Sem nunca deslumbrar, praticando um futebol simples, quase sempre em dois-três toques e com superior capacidade para, sobretudo, jogar sem bola, na hora de defender e fechar espaços, o Gençlerbirligi, mais do que congeminar grandes estratégias tácticas, eliminou o Blackburn Rovers limitando-se a aproveitar, cirurgicamente, os erros ingleses. O ponto-chave da eliminatória situou-se nos 45 minutos iniciais do jogo da primeira mão, quando perante um Blackburn meio adormecido, fez dois golos em dois minutos descontrolando por completo o onze de Souness que, desde esse momento, nunca mais recuperou o domínio do jogo e, consequentemente, da eliminatória.
Embora nos jogos da Liga turca utilize muitas vezes o 4x4x2, contra o Blackburn, em termos de sistema táctico, o Gençlerbirligi alternou entre o 3x1x4x2, a atacar, e o rígido, 5x3x2, a defender. Basicamente, estes dois esquemas espelham as duas faces exibidas pelo onze de Ersun Yanal nos dois jogos desta eliminatória.
Em Ankara, a jogar em casa, assumiu uma dinâmica mais ofensiva, com os laterais e os médios ala a subir no apoio á dupla de pontas-de-lança. Em Ewood Park, jogando com a vantagem de dois golos, preferiu, naturalmente, fechar-se no seu meio campo e desenvolver um futebol mais de contenção, com os laterais recuados, um volante (Baris), um ala esquerdo exímio a segurar a bola (Serkan) e um médio centro que atacava quando o onze tinha a bola, e recuava quando a perdia (Skoko). Como ponto de partida, em qualquer das situações, refira-se a predilecção pela moderna defesa a «3», com um trio de centrais, Elsaka, Umit e Mercimek, com excelente leitura de jogo. O líder do sector é o egípcio Elsaka. A seu lado, Umit surge nas dobras, e Marcimek destaca-se mais em acções de marcação, como sucedeu em Ewood Park, seguindo de perto Jansen.
O pressing alto sem bola
e o controle do ritmo de jogo

Muito distante de poder ser considerada uma equipa com altos padrões técnicos, este Genclerbirligi é, sobretudo, um onze de combate que se destaca pela capacidade de defender longe da sua área, marcando á zona no meio campo e trabalhando muito na recuperação de bola através de um pressing alto que lhe permite, mesmo sem grandes iniciativas ofensivas, deter o controle do jogo, ou pelo menos, colocá-lo longe da sua zona de perigo. Durante a eliminatória, esta foi uma estratégia vislumbrada, principalmente, na segunda mão, em Ewood Park, graças sobretudo á excelente disciplina táctico-posicional revelada, sobre a zona central, pelo seu meio campo, nas compensações defesa-ataque, e, sobre os flancos, pelos dois laterais, Tandogan, á direita, e Daems, á esquerda.
Desta análise, conclui-se que embora tenha, na frente de ataque uma perigosa dupla de avançados Ozkan-Youla, a alma deste Gençlerbirligi reside, claramente, no seu trio do meio campo composto por Balci, Baris e Skoko, jogadores muito diferentes mas que inseridos num ideal colectivo de jogo bem definido complementam-se na perfeição.
Noutra perspectiva, pode-se afirmar que uma dos principais causas para o sucesso de ambos os sistemas, 3x1x4x2, em Ankara, e 3x5x2, em Blackburn, residiu no facto do Gençlerbirligi, mesmo com a mudança táctica, ter controlado sempre os diferentes ritmos de jogo. Assim, no primeiro encontro, em casa, mesmo detendo a iniciativa, imprimiu uma tendência mais lenta, procurando triangulações perto da área inglesa e construindo, assim, desiquilibrios bem aproveitados por Youla e Ozkan. Pelo contrário, na segunda mão, o ritmo foi mais veloz, o que iludiu o Blackburn sobre o seu pretenso domínio, visto que os turcos encaixaram bem nas movimentações inglesas e, apesar da sorte das duas bolas no poste, tiveram sempre o jogo controlado, o que talvez não tivesse sucedido, se o onze de Souness tivesse abrandado e colocado mais cabeça no jogo, explorando a maior posse de bola quase sempre já no meio campo dos turcos que, como ficou demonstrado, sentem enormes dificuldades quando o adversário explora a sua superior valia técnica. É neste ponto que o Sporting pode, claramente, fazer a diferença.
