GALATASARAY SPOR KULUBU: O PALÁCIO DE GALATA

4 de Dezembro de 2000
O inferno do futebol turco que, fundado há quase cem anos, tocou o paraíso, no final do século XX, com grandes e pequenos diabos como Okai, Colak, Okan, Sukur e, entre outros, Hagi, guiados futebolistica e espiritualmente pelo imperador Fetih Terim, sempre imperial no caminho das grandes vitórias. ESta é a lenda dos "Cim Cim Bom", na fronteira da Ásia,inspirados por uma simples florista que vivera no Sec.XV, Gul Babba...

Fundado em 1 de Outubro de 1905
Campeão Turco: 1962, 1963, 1969, 1971, 1972, 1973, 1987, 1988, 1993, 1994, 1997, 1998, 1999 e 2000
Taça da Turquia: 1963, 1964, 1965, 1966, 1973, 1976, 1982, 1985, 1991, 1993, 1996, 1999 e 2000
Taça UEFA: 2000
SuperTaça Europeia: 2000
Durante 3000 anos foi a encruzilhada geográfica de várias culturas. Última fronteira europeia com o continente asiático, miradouro do antigo leste soviético, o território turco viveu sempre, ao longo dos séculos, por entre dois universos históricos totalmente opostos. Segredos e mistérios de grandes impérios, testemunhados pelas águas, ora calmas, ora revoltas, do Bósfaro, secular observador do íntimo cultural de um povo que sempre viveu por entre muralhas, mesquitas e basílicas, entre as quais emerge HagiaShopia - sagrada sabedoria, em turco-, a obra mais famosa e fiel ao estilo bizantino: Estrutural, decorativa e funcional. Tudo é misterioso e oculto, e, no entanto, tudo está revelado. Um simples olhar ao mundo turco intensifica esse sentimento, assustado com a perturbante devoção islâmica, símbolo religioso da cultura asiática que rasga por entre o geográfico habitat europeu. O futebol reflecte esse choque de culturas. A Republica Turca foi fundada em 1930 por Mustafa Kemal Ataturk, o pai dos turcos. Viajante no tempo, o Galatasary –o Palácio de Galata, em turco- já fora fundado em 1905. O futebol, trazido para estas terras em finais do Sec. XIX pelos ingleses James Lafontaine e os irmãos Robinson, era, então, apenas uma secção criada por um grupo de estudantes do lendário Liceu de Galatasaray, datado do Séc.XV, e que ao longo dos tempos, sobretudo desde finais do Sec.XIX, quando convertido em Universidade elitista, se tornou no grande centro educador da nata da sociedade turca. Tudo acontecera quando em 1867, Napoleão convidou o Sultão Abdulaziziz para visitar a exposição universal, o turco ficou deslumbrado com o glamour das escolas francesas e mal regressou á Turquia resolveu remodelar o velho Liceu de Galatasaray, transformando-o numa prestigiada universidade, capaz de superiormente formar as futuras gerações turcas, de onde sairiam eloquentes diplomatas, advogados, parlamentares e artistas, e onde o francês passou a ser a primeira língua, iniciando uma atracção pela cultura gaulesa, que, ainda hoje, continua a reger os destinos da Universidade, onde se inserem muitos professores de origem francófona. A Associação Turca de Futebol foi fundada em 1923, ano em que se começou a disputar a Liga de Istambul. Os campeonatos da primeira e segunda divisões apenas começaram a realizar-se a partir da época 59/60. Desde esses tempos, o Galatasaray, considerado, face ás sua origens, como o clube dos aristocratas, impôs-se sempre como uma das maiores potências futebolísticas da Turquia. Em diferentes épocas, o seu jogo foi o grande impulso que coloriu de vermelho, kirmizi, e amarelo, sari, os sonhos de futebol turcos, as cores do Galatasaray, originárias, segundo reza a lenda, das rosas com as mesmos tons que um florista chamado Gul Babba, o pai das rosas, costumava, em sinal de respeito, oferecer ao Sultão Beyazit, fundador em 1481 do Galatasaray Lisesi

BEM VINDOS AO INFERNO!

