É uma espécie de “buraco negro” no normal bater dos ponteiros do relógio competitivo da época. Intruso, o mercado de Janeiro sonha alterar coordenadas a meio da competição. Os jogadores vivem dias inteiros à espera que o telemóvel toque com a chamada mágica do seu empresário que salta de clube em clube, onde, cada direcção busca o reforço que revolucione o plantel. O “futebol dos negócios” comanda hoje o “futebol dos relvados”. Não é fácil, porém, mudar o curso do campeonato a seu meio, sobretudo num tempo de cofres quase vazios.
Mas, mesmo com dinheiro, poucos clubes entendem bem este período. Porque este não é o momento certo para revoluções. Na melhor versão, serve para colmatar erros pontuais de início da época ou colmatar lesões que entretanto aconteceram. Ou seja, numa astuta relação qualidade-preço, fazer contratações quase “cirúrgicas”, porque, nesta fase não há tempo para adaptações. Por isso, o jogador ideal em Janeiro pode-o não ser Agosto. Nesta altura intermédia essa opção resulta de uma análise muito mais especifica da equipa, pois já está definida na prática a forma como joga (ou quer jogar). Vendo o que falta para isso suceder, deve-se apenas procurar o(s) jogador(es) que ponha essa máquina em andamento.
Falar, neste tempo, num jogador que vale 100 milhões de Euros causa alucinações. As cláusulas de rescisão deixaram de ser um “valor serio” para serem sobretudo uma referência. Os “donos do passe” querem, sobretudo, fazer uma afirmação de “personalidade negocial”. O futebol de Hulk tem um valor tangível expresso em arranques e remates demolidores. A sua importância no actual onze do FC Porto expõe o outro lado do plantel, no qual existe um abismo a separar, em muitas posições, os habituais titulares dos crónicos suplentes (por isso, a ausência de Pereira será mais preocupante). O ataque com Hulk, James e Walter é muito diferente do ataque com Hulk, Varela e Falcão. O jogo com o Nacional expôs claramente essa realidade.
A melhor contratação que se pode fazer nesta fase da época é, muitas vezes, descobrir no plantel um jogador até então suplente que, de repente, passa a jogar melhor e torna-se uma solução, quase a salvação. Isto pode acontecer por várias razões. Pela sua subida de forma, pela adaptação, por recuperação de lesões, etc.
No Benfica, pelas jogadas e golos fantásticos dos últimos jogos, é hoje tentador rever esse “elemento salvador” em Salvio. É evidente que o jogador evoluiu, mas toda essa euforia pode nesta fase causar uma ilusão de óptica perigosa na análise global à equipa.
O Benfica tem, no onze, necessidades posicionais que são visíveis desde o início da época e prologam-se até agora. São lacunas facilmente detectáveis porque têm os nomes próprios dos jogadores que as abandonaram (Di Maria-Ramirez, claro). Um extremo-esquerdo e um médio tacticamente mais culto que equilibre a equipa nas transições defesa-ataque-defesa. A contratação de Férnandez faz, por isso, sentido. É um bom extremo, que, sem ser um fenómeno, vai para cima dos defesas. Faltaria o tal segundo elemento mais táctico. Nessa batalha, outra lição: a forma como atacou “tarde demais” a contratação de Elias (entretanto surgiu o At-Madrid) mostra como, para os clubes portugueses, a única possibilidade de competir com os gigantes internacionais, passa por “pensar primeiro”, prospecção inteligente e jogar em antecipação no mercado.
O “onze” e o “plantel”. Duas realidades que se relacionam no decorrer da época, até uma dominar a outra. Nesse sentido, mais do que olhar para o onze, o FC Porto necessita neste mercado intercalar de olhar para o seu plantel. O Benfica, pelo contrário, mais do que para o plantel, necessita de olhar para o seu onze.
A ameaça turca
De repente, emerge um novo oásis para os jogadores portugueses. A Turquia e o emergente Besiktas. Consequência da força negocial do “empresário do ano”, o clube turco, depois de Quaresma, contratou, num ápice, ao futebol espanhol e alemão, mais três craques portugueses: Simão, Manuel Fernandes e Hugo Almeida.
Para além dos contratos faraónicos que certamente fizeram, há uma pergunta que é obrigatório fazer: o que ganham desportivamente estes jogadores portugueses indo jogar para a Turquia? Sinceramente, nada.
Os adeptos receberam-nos num delírio impressionante, sem dúvida, mas o futebol turco é hoje, competitivamente, da chamada “segunda linha”. A única diferença está na sua força financeira, num mundo de negócios que funciona como íman irresistível para o moderno e dominador “futebol dos empresários”. São eles que determinam hoje o timing das transferências no futebol. para o bem e para o mal. Não existem ilusões: os grandes negócios de Agosto já estão todos hoje programados por esse sistema. A maioria dos clubes, financeiramente dependentes, vive nesta balança. Muitos tornam-se quase “placas-giratórias” de jogadores.
Vendo toda esta “montagem turca” pelo puro prisma futebolístico, é perturbador ver o nosso futebol perder alguns dos seus grandes jogadores para outro com um nível técnico e táctico muito inferior ao português. Só para se ter uma ideia do tipo de futebol que se joga na Turquia, quando um jogador faz um passe para o lado é quase engolido pelos assobios dos adeptos que querem é ver a bola perto da baliza adversária o mais rapidamente possível, mesmo com um pontapé longo pouco pensado para a frente. Ver Simão neste cenário é um atentado ao bom futebol.