GAZELA NEGRA E PIBE DE FUERTE APACHE (Santos-Boca Juniores / Copa Libertadores 2003)

25 de Junho de 2003
40 anos depois, Santos e Boca Juniores, velhos caminhantes do futebol mundial, míticos representantes das mais lendárias escolas sul americanas, a brasileira e a argentina, voltam a encontrar-se na final da Copa Libertadores. Em vésperas da primeira mão da final da sua 44ª edição, uma análise ao torneio desta época, onde a par do revivalismo argentino-brasileiro se destaca também o belo renascimento do novo futebol colombiano.
No jogo decisivo, comandados por Leão, craques como Robinho, Leo, Reginaldo, Alex, Pereira, Paulo Almeida, Renato, Fabiano, Ricardo Oliveira e Diego. Do outro, sob as ordens de Bianchi, talentos como Tevéz, Gonzalez, Burdisso, Schiavi, Battaglia, Cagna, Cascini, Delgado e Scheloto
No distante passado, em 1963, os heróis foram Pelé e Sanfilippo. Hoje, quatro décadas depois, são Robinho e Tevéz. Em épocas diferentes, ao som alegre do samba ou da doce nostalgia do Tango, eles foram, e são, a mais bela personificação dos genuínos traços artísticos e lutadores, misto de malícia e picardia, cada qual no seu devido habitat, que, ao longo dos tempos, até hoje, identificam, a magia do futebol sul americano e seus grandes representantes, Brasil e Argentina. Hoje, os artistas são outros, mas a atmosfera é praticamente a mesma dos velhos tempos. Diferente, talvez, só o facto do ritmo de jogo ter-se tornado mais rápido, com marcações e disposições tácticas mais rígidas –do 4x2x4 ao 4x4x2- e, nas bancadas, os empresários sonhando com transferências milionárias. No relvado, estrelas de encantar. Nascido num bairro muito pobre da grande Buenos Aires, Fuerte Apache, nome do pobre bairro de Buenos Aires de onde é originário, conhecido pela sua criminalidade, Carlos Tevéz é a nova imagem do Boca Juniores, onde herdou a camisa nº10 deixada por Riquelme, e, em tempos mais idos, pelo grande Maradona. Sem comparar o divino com o terreno, Tevéz exibe os mesmos traços de génio: Rápido, driblando em progressão com a bola dominada, é arte e picardia á solta. Na face o semblante dos antepassados índios, nos pés uma intimidade inata com a bola, com quem tantas vezes dorme abraçado. Cresceu na pobreza, e, como dizem os poetas, corre atrás da bola com a mesma velocidade com que foge da miséria onde antes sempre vivera. Produto das escolas do Santos, Robinho, é a nova grande esperança do futebol canarinho na rencarnação de Pelé. Pura utopia. Robinho, esquerdino, na irreverência dos seus 19 anos –feitos em Janeiro passado- é, sem dúvida, um grande jogador, mas muito diferente, na forma de jogar e até na posição em campo, do imortal Rei. O seu estilo é mais, para procurar comparações com o passado, o de um Jairzinho, pela sua forma empolgante de correr e driblar junto á linha, como um extremo. Franzino, pernas como um alicate, está ser sujeito, como já fora Zico no passado, a um programa especial com vista a fortalecer a sua estrutura física. Tem a universidade do futebol de rua e ainda o sorriso moleque de quem sente prazer em jogar futebol. Tudo isto, acreditem, já existia mesmo quando ainda dormiam no berço...