Carente de um estilo próprio, o futebol turco nunca foi uma grande potência europeia. Tecnicamente mediano, sem ser um poço de técnica, sabe tratar a bola. Fisicamente frágil, compensa esse menor poderio atlético e as claras limitações técnicas com uma total entrega ao jogo. Uma postura de combate, base de uma atitude competitiva aguerrida, demasiadas vezes hipotecada ao temperamento exaltado que, quase sempre, trai as intenções tácticas. Um estilo e um carácter alimentado por um público permanentemente em fúria, que vive intensamente, com o coração nas mãos, cada 90 minutos. Uma atmosfera dantesca, ao ponto de muitas vezes quando qualquer clube europeu vai jogar á Turquia, falar-se mais do ambiente louco que se vai encontrar, do que propriamente no valor do adversário, apoiado por uma louca legião de adeptos, que recebe os visitantes futebolísticos com ferozes frases, onde se destaca o aterrorizante Bem Vindos ao Inferno!, orgulhosamente exibido pelos CimCim Bom, os adeptos do Galatasaray, em cada jogo disputado no Estádio Ali Sami Yen, nome adoptado em homenagem ao jovem estudante que foi o principal impulsionador da fundação do clube.

O ANO DA LUA E DA ESTRELA

Por entre o fosso de paixões que desde o quarteirão de Barikoy, no sul, até ao subúrbio de Sariyer, a norte, passando pela babilónia do Grande Bazar e pela sombra do Palácio Topkapi, molda o pulsar da velha Istambul, existe pouco espaço para contemplações futebolísticas. Desde a sua fundação, os homens do Palácio de Galata guiaram-se sempre pelos gritos dos seus fanáticos adeptos: Galatasaray`im sem ne yucesin, em turco, Galatasaray, tu és o mais forte! Apesar desta atmosfera de quase dantesca loucura futebolística que sempre moldou a sua história, foi apenas na década de 90 que o clube conseguiu impor a sua força para além das fronteiras turcas. A base do sucesso europeu, esteve, sobretudo, na dinâmica imposta, desde 1996, pelo novo presidente Faruk Suran, que partindo do legado de doze anos deixado pelo seu antecessor, Alp Yalman, resolveu finalmente apostar no genuíno estilo turco, antes hipotecado aos ditames de treinadores estrangeiros, que nunca souberam utilizar, internacionalmente, a destemida garra turca. No fundo, tratou-se de um regresso ás raízes, sob a orientação de um homem da casa, Fatih Terim. Inserido num cenário infernal, um homem nascido nas terras de Drácula, sentir-se-ia presumivelmente em casa. As últimas épocas provaram essa ideia, expressa nos pés e nas artes mágicas de um maestro da Transilvânea, George Hagi, outrora Maradona dos Cárpatos, o guia espiritual dos CimCim Bom, rumo á conquista da Europa. Nos seus pés a bola ganha contornos deslumbrantes e pincela com momentos de elevada beleza plástica, um estilo futebolístico feito de garra e coração. No ano milenar, foi este talento romeno que inspirou um destemido onze que ganhou contornos goleadores nos pés de Hakan Sukur e se orgulhou de ter nas suas redes um guarda redes campeão do mundo: o brasileiro Tafarel. Á sua frente jogou o outro romeno da equipa, Popescu, 32 anos, o experiente patrão do sector defensivo, que antes passara pelo Tottenham e pelo Barcelona. Eles foi a garantia de segurança que libertou o virtuoso Okan, formado no clube, de cujas escolas saíram mais 9 talentos dos 25 jogadores que compuseram o plantel vencedor da Taça UEFA 99/2000, como corolário de uma política de formação, considerada a base em que assenta toda a estrutura futebolística do clube. Organizadas por diferentes categorias etárias, desde os 9 anos, o Galatasary reúne 8 diferentes equipas nas suas camadas jovens. Todo este universo foi personalizado num homem: o treinador Fatih Terim, a face mais visível do renovado futebol turco, que descobriu por fim como combinar a determinação nata com a técnica trabalhada. Uma nova imagem emergente no Galatasaray e no estilo da ambiciosa selecção da lua e da estrela.

