Há vida depois de Deco?

31 de Março de 2009
A encruzilhada da selecção. O presente e o futuro. Um jogo que vale mais do que 90 minutos. Vale uma “certa ideia de futebol português”…

 

O futebol, hoje como há cinquenta anos, sempre foi uma espécie daquelas casas de espelhos das velhas feira populares que distorciam as imagens. Exagera as virtudes e distorce os defeitos. Esta semana no futebol português foi um bom exemplo disso. No fim de tanta conversa surda sobre becos do futebol, surge a selecção e, de repente, a nossa memória colectiva resgata algum sentido. Mas, o que é hoje uma selecção? A simples necessidade de fazer a pergunta coloca em causa a génese que as fizeram míticas. Para todos. Adeptos, jornalistas, políticos, e, sobretudo, jogadores. Porque, no passado, nenhum grande craque (de Pelé e Eusébio a Maradona e Cruyff) atingiria a dimensão divina sem a passear na sua selecção. Talvez só Di Stefano o tenha conseguido, na história do futebol mundial.
 
A globalização dos tempos modernos turvou todo este conceito de futebol. Hoje, o futebol baixa dos satélites para os relvados todas as semanas e entra-nos pela casa dentro sem pestanejar, ao ponto de transformar todas essas diferentes elogias e sentimentos num mero instrumento de mercantilista. É o tempo das “selecções globais”. O futebol “hermofrodita”.
 
Vejo os nossos jogadores chegando ao estágio da selecção e sente-se que mais do que jogar futebol, eles hoje “produzem” futebol. Não é mesma coisa. É muito diferente. Há como que um disfarce convencional na forma como surgem, andam ou falam. Muito diferente de quando o fazem nos clubes. No fundo, sentem que já não é naquele espaço que as coisas podem mesmo mudar nas suas vidas.
 
Fazer da selecção uma equipa no sentido de “pacto de grupo” tornou-se, desta forma, a grande missão de um seleccionador. Mais do que um treinador, um gestor de emoções e um coreógrafo táctico. Porque não existe tempo para mudar hábitos. Sejam emocionais, a cabeça dos jogadores, sejam tácticos, a forma como jogam nos seus clubes. As selecções vivem, assim, muito dependentes do momento dos clubes e como, depois, os jogadores encaixam numa nova realidade (equipa) sem perder as virtudes. A selecção tem vários jogadores em luta com o novo puzzle táctico criado. Pepe a trinco (definição mais redutora para um nº6 que no bom futebol moderno deve ser também um pivot de inicio de construção de jogo) ou Duda a lateral-esquerdo (sem cultura de posição, após uma vida como médio-ala). Dois jogadores na selecção em contra-mão com os hábitos que trazem dos clubes. A “mecanização” ameaçada. Um guarda-redes que entra em campo após fazer apenas um jogo na selecção. Entra-se aqui pelo campo do debate sobre “aguentar a pressão”. Dilemas para além da quimera do ponta-de-lança, vinda dos tempos do preto-e-branco, e que, olhando a equipa, esfuma-se na importância de um jogador como “toque de midas”. Todas as grandes equipas o têm. O que pode fazer a selecção sem ter no espaço de terreno onde se faz verdadeiramente a diferença o alquimista, Deco, que acende as luzes da equipa? Tornou-se mais do que um “simples jogador” no onze nacional. Pelo que joga (com classe, á entrada da área, local do último passe para golo) e pelo que representa (o elo brasileiro da globalização). Deco é quase uma metáfora com duas pernas do momento do futebol português, a encruzilhada (táctica e histórica) em que caiu a selecção.
 
Queiróz pegou na selecção num final de ciclo e sente que para construir o futuro, tem de ganhar o presente. Isto é, o jogo com a Suécia vale muito mais do que três pontos. Vale uma “certa ideia de futebol português”… Pode valer os próximos quatro ou cinco anos. O tempo de construir uma ideia para o nosso futebol, órfão de uma filosofia global, algo que vive muito para além de simples 90 minutos, um simples resultado. O problema é que, neste momento de farpas, depende dele.   
 

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