GERETS: AS AVENTURAS DO LEÃO DE REKEM

22 de Maio de 2002
No banco, ele treina como jogava: Com autoridade e, partindo da segurança defensiva, sempre com o pensamento no ataque. Nos anos 80, foi, no relvado, uma das estrelas da geração que tornou a Bélgica numa das selecções mais fortes da Europa. Hoje, no banco, tornou-se, após vencer três campeonatos com três clubes diferentes, Lierse, Brugge e PSV, um treinador de referência num país de grandes estrategas tácticos. Seu nome: Eric Gerets, o Leão de Rekem.
Terra de grandes arquitectos tácticos, a Bélgica ofereceu, ao longo dos tempos, grandes treinadores ao mundo do futebol, que, nos anos 80, congeminaram um estilo malicioso, feito de atrasos ao guarda redes, traiçoeiras defesas em linha e venenosos contra ataques. Na base deste estilo dois eremitas do banco: Guy This e Raymond Goethals, que guiaram, nos clubes e na selecção, uma sublime geração, por onde passaram nomes como Vercauteren, Van der Elst, Ceulemens, Scifo e, entre outros, uma barbudo lateral direito que fazia todo o seu corredor de um só fôlego durante os 90 minutos: Eric Gerets. Hoje, uma década após ter pendurado as chuteiras no PSV, também ele se tornou numa referência técnica do futebol belga, após conquistar três títulos de campeão em três clubes distintos, sempre apoiado num estilo de jogo que bebeu os seus traços estilísticos nos ensinamentos daqueles seus velhos mestres: Com This aprendeu os mais eficazes e traiçoeiros conceitos tácticos. Com o velho feiticeiro Goethlas aprendeu todos os segredos, mágicos e mórbidos, do mundo do futebol, que ora o tornaram um sagaz lateral direito, ora o envolveram num complicado processo de corrupção que abalou o futebol belga no inicio dos anos 80, quando o Standard de Liége, onde então também jogavam figuras como Preudhome, Meuws e Thamata, foi acusado de comprar o ultimo jogo do campeonato. Estávamos em 1984. Como consequência, Goethals e Gerets ficaram impedidos de continuar na Bélgica, e enquanto o treinador passou um ano em Portugal, no Guimarães, o lateral rumou a Itália, para o AC Milan, onde, com os italianos longe dos grandes momentos, passaria duas discretas épocas. Seria no PSV, com Hiddink, onde se sagrara campeão europeu em 88, frente ao Benfica em Estugarda, e, depois com Bobby Robson, que o Leão de Rekem, como é conhecido devido á sua imponente barba e á terra que o viu nascer em 1954, resgataria a sua imagem feroz que lhe permitiria, em 1992, com 37 anos, encerrar a carreira fiel á sua imagem.

GERETS COMO TREINADOR: A PROFECIA DE GOETHALS

Como treinador, o prestígio de Gerets explodiu quando em 96/97 conquistou o titulo de campeão belga no banco do modesto FC Lierse, batendo os gigantes de Bruxelas e Brugge. Até essa data, era apenas lembrado como um antigo grande jogador. Mesclando um onze feito de jovens promessas e veteranos, onde se destacavam nomes como Van Meir, Bart Roover e Nico Kerckhoven, o seu Lierse tornou-se um símbolo do bom futebol. Partindo sempre do clássico 4-3-3, Gerets colocou em prática os princípios básicos do futebol belga: defesa a 4, com o libero de perfil com a defesa, meio campo recuperador de bola e avançados rápidos no contra ataque. O mesmo sistema que, na época seguinte faria sucesso no FC Brugge, solidificado com a experiência de Franky Van der Elst, o patrão do meio campo então com 36 anos, no apoio ao ponta de lança lituano Jankauskas. Na frente da defesa estava um diamante ganês, Eric Addo, que chegara a Brugge aos 16 anos, descoberto pelo seu compatriota Berkoe, então a jogar no outro clube da cidade, o Cercle Brugge. Com o chamado perfil do mocho, Gerets manteve o estilo e guiou o Brugge ao titulo, repetindo o sucesso do ano anterior em Lierse. A sua estrela estava lançada. Seria com esta aura de grande herdeiro da tradição táctica belga que receberia em 1999 o convite para regressar ao futebol holandês e ao PSV que finda a era Robson e face á saída de Dick Advocatt buscava um homem capaz de lhe restituir o perfume do bom futebol, que então rumara para Roterdão, feudo Feyenoord. No país das túlipas, Gerets manteve a chama das vitórias acesa e em duas épocas conquistou dois títulos de campeão holandês, revelando sempre grande astúcia táctica.

