FRANÇA: O nascer da geração-Pedretti

20 de Agosto de 2004
A FRANÇA E A GRANDE MISSÃO DE DOMENECH, EXTINTA A GERÊNCIA DE ZIDANE.
A fase final de um Mundial ou de um Europeu são, regra geral, os pontos de referência para o crepúsculo e, consequentemente, ponto de partida para duas gerações opostas de jogadores. Muitas vezes, em certos momentos, elas cruzam-se no tempo, mas há sempre um traço claro a dividi-las. É nesse túnel de reconstrução que se encontra a selecção francesa. Depois da geração-Zidane, o sonho da geração-Pedretti.
Em teoria, a composição de uma selecção devia apenas reger-se pelo critério de convocar sempre, a cada momento, os jogadores em melhor período de forma, quer tenham 18 ou 36 anos, mas, na prática, tudo obedece a uma lógica geracional, com os seleccionadores a pré-estabelecerem uma lista de 35-40 jogadores, de onde tiram depois as escolhas em cada ciclo. Aos poucos, a França viu apagarem-se as estrelas campeãs do mundo em 98. Primeiro Blanc, depois Deschamps e, agora o maestro Zidane. Desta geração, apenas resiste agora um restrito núcleo, não titular em 98, mas que, com menor idade, cruzou-se no caminho da geração-Zidane: Pires, Trezeguet, e, brilhando com luz própria, Henry, a principal referência para receber uma nova casta de talentos, a chamada geração-Pedretti. Na mente dos gauleses está, porém, o receio que se repita o mesmo hiato de qualidade verificado, entre 86 e 94, então após a retirada de Platini. O risco existe, é evidente. Platini e Zidane eram dois génios que iluminavam todo o onze. Agora, existe Henry, mas não é um maestro, é antes um avançado velocista que condiciona a forma de jogar de uma equipa. Domenech terá, por isso, de entender as diferenças. Uma coisa é construir um sistema em torno de um jogador (possível com Zidane), outra é construir um sistema tendo como uma das principais preocupações aproveitar as características de um determinado jogador-chave (é o que deve suceder com Henry). No jogo de estreia, contra a Bósnia, experimentou dois esquemas diferentes, começando, na primeira parte, num 3x5x2 inédito na selecção francesa, com três defesas (Gallas-Squillaci-Abidal), laterais ofensivos (Mendy-Evra), dois alas que flectiam quando o onze não tinha a bola e abriam quando a recuperava a atacar (Mavuba-Rothen), um trinco distribuidor de jogo (Pedretti) e dois avançados vagabundos (Luyindula-Henry). No segundo tempo, regressou ao 4x4x2 que, depois de recuperar a bola, virava 4x2x3x1 e, por fim, na fase atacante, perto da área, transformava-se num claro 4x2x4, com quatro avançados (Govou e Pires, extremos, Cissé, ponta de lança, e Luyindula entrando de trás). Rothen passara para o centro e, á frente da defesa a «4», o organizador de jogo da nova França: Pedretti. Será ele, com a sua visão de jogo e notável precisão de passe longo, o farol da renovação.

Os dois sistemas de Domenech.

1ª parte: 3x5x2

No primeiro tempo, um 3x5x2, com defesa a «3» (Gallas-Squillaci.Evra) e laterais muito ofensivos, com os alas transformados, a meio campo, muitas vezes, em “interiores de organização”, sobretudo Mavuba, mais perto de Pedretti, o trinco distribuidor de jogo, enquanto que na esquerda, Rothen abria para tabelar com Evra nos lances de ataque, e, depois, na saída de bola ou na hora de defender, flectia ou fechava. No ataque, deambulando de flanco para flanco, Henry, quase sobre a esquerda, e Luyindula, entrando mais pelo centro. A equipa revelou falta de mecanização neste sistema. Pedretti joga demasiado recuado para organizar jogo pelo que acaba por privilegiar sempre o passe longo na distribuição de jogo. Sem jogar encostado á linha, Rothen “desaparece” do jogo. Apesar de manter o rigor defensivo, o onze perde dinâmica ofensiva. Sistema a rever.

2ªparte: 4x4x2 (4x2x4)

No segundo tempo, partindo de uma espécie de sub-modelo, Domenech alinhou um 4x4x2 na aparente vertente de 4x2x3x1, regressando á clássica defesa a «4», com os laterais desta vez recuados, sem passar o meio campo, um trinco de contenção, Pedretti, apenas com a missão de, recuperada a bola, iniciar a saída para o contra-ataque, acompanhado por Rothen, embora este com maior amplitude de movimentos. Na dinâmica ofensiva, fruto do avanço dos extremos, Govou-Pires, o desenho passa para 4x2x1x3, com Cissé ponta de lança, muitas vezes apoiado por Luyindula, companheiro inicial em 4x4x2, que, entrando de trás, ao mesmo tempo que os extremos sobem pelos flancos, transforma o esquema num claro 4x2x4. Um sistema ambicioso, também a rever. Em suma, este França-Bósnia foi um excelente "tubo de ensaio" táctico para Domenech.

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