Bianchi e Leão: Vigilantes do bom futebol

No banco, Boca Juniores e Santos têm duas velhos símbolos dos anos 70. Leão, 53 anos, foi um guarda redes fabuloso, talvez o melhor da história do futebol brasileiro. Bianchi, 54, foi um goleador temível, que fez fama na Europa, no PSG. Hoje, partilham, como treinadores, o ideal do bom futebol, essencialmente de vocação ofensiva, mas, claro, com as cautelas que o realismo do presente exige. No Santos, Leão, que chegou ao cargo em inícios do ano 2001, após uma curta e fracassada aventura como seleccionador brasileiro, logrou relançar a sua carreira como técnico. Cultiva uma imagem moderna, um pouco no estilo de Wanderley Luxemburgo, mas menos intelectual. Tacticamente, aposta no 4x3x1x2, não se deixando cativar pelo moderno 3x5x2 tão glorificado em terras brasileiras. Teve o grande mérito de apostar num grupo de jogadores muito jovens, com grande irreverência técnica, formando o chamado time-moleque, talvez a mais bela e sedutora equipa que o Brasil viu na última década. Com ela, todos voltaram a sonhar. Do outro lado, Bianchi, que após os êxitos alcançado com Boca Juniores e Velez Sarsfield (3 Copa Libertadores, 2 Taças Intercontinentais e 5 Campeonatos argentinos) é hoje a grande referência quando se fala em grandes treinadores sul-americanos do presente. Estudioso táctico, é um fiel devoto das canteras, as escolas de formação dos clubes. As suas equipas tem sempre grande sentido táctico e passeiam personalidade. A base é sempre o 4x4x2. Só quando sente confiança, com os avançados a trabalhar também na recuperação de bola é que se desdobra em 4x3x3. O coração do onze está, porém, sempre no meio campo, onde é imperioso personalidade e presença física. Este Boca 2003 é a imagem fiel dessa ideologia futebolística. Falhou na Europa, quando na Roma, em 96/97, sem tempo, nem uma grande equipa, poucos entenderam, ou quiseram entender, o seu estilo quase metafísico de pensar futebol. Por isso, muitos, no pragmático futebol europeu desconfiam do seu discurso algo lírico e consideram-no sem a dureza táctica, e até humana, para se impor fora dos menos rígido contexto sul americano.

Santos: A batuta de Diego, o Maestro Moleque

Esquematizado preferencialmente em 4x3x1x2 ou, sobretudo, nos jogos fora, como na meia final em Medellin, num 4x3x2x1, que a atacar se torna em 4x1x3x2, e, a defender, quase em 4x4x1x1, este Santos de Leão é mais uma prova da evolução táctica, entenda-se maior disciplina posicional com e sem bola, do futebol brasileiro a nível de clubes. Na defesa, sempre estruturada a «4», Leão conta com dois laterais completos, que, antes do mais sabem defender, e, depois, atacam com segurança: Leo, na esquerda, Reginaldo na direita. No centro, tem imperado a dupla Alex-Pereira, relegando para o banco o que fora considerado o melhor zagueiro do campeonato anterior, o gigante André Luiz. Foi apenas uma opção, mas, olhando todo o onze, falta, no eixo defensivo, alguma classe no trato da bola. A meio campo, reparem no cabeça-de-área, trinco, Paulo Almeida. Lento, meio entroncado é o jogador menos elegante do onze, mas, será, talvez, o mais importante para lhe dar consistência defesa-ataque. Joga nas costas do meio campo e á frente da defesa, quase sempre curto e de primeira, em inventar. Está sempre no caminho da bola. A seu lado, Renato, outro jogador discreto, mas indispensável, muito bem a defender, fazendo, como aliás toda a equipa, desde o ponta-de-lança ao central, a marcação á zona, iniciada logo que o adversário recupera a bola na defesa. No centro, o grande maestro: Diego, 18 anos. Se, com a permissão dos Deuses, quisemos encontrar, nesta equipa, um herdeiro de Pelé, no estilo de jogo e na posição em campo, ele seria, não Robinho, mas sim Diego, o novo nº10 do Peixe. Bola colada ao pé, cabeça levantada, organiza e distribui jogo. No ataque, Robinho pela esquerda, Fabiano descaindo para a direita –atenção ao seu remate cruzado- e, como centro-avante, Ricardo Oliveira, revelação goleadora. Um trio forte e perigoso, que, muitas vezes, quase obriga o time a jogar em 4x3x3.

