Velha raposa, seleccionador belga durante 10 anos, campeão europeu com o Marselha em 1993, profeta de dois inolvidáveis ciclos no banco do Anderlecht -entre 1976 e 1979, e entre 1988 e 1989, no qual venceu duas Taças das Taças- ficou conhecido como Raymond-la-science. Grande conhecedor dos segredos mais bem guardados das histórias, pequenas ou grandes, do futebol europeu, era capaz de passar 24 horas sobre 24 horas a falar de futebol. Morreu esta semana, aos 83 anos, na sua Bruxelas.
A sua carreira atravessou o tempo e fez dele um dos grandes mestre do futebol mundial do Século XX. Perfil de Mocho, era um sábio do futebol. Os seus grandes momentos seriam vidos, porém, durante os dez anos, entre os anos 60 e 70, que esteve no comando da selecção da Bélgica, que guiaria ao Mundial de 1970, falhando depois o apuramento para 1974 frente á Holanda de Cruyff, devido a um golo mal invalidado. A Bélgica, aliás, começava a tornar-se, nesse tempo, como que num mórbido laboratório táctico, bem evidenciado em campo pela forma como as suas equipas e selecção interpretavam uma nova táctica por eles próprios inventada. Era a chamada “defesa em linha”, armadilha traiçoeira de colocar os adversários fora-de-jogo. Na selecção brilhava Guy This, a nível de clubes, destacava-se Raymond Goethals.
Ficou com o rótulo de ser um treinador defensivo, mas Goethals era muito mais que essa imagem redutora, embora sendo um dos grandes ícones da traiçoeira escola belga, as maquiavélicas estratégias defensivas e de contra-ataque fossem a grande inspiração da sua ideologia futebolística. Apostava, sobretudo, nas componentes psicológica para construir equipas inesquecíveis, tacticamente perfeitas. Uma espécie de ilha de futebol curto, rodeado de livros de tácticas por todos os lados.

Já na fase terminal da sua carreira, em 1993, conquistaria o titulo europeu como o tumultuado Marselha de Tapie, um presidente que controlava tudo.... menos, claro, o Feiticeiro Goethals: “Todos no clube o tratavam por Bernard, excepto eu, que, apesar do que ele queria, sempre insisti em tratá-lo como Presidente. Para se ganhar Tapie e conviver com ele, devia-se saber dizer-lhe não! Se cedíamos, ele jogava com qualquer pessoa. Ele mentia como respirava. Não, digo melhor, ele mente melhor do que respirava”.
Quinze anos depois dos triunfos com o Anderlecht, entre 76 e 78, o velho feiticeiro voltava ao topo orientando o conturbado Marselha de Tapie. Aos 72 anos, ainda conservava o mesmo entusiasmo, o cabelo pintado de preto escondia as brancas, e, no banco como nos discursos, parecia um jovem em inicio de carreira.
Nos últimos tempos, olhando para trás com a autoridade patriarcal de já morar na casa dos oitenta anos, Goethals observa com orgulho um passado onde moram trinta e seis anos como treinador, desde que se estreou, em 1956, após uma carreira de jogador como guarda redes, no banco do modesto Stade Ewaremme. da 11 Divisão belga: "O futebol de hoje mudou muito. A velocidade de jogo cresceu em proporção e, nesse contexto, a França foi o país que melhor soube acompanhar a evolução. A sua selecção de 1998 e de 2000 lembra-me um pouco o Brasil de 1970.
A Bélgica, ao invés, regrediu, mas não apenas no campo desportivo. Os clubes estão sem dinheiro e eu já não sinto que pertença a este mundo. Passei 36 anos no banco. Nunca esquecerei uma coisa, que ao longo da minha carreira, um jogador inglês, do qual não me recordo o nome, me disse uma vez: Na vida nós acabámos sempre por regressar ao nosso lugar onde nascemos, para morrer. É verdade. Eu regressei a minha casa, na Bélgica, certamente, para morrer." Assim foi, a 6 de Dezembro de 2004. Tinha 83 anos.
O seu legado será eterno. Raymond Goethals, um homem capaz de passar 24 horas sobre 24 horas a falar de futebol.
OS PASSOS DE GOETHALS

Como jogador, foi guarda-redes do Darling,de Bruxelas, entre 1933 e 1949, saltando depois para o Racing onde ficou até 1952. Após o final da carreira de jogador, passou para treinador.
Entre 1968 e 1976, foi seleccionador belga, alcançando o terceiro, lugar no Europeu de 1972. lngressou, depois no Anderlecbt, que conduziu á final da Taça das Taças em 1977, vencendo a prova no ano seguinte. Depois de curtas passagens pelo futebol francês e brasileiro, ingressou no Standard Liége, ganhando dois campeonatos belgas (1982 e 1983) e, mais uma vez, chegou à final da Taça das Taças. Passou, então, pelo V. Guimarães em 1984/85 (9º lugar), depois de ter sido suspenso pela federação do seu país, e também sancionado pela Uefa devido a falsificação de resultados nas últimas jornadas do Campeonato Belga. castigo sancionado. Foi a grande “mancha” da sua brilhante carreira. Deste modo, Goethals não podia sentar-se no banco e assistia aos jogos da bancada. Como Manuel Machado (actual treinador do V. Guimarães e, então, preparador físico) falava bem francês, era ele quem se sentava no banco e transmitia as indicações de Goethals a Djunga, adjunto do treinador belga. Regressou, em 1987, ao Anderlecht e pensou-se que, aos 66 anos, a carreira entrara em declínio. Goethals provaria que não: ganhou um campeonato e uma taça. No início dos anos noventa, o presidente do Marselha, Bernard Tapie, que queria tornar a primeira equipa francesa a vencer a Taça dos Campeões, contratou o feiticeiro. Na primeira tentativa (1991) perdeu a final para o Estrela Vermelha nos penalties. Dois anos mais tarde, na primeira final da Liga dos Campeões, o Marselha bateu o poderoso Milan por 1- O. Atingido o ponto mais alto da carreira (considerado melhor treinador da Europa em 1991 e 1993), Goethals abandonou o Marselha e regressou ao Anderlecht, onde voltaria a ganhar o campeonato. Era o último fôlego do Feiticeiro belga.