METIN OKAI e HAKAN SUKUR : GRANDES GOLEADORES

Terra onde a exuberância das paixões balança entre o fanatismo e a fé cega nos seus heróis, o futebol turco ofereceu à Europa, nas últimas décadas, um conjunto de grandes goleadores. No entanto, quantos mais golos marcavam, mais a Europa os olhava com desconfiança. A súbita chuva de golos dos avançados turcos e, no mesmo período, de alguns romenos, levaria a FranceFootball, responsável pela atribuição da Bota de Ouro, a suspender o trofeu, perante a forma menos clara como esses golos se multiplicavam nos últimos jogos. Entre estes homens golo emergem três grandes nomes do passado e do presente do Galatasaray. Nos fim dos anos 60, o goleador chamou-se Metin Okay, cinco vezes melhor marcador da Liga Turca, morreu novo num desastre de viação. Foi o jogador que mais vezes vestiu a camisola do Galatasaray. Fez 608 jogos e marcou 211 golos. Era um grande goleador. Em memória do seu talento, o centro de formação do Galatasaray passou a ostentar o seu nome: Metin Oktay Tesisleri. Nos anos 90, o homem-golo, idolatrado por todo o povo turco, chama-se Hakan Sukur, o Touro do Bósfaro. Ele é o homem para quem todos olham quando o jogo vai longo e o golo não aparece. A sua vocação goleadora explodiu muito cedo. Chegou ao Gala em 92, com 20 anos, vindo do Bursapor. Em 95/96, seduzido pelos seus golos, foi contratado pelo Torino. No Calcio, porém, a sua vocação goleadora desapareceu. Inadaptado ao táctico futebol italiano, foi um fracasso total. Durante toda a época só alinhou em cinco jogos. Deprimido, regressou ao seu Galatasaray e, num ápice, os golos voltaram a surgir. Quer no campeonato, onde é o crónico melhor marcador, quer na selecção. Com 29 anos, é hoje um ponta de lança respeitado por todo futebol europeu, que nunca colocou em dúvida as suas capacidades. Forte tecnicamente, ágil e exímio em procurar espaços vazios, movimenta-se na área como na sala de estar de sua casa. O sentido de baliza e o remate pronto com ambos os pés fazem hoje dele uma referência obrigatória entre os grandes goleadores europeus. No presente, porém, com Sukur de regresso a Itália, o talento goleador do Gala tem sotaque brasileiro: Jardel. Mas, apesar dos muitos golos que marca, os CimCim Bom não se revêm no seu estilo pausado, dengoso, tipicamente brasileiro, sem grandes correrias. Ele é todo o oposto que os conceitos futebolísticos turcos glorificam: Garra, o coração nas mãos e correrias loucas, com a língua a arrastar pela relva atrás das bolas, mesmo as que vão irremediavelmente sair pela linha de fundo.

TANJU COLAK: Goleador sob suspeita

Nos anos 80 emergiu o terrível Tanju Colak, Bota de Ouro em 1988, com 39 golos, e Prata em 1991, com 31. Fisicamente entroncado, aparentando pouca mobilidade, Colak parecia que tinha trazido outra bola consigo do balneário, tal a forma inesperada como ela muitas vezes surgia á sua frente, dentro da área, com as redes desprotegidas. Apesar dos golos, o seu nome apareceu mais vezes ligado á sua vida fora dos relvados do que dentro deles. No inicio dos anos 90, foi acusado de estar envolvido com uma organização criminosa de carros roubados. Condenado a passar uns tempos na prisão, a sua carreira entrou, obviamente, em declínio. Regressou em 94, com 30 anos, para jogar no Istanbulspor, da IIª Divisão. Passados estes anos, vive longe da ribalta e hoje o seu nome, mais do que recordado pelos seus dotes goleadores, recorda uma época onde o futebol turco foi colocado sob suspeita.

