta França transporta, porém, um intenso aroma a outros continentes que ultrapassam as suas fronteiras latinas. Como principal fonte de inspiração, a tez negra das suas principais estrelas. Thuram, Gallas, Abidal, Makelele, Vieira, Malouda, Henry. No banco, prontos para entrar, Govou e Saha. Um onze multicultural guiados por um profeta com origens no Magreb, Zidane. Como solução goleadora, um argentino, Trezeguet. Mais uma vez, fica provado, como a misceginação de raças é um dádiva para o futebol.