Boca Juniores: A garra elegante de Schelotto

Contratado para substituir Óscar Tabarez, com a missão de devolver á bombonera os títulos conquistados em 2000 e 2001, durante a sua anterior etapa no clube xenize, Bianchi descobriu, no entanto, um onze bastante diferente. Faltava um goleador como Palermo e um maestro como Riquelme. Por outro lado, todos andavam loucos com Tevéz, lançado na primeira equipa com apenas 17 anos. Sem um ponta de lança e um nº10 clássico, Bianchi montou uma estrutura diferente. Para colmatar essas lacunas, construiu primeiro uma defesa forte, onde se destacam o magnifico central Burdisso e o incansável defesa-esquerdo Clemente Rodriguez. Depois, ergeu um meio campo muito povoado, de cariz lutador, estruturando assim um 4x4x2 demasiado cauteloso. Menos espectáculo, mais eficácia. Ao mesmo tempo, Tevéz, antes enganche ofensivo que jogava solto atrás dos avançados, foi remetido para o banco. A intenção era que voltasse a por os pés na terra. No seu lugar, surgiu Ezequiel Gonzalez, que antes jogava como um cursor de faixa que fazia todo o flanco. Com Bianchi, flectiu no terreno, passou a correr menos e a tocar mais na bola. Na fase decisiva da época, porém, Bianchi soube recuperar o seu pibe mágico. Em Março, no regresso do Sul-Americano Sub-19, devolveu-lhe a varinha mágica do onze. Assim nascia outro Tevéz, mais agressivo, com maior sentido colectivo de jogo, e sem os tiques de vedeta que já começara a exibir. Em 4x4x2, 4x3x1x2, ou, a atacar, 4x3x3, este novo Boca de Bianchi destaca-se sobretudo pelo valor táctico e técnico dos seus cinco médios. Entre eles, o seu grande homem de confiança: o experiente capitão Diego Cagna, 31 anos, o patrão do sector. A seu lado, os lutadores Battaglia e Cascini, o fantasista Tevéz e, muitas vezes, recuando de zonas mais avançados, onde faz dupla no ataque com o astuto Cholo Delgado, a alma suprema do onze: Guillermo Barros Scheloto, um médio-volante sacrificado para posições mais adiantadas, capaz de sozinho arrastar todo o onze para o ataque, mas usando sempre para isso, sábias triangulações com os companheiros.

América Cali e Independiente Medellín: A Colômbia depois do «Toque»

Em finais dos anos 80, quando surgiu, deslumbrando o mundo, o seu futebol ficou definido como o Toque. Um estilo de jogo que, interpretado por grandes tecnicistas, avançava de pé para pé, ao primeiro toque, como que zurzindo uma teia que envolvia o adversário. Hoje, é impossível detectar esse estilo no actual futebol colombiano. Já não existem jogadores como Valderrama, Rincon ou Asprilla. Durante algum tempo, o fim desta geração confundiu o fútbol colombiano, incapaz, sem eles, de regressar às grandes exibições. Para construir o novo ciclo, teve de basear-se noutro tipo de jogadores, a nova geração, mais atlética e combativa, ainda com classe técnica, mas menos artística. A gestação dessa nova imagem foi construída sobretudo nos clubes, como provou esta última Copa Libertadores, pela primeira vez com duas equipas nas meias-finais, Independiente Medellin e América Cali. Ambas praticam esse tipo de jogo tecnicamente agressivo. No 3x5x2 do Independiente de Fernando Castro, destacam-se, atrás, o lateral esquerdo Roberto Cortez, que parece estar em todo o lado, o dinâmico volante Jaramillo, o perigoso avançado Vasquez, e, o extremo Moreno, virtuoso e muito frio dentro da área. Na equipa de Cali, orientada por Victor Luna, um símbolo do clube, que esmagou o River Plate nos quartos-final, atenção ao sábio avançado-centro Julián Vásquez, El Senõr Gol, muito oportuno dentro da área. Aos 30 anos, calou os críticos, provou ainda ter o faro de golo bem vivo, sagrando-se o segundo melhor marcador do torneio com 8 golos. A única vez que um onze colombiano venceu a Copa Libertadores foi, em 1989, o Nacional Medellin de Higuita, o guarda redes malabarista da era do Toque. Hoje, este estilo é coisa do passado. Os tempos são outros. Com esta nova geração, como diz Maturana, há que solidificar a defesa e criar um jogo mais táctico e realista. Em termos de resultados, até pode ter razão, mas, mesmo ganhando mais jogos, não ficará, de certeza, na história como já ficou a sua bela e saudosa selecção do Toque...

