GOLD CUP CONCACAF 2002: As novas gerações do Soccer

May 2, 2002 12:00 AM
Pela segunda vez na história, os EUA conquistaram a Gold Cup da CONCACAF, Confederação da América do norte, Central e Caraíbas. Será possível, no entanto, falar, com rigor, num estilo de jogo típico da CONCACAF? Embora os últimos anos tenham aproximado as distintas regiões, continuam a vislumbrar-se distintas realidades. O progresso do soccer, da Costa Rica e de surpresas como a Jamaica e, nesta edição, do Haiti e Martinica revelam, no entanto, um claro progresso competitivo.
Quando em 1992, os EUA conquistaram a primeira edição da Gold Cup, o seu futebol ainda se encontrava a despertar de um longo período de adormecimento. Impulsionados pelo Mundial que então se iria disputar dentro de dois anos no seu território, o soccer começou, por fim, a construir as suas estruturas desportivas e sociais. Mais do que contratar vedetas em fim de carreira para a sua Liga privada, o futebol americano sentiu que era momento de criar as suas próprias estrelas futebolísticas. Dez anos depois, a nova geração do Soccer está solidificada, já esboçando até um estilo próprio de jogo. Assim, com as maiores estrelas presas aos seus clubes no estrangeiro, os EUA mostraram, nesta Gold Cup, o lado jovem do seu renovado futebol, alinhando uma selecção de jogadores que, habitualmente, não são titulares no onze principal do Tio Sam. Entre os novos kids do soccer, dirigidos em campo pelo experiente defesa central Jeff Agoos, 33 anos, destacaram-se os avançados McBride (Columbus Crew), com 19 aos, e Landon Donovan, 21 anos, a nova grande esperança do soccer, colega de Agoos no San José Earthquakes, último campeão americano. Noutra perspectiva, este é um triunfo com ecos por toda o Continente americano. Historicamente com as suas maiores tradições concentradas na região da América Central, morada do poderoso futebol mexicano, a CONCACAF revelou, na última década, uma clara subida do seu nível competitivo internacional, resultante do progresso de outras nações situadas em zonas outrora menos poderosas futebolisticamente.

O renovado futebol da CONCACAF

A renovação do futebol da CONCACAF, emerge, desde logo, na América do Norte, onde a par do progresso americano, o Canadá, desde a chegada há dois anos do treinado alemão Ojisek, anterior adjunto de Beckenbauer, vem realizando um óptimo trabalho de lapidação técnico-táctica, onde se destacam o patrão da defesa deVos e o avançado Mc Kenna. Noutro plano, as Caraíbas, com Trinidad e Tobago, Jamaica, também começaram a soltar o perfume do seu futebol. Produto, na sua essência, de uma imensa segunda geração de emigrantes, o futebol da CONCACAF, estilísticamente colonizado, sobretudo, pela cultura latino-hispânica, é aquele que, entre todas as confederações, maior dificuldade sente em encontrar, a todos os níveis, uma chamada identidade colectiva de jogo. Depois de um inicio onde revelou um estilo algo britânizado, de passe longo, os EUA adquiriram, no decorrer dos anos, uma concepção de jogo mais apoiado, fruto da crescente maturidade táctica incutida nos jogadores pelos credenciados técnicos que tem passado pelos states, aliado á experiência internacional de muitos dos seus jogadores, a actuarem em competitivos campeonatos europeus. A explosão, nos últimos anos, do futebol da Costa Rica provou que as nações centro americanas, dominada pelo México, vivem sobretudo da técnica, aliada a um ritmo tropical, mas que, embora impulsionado pela garra hispânica herdada dos antepassados, carece de solidez colectiva em campo, sobretudo a nível mental, pois os progressos tácticos são evidentes. No onze dos Ticos, finalista derrotado frente aos EUA, destaque, nesta Gold Cup, para o defesa Marin e o médio Solis (ambos a jogar no Alajuelense) enquanto Gomez, a jogar na Grécia no OFI Creta, foi o médio ofensivo mais activo.

