
FUTEBOL e CULTURA
Futebol e Cultura misturam-se, Futebol é Cultura! É expressão de hábitos, liberdades (ou não), posturas, formas de estar e enfrentar as banais tarefas diárias. É expressão de políticas e regimes. Uma selecção nacional, mais do que uma equipa de um clube, é por isso uma expressão de cada um e de todos, uma colectivo “singular” e único de um pais.
Quando cada pais se expressa por “um Futebol”, um continente expressa-se nos seus representantes (e quão diferentes são). No entanto, são curiosas as semelhanças do Futebol de países do mesmo Continente: há como que uma identidade comum ao continente, sendo que o Futebol tem laivos diferentes que expressam a cultura do próprio país.
Foquemo-nos na Ásia: Japão e Coreia do Norte, ambos com uma enorme escalada no Ranking FIFA do futebol feminino.
Para começar, partilham o mesmo sistema de jogo, 1.4.4.2. Há sistemas enraizados nos países, basta pensarmos em Portugal. O 1433 predominou até ao 1442 losango de Mourinho ter vencido e CONvencido Portugal e o Mundo. A hegemonia e brilho de um Barcelona e das selecções espanholas são outro bom exemplo de como sistemas de jogo viram moda e se enraízam tanto, que se confundem como um detalhe da cultura futebolística de um país! Um detalhe apenas, pois sistemas de jogo não reflectem dinâmicas!
Centremo-nos na Dinâmica defensiva de ambas as equipas: todas as jogadoras contribuem OBRIGATORIAMENTE para o momento de transição defensiva; três linhas são formadas, sombreando os sectores; há encurtamentos e permutas defensivas constantes; coberturas e basculações permanentes. Um enorme RIGOR táctico, muita cooperação, voluntarismo, espírito de equipa, predisposição para cada uma se sacrificar individualmente na superação do erro de outra, tudo em prol do objectivo colectivo. Impressiona pelo rigor, mas surpreende se pensarmos no dia-a-dia do País? Não!

O regime politico da Coreia do Norte reprime e constrange a liberdade! As jogadoras apenas são autorizadas a sair do país para representar a selecção nacional, mas não havendo resultados, a probabilidade de sanções são imensas. Não estará isto relacionado com a expressão do seu Futebol? Claro que sim. Com o seu empenho e espírito de sacrifício? Sem dúvida. A ditadura contagia a individualidade da “jogadora-pessoa” e do seu futebol, como meio de expressão.
O Japão, num regime político diferente é um pais conhecido por ser trabalhador e pelo rigor no trabalho. Chegar a uma reunião ou a um treino a horas, é chegar-se atrasado! Todos se antecipam à hora marcada. É cultural chegar-se cedo, ser-se empenhado, rigoroso, idóneo, mas vive com liberdade. As jogadoras japonesas cresceram em liberdade, interagiram com muitas pessoas estrangeiras, receberam influência de outras culturas, não têm a sua fronteira individual fechada.
Tudo isto se expressa no Futebol. A grande diferença entre Japão e Coreia do Norte traduz-se na criatividade individual, nas soluções que encontram na dinâmica ofensiva da equipa, na alegria com que jogam, nas diferenças de ritmo e no desequilíbrio que impõem com a sua criatividade.
A liberdade do corpo e do cérebro em desenvolvimento influenciam o EU de cada jogadora. O regime politico em que cresce e é educada, formata ou reprime a sua liberdade. Sabemos que o erro deve fazer parte do treino e do processo de desenvolvimento das jogadoras, tal como deve fazer parte do crescimento da criança; crescer sem liberdade e com medo de errar, reprime a criatividade, seja na vida, seja no Futebol. O que se pode pedir a uma jogadora se assim que tem a bola tem medo de errar? Marta, Messi e Ronaldo cresceram com medo de errar?
O processo de treino é, desta forma, expressão de uma CULTURA, mas também imprime uma CULTURA. O “EU” de cada jogadora é expressão da sua VIDA na qual o PROCESSO DE TREINO tem a maior representatividade. Mas esta reflexão deixa concluir que Futebol é também Cultura na qual o “EU” (jogadora-pessoa) se exprime pela táctica.
Helena Costa, Alemanha 2011