França: futebol “vertical”

13 de Setembro de 2010 14:53
Em vez de avançados, as equipas têm corredores de fundo que tornam facilmente um jogo horizontal num jogo vertical!

 

Enquanto a selecção continua em busca de novas referências, a Liga francesa, sem investimentos faraónicos de outros territórios, continua a soltar, nos seus relvados, interessantes aromas de bom futebol. Olhando o estilo de jogo dominante, diria que é a Liga ideal para fazer crescer jogadores. Quase todas as equipas jogam com extremos, preferencialmente em 4x3x3 ou 4x2x3x1, com velocidade a atacar. Parece que em vez de avançados, a maioria das equipas tem, no ataque, corredores de fundo que tornam facilmente um jogo horizontal num jogo…vertical! A maioria desses craques têm tez negra, oriundas das antigas colónias francesas ou vindos muito novos de África e crescidos nos centros de formação dos clubes gauleses. É um factor que, cruzado com pivots fortes a meio-campo, aumenta o nível competitivo das equipas que não lutam pelo título. Um bom exemplo deste estilo é o Rennes, com Montaño e Asamoah Gyan soltos no ataque, apoiados por Leroy e Brahimi, alas que vêm mais para dentro. Mais exemplos: o ataque do Lille, com Gervinho e Sow sempre em aceleração e a sedutora promessa belga Hazard a inventar desde a esquerda. No Lorient, explodiu Kitambala, combinando com Gameiro.
 
A equipa do momento neste arranque de época é, no entanto, o Toulouse. Quatro jogos, quatro vitórias. Perdeu agora o seu goleador (Gignac) mas não abalou muito porque o seu suporte táctico está em outros jogadores: o trinco-pivot Capoue, o avançado norueguês Braaten de passada larga e, pegando nas rédeas do jogo, Paulo Machado. Está, claramente «mais jogador» no sentido da responsabilidade táctica (parte de um flanco e surge no centro a organizar e passar) e do controlo emocional. Será difícil o Toulouse aguentar-se no topo até ao fim, mas as suas convicções de jogo garantem-lhe qualidade na ocupação dos espaços (e dinâmica neles). Um bom exemplo do tal habitat para os jogadores crescer. Como sucede com Paulo Machado.
 
Dos clássicos candidatos, a crise do Marselha arrastou consigo, após três jogos, o, talvez, melhor avançado da Liga: Niang (saiu para o Fenerbahce). Gignac é um jogador completamente diferente (mais posicional). Lucho continua a agarrar a equipa no meio-campo (ficando a dupla Cissé-Cheyrou mais na pressão), mas os irmãos Ayew, apesar da criatividade que colocam no jogo, não têm o sentido adulto de serenar o jogo ofensivo da equipa (segurar a bola, temporizar, arrancar) transformando-o numa sucessão de esticões. Valbuena é quem o faz melhor. A ideia que fica é que Lucho pega na bola já em posições demasiado adiantadas para organizar jogo de trás para a frente. Ou seja, mais perto da baliza, mais longe do…jogo.
 
 
Gourcuff e Toulalan  
 
É o maior talento da actual geração gaulesa mas continua sem estabilizar essa classe. Gourcuff mudou agora de Bordeaux para Lyon. Tacticamente, a sua entrada no onze implica a mudança do 4x4x2 para 4x2x3x1 ou 4x1x3x2, pois, pelas suas características, Gourcuff só pode jogar no centro da segunda linha do meio-campo. Com ele, dificilmente Puel pode montar um 4x4x2 clássico, como no último jogo (contra o Lorient). Quando meteu Gourcuff mudou para 4x2x3x1 (com Gomis a 9) e depois para 4x1x3x2 (com Lisandro na dupla do ataque). A equipa ainda não estabilizou um sistema e, em zonas recuadas (espaço dos pivots-defensivos) criou um problema ao recuar Toulalan de médio para defesa-central. Perdeu a equipa e perdeu o jogador. Toulalan é, claramente, mais um médio nº6 de cobertura, rápido a ler o espaço nas costas dos médios mais ofensivos, surgindo nas dobras em compensação. A central, limita-se ao posicionamento para o corte.
Passa essencialmente por estes dois jogadores (Gourcuff-Toulalan) a regeneração do meio-campo deste Lyon, um puzzle, neste momento, sem as melhores peças nos locais certos. Mais difícil parece conciliar Pjanic com Gourcuff. No ataque, excelente a colocação de Briand na ala-direita, enquanto Lisandro continua a respirar da mesma forma quer no centro como partindo da ala. São os dilemas tácticos de Puel.
 
 
PSG e outras estrelas
 
Olha-se para o onze do PSG e a primeira tentação é reparar no seu ataque: dois alas criativos e rápidos (Nene-Sessegnon) e uma dupla de avançados-centro complementar (Hoarau possante, no ar e a segurar a bola, e Erding, esquivo nas desmarcações). Está montado do 4x4x2. Kombouaré, o treinador, tem, porém, um problema de equilíbrio, pois jogando na variante clássica do sistema deixa muitas vezes demasiado espaço entrelinhas, sobretudo na zona central, o que compromete a transição defensiva. Bodmer é o jogador do duplo-pivot que se solta para pressionar mais alto, enquanto Makelele, sentindo o passar dos anos, move-se cada vez menos e joga em menor espaço de terreno. Precisava de outro pivot mais forte para suportar aquele quarteto do ataque.
O Auxerre, com pedigree de Champions, resgatou Pedretti para mandar no meio-campo. O outro onze a seguir é o Mónaco e a sua imprevista dupla atacante: o coreano Park Chu-youg (ou o congolês Mbokani) apoiado, desde trás, pelo romeno Niculae. Juntos prometem abalar muitos relvados.

 

 

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