Em termos de sistemas tácticos, o onze de Rehhagel, nunca teve um rosto claramente definido, sobretudo na organização defesa-meio campo, alternado entre o 4x4x2 e o 3x5x2, dois esquemas que, depois, em cada jogo, dependendo do adversário, se dinamizaram nas suas diversas variantes, sobretudo o 4x1x3x2 e o 5x3x2, respectivamente. Uma evolução táctica que espelhou, no fundo, os desígnios da escola alemã de Rehhagel, historicamente adepta do 3x5x2. Apesar desses ensinamentos, os primeiros jogos tiveram por base o 4x4x2: 4x1x2x1x2, contra a Espanha, 4x3x1x2, contra a Ucrânia. As duas derrotas por 0-2 fariam, no entanto, repensar esta sistematização, passando a jogar, a partir da 3ª jornada, frente á Arménia, num claro 3x5x2. Uma metamorfose táctica que desde logo, se reflectiu na defesa, que, desta forma, alternou, no seu eixo, entre a clássica dupla de centrais (Dallas e Dabizas), enquanto se manteve a linha de «4», e o sistema de três defesas, resultante da inclusão, nessa variante, de Kapsis, central do AEK, ao mesmo tempo que os laterais (Seitaridis, Venetedis ou Fyssas) se tornavam mais ofensivos.
A consagração deste esquema sucederia, na sua variante defensiva -5x3x2- em Espanha, onde Rehhgel incutiu pela primeira vez a dura escola alemã da marcação ao homem, com Dabizas a marcar individualmente Raúl, seguindo-o até ao meio campo, ficando Kapsis á zona e Dellas como líbero. Uma nova imagem que ganhou dinâmica de contra-ataque quando, no centro do meio campo, o lento Tsartas deu lugar ao dinâmico Karagounis, ao mesmo tempo que o nº9 Charisteas, muito estático, trocou com o ala direito Lakis, abrindo-se assim a frente de ataque, passando, com o campo mais longo, a jogar numa espécie de 5x3x1x1, com os laterais recuados, Vryzas em cunha no ataque, e Giannakopoulos endiabrado sobre a esquerda. Este novo design táctico manteve-se no jogo seguinte, em casa contra Ucrânia (agora com Kapsis a marcar Shevchenko), mas desta vez utilizando a variante atacante do sistema: o 3x5x2, com laterais ofensivos, realizando Fyssas a sua melhor exibição de toda a campanha.
Os organizadores e os desiquilibradores
Numa análise táctica global, observa-se, portanto, que depois de iniciar a campanha em 4x4x2, seria só através do 5x3x2 e suas variantes, sobretudo o 3x5x2 e o 3x4x1x2, que, após um inicio sem brilho, Rehhagel descobriu o módulo ideal para chegar ás vitórias. Um dilema táctico evidente no último jogo (Irlanda, casa) quando decidiu resgatar o 4x4x2. Após a pobre exibição do primeiro tempo, reconverteu-se, porém, na segunda parte, ao 3x5x2, com Fyssas á frente de Venetidis, sistema no qual faria o golo que deu o apuramento.
No meio campo destacam-se duas classes de jogadores, os organizadores (Tsartas e Basinas) e os desiquilibradores (Giannakopoulos e Karagounis), que, pelo centro ou pelos flancos, rasgam de trás no apoio aos pontas de lança. Mesclando os dois estilos, emerge o experiente Zagorakis.
Tsartas é a grande estrela da equipa, um nº10 que joga futebol quase como se estivesse numa mesa de bilhar, tal a geometria precisa e linear dos seus passes rente no tapete verde, mas como é lento, a visão orquestral do seu jogo apenas emerge com um ritmo de jogo menos veloz, no qual tenha o tempo e o espaço para soltar o seu belo futebol. Basinas tem igual visão de jogo, mas menor precisão de passe. É um trinco moderno, mas falta-lhe resistência para ser um box to box. Face ás características de ambos é quase impossível que joguem juntos, pelo que, como se viu nos últimos jogos, a solução, para a zona central á frente da defesa, poderá ser Antzas, trinco do Olympiakos, um recuperador de bolas, perfeito a fechar espaços.
Para abrir a frente de ataque, sobre as faixas, o onze vive, sobretudo, das investidas dos laterais e do médio ala direito Lakis, enquanto que, na esquerda, surge Giannakopoulos, claramente o melhor jogador grego da actualidade.
No ataque, três nomes: Vryzas, Nikolaidis e Charisteas, o que encaixa mais na definição do clássico ponta de lança que joga em cunha entre os centrais: alto, forte e oportuno nos cruzamentos. Nikolaidis e Vryzas são ambos, pelo contrário, mais móveis, exímios a entrar nos espaços vazios, pelo que a dúvida será saber qual deles fará dupla com Charisteas.
Fyssas, um lateral esquerdo
com profundidade ofensiva
Apontado como novo jogador do Benfica a partir de Dezembro, o ainda lateral esquerdo do Panathinaikos, Fyssas alternou, nesse lugar, com Venetidis, tendo ambos realizado quatro jogos como titulares durante a fase de apuramento. Depois de ter alinhado no encontro inaugural contra a Espanha (D, 0-2), Fyssas, atropelado pela fraca exibição de toda a equipa, sairia do onze nos jogos seguintes, só regressando na 6ª jornada, para defrontar a Ucrânia, em casa, contra a qual, ansioso de recuperar o seu lugar na selecção, realizaria uma exibição espectacular, claramente a melhor de toda a qualificação.
A sua influência tornou-se maior pelo facto de a equipa, a partir dai, ter tacticamente sempre alinhado em 3x5x2, um sistema que faz depender a sua eficácia sobretudo da capacidade ofensiva dos laterais. Excelente a subir no seu flanco, Fyssas cumpriu também nas compensações defensivas, surgindo inclusive muitas vezes a dobrar os centrais, fruto da sua resistência física, quase como um box to box de faixa, revelando, ao mesmo tempo, disciplina táctica e visão de jogo. Como principal nota ofensiva, destaque-se uma magnifica incursão pelo seu corredor logo nos minutos iniciais, culminada com um típico movimento seu de flectir no terreno, aproveitando a descolocação posicional do defesa que o marca, entrando em velocidade na área, acabando por ser derrubado em falta, originando um penalty que Giannakopoulos desperdiçou. Um lance no qual demonstrou velocidade, resistência, técnica e inteligência de jogo, provando a elevada categoria técnico-táctico do seu futebol, ao ponto de poder ser considerado como um dos mais sólidos laterais esquerdos do actual futebol europeu.