É um destino natural para quem partir hoje em perseguição do bom futebol: Palermo, território de uma equipa feita à imagem dos seus jogadores. Um modelo geométrico de como lançar contra-ataques a partir de transições bem feitas, sem serem muito rápidas. Essa velocidade é metida por um trio atacante que, em triângulo, troca de posições com uma precisão notável, confundindo as marcações e abrindo (com desmarcações e passes) espaços mortíferos para golo. O trio: Ilicic-Pastore-Miccoli. Conexão mágica.
Este belo Palermo de Delio Rossi mostra como se pode atacar bem sem um nº9 clássico e coloca em causa a velha expressão italiana do chamado mezzapunta (o jogador que sem ser um punta, 9 típico, é mais segundo/meio avançado). Vendo este Palermo e seu trio ofensivo, penso que hoje o termo mais certo seria puntaemezzo (ou seja, todos eles são primeiro avançados, mas todos eles também têm de recuar um pouco para jogar nas costas do homem mais adiantado).
É um recuo alternado, no qual Miccoli é quem fica quase sempre mais adiantado a pedir a bola em desmarcação. Pastore arranca mais desde a meia-direita e surge no ataque. Ilicic, canhoto, joga mais sobre o corredor central e procura rupturas combinando com Pastore a hora certa de um ficar e o outro entrar. É uma «mecanização não mecânica» com régua e esquadro.
O melhor momento é quando Pastore recua e conduz a bola colada ao pé, elegante e de cabeça levantada. Um autêntico postal futebolístico. Ilicic, canhoto, o mais forte fisicamente (1,90m.) é aquele que melhor se transforma em avançado, com uma técnica mais agressiva. O baixinho Miccoli, com a sua pomposa barriguita, continua a encantar a bola de cada vez que lhe toca e tem uma astúcia (inteligência) sublime a procurar o espaço vazio e pedir a bola nele (mesmo que para isso se tenha de por aos pulos com um braço no ar). O sistema varia entre o 4x3x2x1 e o 4x3x1x2 porque, nesta movimentação, o ataque tanto está desenhado em «1x2» como em «2x1».
É um projecto de jogo que favorece o contra-ataque onde estão bem definidos dois blocos: os três avançados e os médios de contenção, estes também em triângulo, com Bacinovic a pivot e Nocerino a soltar-se mais como condutor de bola. É ele que gere as transições, de perfil com Miglacio, interior-direito.
Apostar em três jogadores ainda promessas para pilares do onze titular (Pastore, 21 anos, e os eslovenos Ilicic, 22, e Bacinovic, 21) é, porém, um risco que só uma equipa mais pequena pode correr no Calcio. Os grandes têm de buscar mais certezas. Cada vez mais, porém, este Palermo é uma certeza de bom futebol pintada de cor-de-rosa.