Os Treinadores: A Escola alemã

Depois de passar por Istambul, o treinador croata trotamundos Tomislav Ivic deixou de ter dúvidas: O Galatasary é o maior clube do mundo,. Em mais nenhum local o futebol é vivido com tanta louApesar da atracção pela cultura gaulesa que continua ainda hoje a reger os destinos da Universidade de Galatasaray, onde se inserem muitos professores de origem francófona, os seus dirigentes futebolísticos, sempre privilegiaram treinadores alemães. O maior valor do futebol germânico, símbolo de eficácia e talento competitivo, sobretudo nos anos 70 e 80, e a enorme comunidade de emigrantes turcos na Alemanha, estarão estado na origem da decisão que só nos últimas duas décadas, trouxe quatro técnicos teutónicos ao Galatasaray: Jupp Derwal, Kalle Feldkamp, Rainer Hollmann e Reinhard Saftig. Entre todos, o homem que deixou mais marcas, foi o antigo seleccionador alemão, Jupp Derwal, adepto do clássico 4-3-3, que esteve no clube entre 84 e 88, conquistando dois títulos nacionais. Seria no entanto, com Mustada Denizili, seu antigo adjunto, que o Galatasaray, então a jogar em 3-5-2, atingiria, em 88/89, então no auge do goleador Colak, a meia final da Taça dos Campeões, onde foi afastado pelo Steaua Bucarest (4-0 e 1-1). Em 1995, talvez cansados de ouvir falar alemão, os dirigentes turcos apostaram num técnico que em breve também os portugueses iriam conhecer: Graeme Souness. Em Istambul, o escocês ensaiou os mesmos métodos da Luz, formando a equipa á sua imagem, onde tinham lugar cativo os seus britânicos de segundo plano: Mike Marsh, Barry Venison e Dean Saunders. Formando um bloco pouco coeso, com o goleador suíço de origem turca Turkilmaz, o turco que não tem medo de ninguém, a alinhar no meio campo, e onde os erros do guarda redes alemão Friedel se tornaram insustentáveis, o clube terminou a época em 4º lugar, atrás do Besiktas e do Fenerbache. Ou seja, em último, para os fanáticos adeptos do Gala, ultrapassados pelos viscerais rivais. cura.

FATIH TERIM, jogador e treinador: O genuíno estilo turco

Após os insucessos estrangeiros, e com o título a fugir desde 94, o novo presidente Faruk Suran decidiu mudar de política e apostou finalmente no genuíno estilo turco, baseado, acima de tudo, em grandes índices de motivação. Em 96/97 iniciou-se a gloriosa era de Fatih Terim, então no auge após o sucesso á frente da selecção nacional turca que guiara até ao Euro-96. No passado de Terim estava uma venerável carreira de jogador do Galatasaray, entre 1970 e 1983, onde durante 13 anos fora sempre o defesa central titular, ao ponto de ainda hoje conservar o record de internacionalizações pela nacional turca, com 51 presenças. Antes da selecção, onde esteve, como técnico, durante seis anos, de 90 a 96, apenas treinara o Ankaragucu e o Goztepe Izmir. Com ele no banco, o Galatasaray recuperou o domínio do futebol turco. Em quatro épocas, conquistou 4 Campeonatos, 2 Taças da Turquia, 1Taça do Presidente, 2 SuperTaças e, no ano 2000, a Taça UEFA, o seu passaporte para a imortalidade. Mais do que um grande estratega táctico, Terim, que escolheu para seu staff técnico mais três antigos jogadores do clube, é, sobretudo, a personificação do espirito do Galatasaray, um homem que conhece todos os segredos da turbulenta alma turca. Numa palavra, um motivador que sabe como poucos falar, ao mesmo tempo, á cabeça e ao coração dos jogadores. Com ele o Galatasaray conquistou, em 99/2000, o 14º titulo da sua história, ultrapassando o Fenerbache, com 13, e o Besiktas, com 9. Na época seguinte, seduzido pelo Calcio, Terim fez as malas e partiu rumo a Florença e ao futebol italiano...

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