A classe de Serkan, a garra de Baris,
a batuta de Skoko, os golos de Youla...

Botonjic (Guarda redes)
Um guarda redes de reflexos, mas que muitas vezes revelou-se intranquilo a sair ás bolas, revelando muito dificuldade em as segurar.
Tandogan (Lateral-direito)
Um lateral moderno. Resistente, alterna defesa á zona com ao homem. Destaca-se por ser muito rápido a subir pelo seu corredor. Com a bola nos pés, revelou interessantes pormenores técnicos.
Daems (Lateral-esquerdo)
Mais reservado que o colega da faixa oposta. Preocupou-se sobretudo em ocupar a zona defensiva. Pareceu algo duro de rins nas bolas que eram metidas nas suas costas.
Elsaka (Defesa central)
O jogador mais elegante do sector. Orienta a defesa, antecipa-se para cortar, mas é muito macio nas jogadas de choque. É a personificação da leveza do futebol norte-africano.
Umit (Defesa central direito)
Lê muito bem o jogo, adivinha quase sempre onde a bola vai cair, joga nas dobras, mas revelou muita intranquilidade quando sobre pressão. É aguerrido mas falta-lhe classe e jogo aéreo.
Mercimek (Defesa central esquerdo)
Transformou-se num terceiro central, mais indicado para marcar ao homem. É o jogador mais forte da defesa no jogo aéreo. Corre muito e vai dobrar sobretudo ao flanco esquerdo.
Deniz Baris (Volante)
Indiscutivelmente o jogador mais trabalhador do onze. Um motor, que, partindo da zona central, á frente da defesa, não pára um segundo. Está sempre no caminho da bola, recuperando muitas, seguindo-a por todo o lado. Faz a zona na perfeição e transmite garra a toda a equipa.
Skoko (Médio centro)
Médio ofensivo, é o chamado enganche com o ataque, mas também trabalha muito sem bola, sendo, nesse sentido, o primeiro responsável pelo pressing alto, iniciado ainda no meio campo adversário, feito com mestria por todo o onze na hora de defender e fechar espaços.
Balci Serkan (Médio ala esquerdo)
É o jogador mais tecnicista da equipa. Joga sobre o flanco esquerdo, domina os diferentes ritmos de jogo, segura e conduz a bola com classe. Sempre de cabeça levantada, vira o jogo na perfeição. Apesar de jovem, 21 anos, parece, pela maturidade exibida, um veterano a jogar.
Youla (ponta de lança)
Um ponta de lança mortífero, africano no estilo, europeu na cultura de jogo. Rápido, tem um pé direito letal, para o qual sempre procura puxar a bola na altura do remate. Exímio a fugir ás marcações. Um belo jogador.
Mustapha Ozkan (Avançado)
O tipo de avançado que nunca dá uma bola por perdida. Recua para buscar jogo e embora limitado tecnicamente, supera esse défict com a garra exibida. O golo do empate em Inglaterra, nascido de uma insistência sua numa bola que parecia perdida é a imagem perfeita do seu estilo.
Sistema: 5x3x2 (variante 3x1x4x2)
O design inicial de 5x3x2 só permanece na hora de defender. A atacar, os laterais sobem e juntam-se muitas vezes, em linha ou em jogos de triângulos aos médios, dos quais apenas Baris fica para dobrar, desenhando o tal 1x4 do meio campo. Em qualquer situação, mantêm-se a defesa a «3» e a dupla de avançados.