A CRISE DO FUTEBOL BELGA

Face ao escasso campo de recrutamento em que se move, a eficácia do traiçoeiro estilo belga varia conforme o maio ou menor talento de cada geração. Um facto que explica os altos e baixos da sua selecção, eliminada na 1ªfase do Euro-200 disputado nos seus relvados, e do seu futebol de clubes, que durante 30 anos ocupou os oito primeiros lugares do Ranking UEFA, onde ainda estava em 1994, para depois cair para o 25ºlugar! Desportivamente foi o fim de uma notável geração de jogadores, ao mesmo tempo que os seus clubes, ao contrário dos vizinhos franceses, não encontraram suporte financeiro para enfrentar os novos tempos. Eric Gerets é, sem dúvida, o treinador belga do momento. No seu carisma projecta-se também muito do seu futuro. Depois de Lierse, Brugge e Eindhoven, ninguém ficaria muito admirado se surgi-se, nos próximos anos, no banco da selecção dos diabos vermelhos, hoje liderada por Robert Waseige.

OS PASSOS DO LEÃO DE REKEM

Como jogador, Gerets vestiu por 86 vezes, entre 1975 e 1991, a camisola da selecção belga, fez 2 golos e é, atrás de Celemens, o jogador belga mais internacional de sempre. Ao longo da passou por quatro clubes: o Standard de Liege, onde esteve 12 épocas, vencendo 2 campeonatos belgas e 1 Taça: o AC Milan, em Itália, o Mastricht, onde só esteve um ano e, por fim, o PSV Eindhoven, onde em 7 épocas conquistou 6 Campeonatos holandeses, 3 Taças e 1 Taça dos Campeões Europeus. Em 1992, iniciou a carreira de treinador: Época Clube Classificação 92/93 Club Liege 12º 93/94 Club Liege 13º 94/95 Lierse 6º 95/96 Lierse 4º 96/97 Lierse 1º 97/98 Club Brugge 1º 98/99 Club Brugge 2º 99/2000 PSV Eindhoven 1º 2000/2001 PSV Eindhoven 1º
Depois de basear o primeiro titulo nos rasgos de Van Nistelrooy, Gerets teve esta época, após a lesão do chamado novo Van Basten, então já contratado pelo Manchester United, de reconstruir as bases do onze, contratando o novo príncipe do futebol jugoslavo: Kezman, 21 anos, um diabo á solta na área adversária, autor de 23 golos na Liga até ao momento, e que, na fase final da época, fez uma dupla terrível com o regressado Van Nistelrooy. Este ano, as grandes estrelas estrangeiras da equipa foram o suíço Vogel, ex-Grashpers, o finlandês Kolkka, o dinamarquês Rommedhal e o russo Nikiforov, mas para os mais atentos á carreira de Gerets, o seu jogador símbolo continua a ser o tal jovem ganês que três anos antes em Brugge dissera ir ser em breve um grande figura do futebol internacional e que depois o seguiu até Eindhoven, Addo. Para Raymond Goethals, feiticeiro do banco na reforma, todo este sucesso de Gerets não constituiu surpresa: “Ele é um líder nato. Como jogador sempre gostou de assumir as responsabilidades. Era super-aplicado e embora defesa estava sempre a pensar no ataque. Era lógico que quando um dia fosse treinador também transportasse para o cargo os mesmos atributos. Assim foi”

Artigos Relacionados

  • iTALIA, a preto-e-branco iTALIA, a preto-e-branco 7 de Janeiro de 2012 Táctico no Calcio: cinco dos 6 primeiros jogam (sempre ou ás vezes) em sistemas de defesa a «3»
  • O poder dos jogadores O poder dos jogadores 31 de Outubro de 2011 Exercício de futebol-total: Se abríssemos o cérebro de Balotelli como estaria dividido lá dentro?
  • Não tentem isto em casa! Não tentem isto em casa! 5 de Outubro de 2011 A aventura de jogar com três defesas. Evolução do modelo de jogo do Barça e bases dos seus movimentos
  • Notas Internacionais (12) Notas Internacionais (12) 17 de Junho de 2011 Notas da “Gold Cup”; Atenção a Marrocos!; O “fenómeno” Santa Cruz!; A marca de “El Muñeco”
  • E se todos os nº9 fossem como Falcao? E se todos os nº9 fossem como Falcao? 21 de Maio de 2011 O golo de Falcao, a beleza plástica do movimento, voo imparável, foi maior que o jogo todo!