O modelo de jogo (conjunto de princípios que englobam a base do jogar de uma equipa) está acima de qualquer estrutura, mas não pode viver dissociado dela sob pena de ficar comprometida a sua aplicação. Isto porque embora as estruturas (4x3x3, 4x4x2, etc.) não tenham vida própria, cada uma tem a sua lógica de movimentos mais natural. Uma equipa de top deve ter a capacidade de aplicar o seu modelo em dois sistemas (um preferencial e outro adaptável). No limite, pode rotinar uma terceira alternativa (em geral de três defesas) para situações de máximo risco.
No laboratório de Paulo Sérgio, o Sporting alterna sinais positivos com outros mais duvidosos. Essa alternância está quase sempre relacionada com a alteração da estrutura (ou posicionamento de alguns jogadores). Duas estruturas base: 4x4x2 clássico e 4x2x3x1. Pelo meio, 4x1x3x2 (Brondby, casa). Na Naval, surgiu em 4x4x2 losango. Será que esta utilização de várias estruturas dá maior flexibilidade de jogo à equipa? Sim e não.
O problema é simples: a estrutura preferencial (neste caso o 4x4x2 clássico com dois pivots e alas abertos) tem de ter pontos comuns essenciais de posicionamento com a segunda opção, pois, caso contrário, corre o risco de, com essa alteração, os princípios de jogo base deixarem de ter condições de ser aplicados. Foi o que sucedeu em alguns jogos. Não só pela alteração estrutural, mas, também, pela mudança dos ocupantes.
Estrutural, por exemplo, com o 4x1x3x2 frente ao Brondby em casa, com só um pivot e Maniche na direita. Posicional, por exemplo, com a colocação de Matias Fernandez numa ala, contra o Paços, em 4x4x2 clássico. Perdeu-se, então, a ligação entre-sectores na construção e definição de jogo pela incapacidade de aplicar os princípios de jogo preferenciais devido à alteração da estrutura ou dos seus ocupantes mais naturais.
É diferente quando se mexe só numa peça, variando entre o 4x4x2 e o 4x2x3x1. Nesse caso, mantêm-se as rotinas do duplo-pivot (um mais preso, o outro a sair mais) e a largura dos alas, com os laterais (João Pereira-Evaldo) a dar profundidade, saindo apenas um avançado para entrar um médio-centro ofensivo (Matias Fernandez). Ou seja, a identidade não é adulterada e permanecem as condições de aplicabilidade dos grandes princípios de inter-relação entre os jogadores. Acrescenta-se apenas uma nuance posicional que cria uma nova dinâmica ofensiva. Nesta fase, penso que é até onde pode ir a mutação táctica leonina. Na Naval, surgiu em losango e, apesar da vitória tranquila, a aplicabilidade dos princípios (com Maniche sem abrir o suficiente na esquerda em posse, antes procurando por rotina o centro, e Yannick a procurar mais ala do que movimentos de ruptura) ressentiu-se.
A variação de estruturas é uma forma evoluída de jogar, mas sem uma prévia construção sólida de um padrão de jogo tal pode provocar, retirando aplicabilidade dos princípios, que, de jogo para jogo, a equipa dê sinais exibicionais tão diferentes. É o que sucede ao actual Sporting.