México e Trinidad e Tobago: Duas Realidades

Sem grandes valores individuais, capazes de por si só marcar a diferença em campo, o futebol mexicano confirmou nesta Gold Cup 2002, estar a atravessar um período de indefinição, incapaz de reunir um bloco que harmonize o padrão de jogo da sua selecção. Desta forma, o onze de vive, sobretudo, do tradicional espírito lutador latino americano, onde, no Rose Bowl de Passadena, se destacou o médio Luís Sosa, muito lúcido a organizar e a lançar jogo. A camisola verde asteca continua a impor respeito aos adversários, mas o excessivo lateralizar do seu jogo, ao qual faltam médios ofensivos velozes e de verdadeira classe perto da área contrária, aqueles que, como se costuma dizer, assumem as despesas do jogo, tornam o seu futebol, durante a maior parte dos noventa minutos, demasiado lento e previsível. Observando outras realidades, salta á vista a descida do nível competitivo da selecção de Trinida e Tobago que após causar sensação nos anos 90, com jogadores como Latapy e Yorke, não conseguiu manter o mesmo encanto negro do seu jogo, de, digamos, inspiração africana. Nesta Gold Cup, o onze tobaguenho foi uma profunda decepção, caindo logo na fase inicial, apesar dos bons apontamentos deixados pelo defesa Pierre Bruny e pelo elástico guarda redes Shaka Hislop, há várias épocas a jogar em Inglaterra.

Martinica e Haiti: Novas ilhas de futebol

Incansável na sua busca por desbravar novos territórios, o mundo do futebol descobriu nesta Gold Cup 2002, o perfume futebolístico de duas ilhas francófonas: Haiti e Martinica, que, sensacionalmente, atingiram os quartos-de-final da prova. A primeira sensação foi dada pelo onze do Haiti, que regido pelo médio Ernst Atis, jogador do Draguignan, das divisões regionais francesas, bateu o poderoso Equador, convidado especial, por 2-0, acabando, depois por só cair, no prolongamento, frente á Costa Rica. A outra sensação, vinda das Antilhas, também trouxe o aroma dos relvados franceses, onde jogam a maioria dos valores da selecção da Martinica. São os casos de Heurlié, (Troyes), Di Canot (Racing Paris) e Reuperné (Stade de Reims), membros de onze que teve no defesa Mirande (L`Assaut) a principal figura. Depois de há cerca de oito meses terem surpreendido o mundo ao bater a Austrália na Taça Caribe da CONCACAF, venceram agora Trinida e Tobago, campeão das Caraíbas, só sucumbido depois, no desempate por penaltys, frente ao Canada. Observando as outras selecções da CONCACAF presentes nesta Gold Cup 2002, vislumbram-se outros talentos a anotar. Entre eles, na selecção de El Salvador, o dinâmico médio Cabrera e o perigoso avançado Ronald Cerritos, jogador do campeão americano San José Eartquakes. Na Guatemala, atenção ao avançado Juan Carlos Plata, jogador do CSD Municipal, que, com 31 anos, revelou grande saber futebolístico. Por último, assinalando a quase simbólica presença da selecção de Cuba nos Estádios americanos (de cujas bancadas a polícia mandou retirar os cartazes de apoio a Fidel Castro e as fotos de Che Guevara) destaque para as defesas do seu guarda redes Odelin Molina, grande responsável pelo sensacional empate (0-0) com a Coreia e pela derrota tangencial (0-1) contra os rivais americanos.

GOLD CUP 2002 – O Melhor Onze

(Sistema 3x4x3) Molina (Cuba) Marin (Costa Rica) Agoos 8EUA) De vos (Canadá) Sosa (México) Solis (Costa Rica) Cabrera (El Salvador) Gomez (Costa Rica) McKema (Canadá) Donovan (EUA) Mc Bride (EUA)

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