COPA LIBERTADORES 2003: EQUIPA IDEAL (sistema 3x5x2)

GUARDA REDES DAVID GONZALEZ Clube: Independiente Medellin Posição: Guarda-redes Idade: 21 anos (20/7/82) Um gigante, 1,94m., muito novo, mas com uma presença fantástica ente os postes. Seguro, personalizado, distante dos tradicionais guarda redes locos-latinos. Grandes defesas, sabe sair da baliza e orientar a defesa. DEFESAS JARAMILLO Clube: Independiente Medellin Posição: Lateral-direito Idade: 23 anos (11/6/80) Também pode jogar como médio-volante, mas é como lateral-carrilero que talvez melhor poderá soltar as suas características Rápido, dinâmico e com sentido de tempo de passe, é o tipo de jogador que faz todo o campo uma área á outra transportando a bola. BURDISSO Clube: Boca Juniores Posição: Defesa-central Idade: 22 anos (12/4/81) Um central de grande qualidade. Muito seguro, respira confiança e transmite segurança a todo o sector. Com a bola nos pés, levanta a cabeça, orienta a defesa, corta e sai a jogar. Apesar de não ser muito alto, também sabe impor-se no jogo aéreo LEO Clube: Santos Posição: Defesa-esquerdo Idade: 27 anos (6/7/75) Um lateral esquerdo muito forte, a defender e a atacar. Com estas características, colmata a principal debilidade do Santos, o seu lado esquerdo, onde só Robinho brilha. Muitas vezes, porém, é Leo que surge, a subir, triângulando, procurando a linha ou... golo. MÉDIOS DIEGO Clube: Santos Posição: Médio-centro Idade: 18 anos (28/2/85) Ainda usa aparelho nos dentes, tem cara de menino e a vida toda á sua frente, mas já é um fenómeno no controle de bola e organização de jogo. Tem o nome de Maradona, e a camisola nº10 que foi de Pelé. A genialidade do seu jogo está, podem crer, á altura dessas divinas responsabilidades. MOLINA Clube: Independiente Medellin Posição: Médio Idade: 25 anos (30/4/80) Talentoso, serpenteando pelo campo com o seu excelente pé esquerdo é um médio ofensivo com grande profundidade ofensiva. Remata, tabela, passa curto ou longo e conduz todo o onze com grande garra e técnica. D`ALESSANDRO Clube: River PLate Posição: Médio Idade: 22 anos (15/4/81) O jogador em quem Maradona disse rever os traços suficientes para o eleger como seu herdeiro. Vê-lo jogar é um presente dos Deuses. Esquerdino, dança sobre a bola, incute velocidade ao jogo, faz golos e inventa lances impossíveis. Um verdadeiro fenómeno! CARLOS TEVÉZ Clube: Boca Juniores Posição: Médio ofensivo Idade: 19 anos (5/2/84) Joga como enganche ofensivo, nas costas da dupla atacante, mas mais o que organizar jogo, gosta de romper pelas defesas adversárias em busca de tabelas e espaços para rematar. É um grande craque, na senda dos velhos magos de Mar del Plata. GUILLERMO SCHELOTTO Clube: Boca Juniores Posição: Avançado Idade: 30 anos (5/4/73) Técnica, garra, elegância, drible, força, velocidade e temperamento. Tudo traços do empolgante fútbol do popular Mellizo Schelotto. Um médio-avançado cuja movimentação preferida consiste em arrancar de trás, conquistar espaço de penetração, e, depois, inventar uma jogada de golo. AVANÇADOS RICARDO OLIVEIRA Clube: Santos Posição: Avançado-centro Idade: 23 anos (5/6/80) O melhor marcador do torneio com 9 golos. Alto, 1,80m. e corpulento, joga entre os centrais como se estivesse na praia. Coloca-se muito bem para o remate. Gosta de furar pela direita e frente ao guarda-redes, raramente falha. ROBINHO Clube: Santos Posição: Extremo-esquerdo Idade: 19 anos (25/1/84) A correr, tem o porte de uma gazela. A driblar, a destreza de uma serpente. Mas, por favor, não lhe chamem novo Pelé, chamem-lhe...Robinho. O seu futebol tem assinatura própria: habilidade natural, velocidade em zigzag e os defesas com a cabeça á roda.

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