Satélite de Futebol - Helena Costa
Acredito que uma página tenha sido virada na evolução do Futebol Feminino: foi a primeira vez que uma equipa latina venceu uma competição europeia de clubes!
O palco dos sonhos que retrato é muito próximo de Wembley , não figuram Messi nem Rooney, mas a vontade de ganhar foi a mesma, imensa! Um ambiente igualmente fantástico, um jogo recheado de talento e pormenores deliciosos...No Menu deste artigo figura a final da Women’s Champions League 2011, ganha pelo Lyon por 2-0 ao Potsdam, dois dias antes da Final masculina.
O Futebol feminino vive actualmente um momento de ascensão, muito pelo esforço da FIFA e da UEFA. No entanto, em jogo estiveram equipas que sobrevivem em esferas opostas, embora sejam consideradas das melhores da Europa: um Lyon amador, um Potsdam profissional; o futebol criativo vs o futebol físico; um país que nada tinha ganho, uma Alemanha campeã do mundo; uma reedição do ano anterior!
O Lyon jogou com o seu habitual 1.4.3.3. Com Bouhaddi na baliza, uma linha defensiva de quatro defesas (Bompastor na esquerda, Renard na direita, Georges e Viguier como centrais), um meio campo com duas linhas (dois pivots ,Henry e Cruz, e uma média de segunda linha, Abily), na frente duas extremos, na verdadeira acepção da palavra (Thomis na direita e Necib na esquerda), no centro Schelin, com uma mobilidade impressionante.
Já o Potsdam, que habitualmente joga em 1.4.3.3., jogou em 1.3.5.2. Garholz na baliza, três centrais (Wesley, Petter e Henning), uma linha com quatro médias (Odbrecht – pivot mais posicional, Zietz também no centro, Kemme na direita e Schmidt na esquerda), com Bajramaj, a criativa da equipa a jogar mais em profundidade, com total liberdade; à sua frente as duas avançadas (Mittag e Kerschowski).
O talento, a acção e a inspiração de quatro jogadoras do Lyon Renard-Thomis-Abily-Schelin (corredor direito) foram preponderantes. Mobilidade e permutas foram o segredo. O equilíbrio posicional das restantes foi o que faltou à equipa Alemã. A percepção das jogadoras do Lyon, foi na maioria das vezes comum a todas as jogadoras, verificando-se deslocamentos intencionais e uma intencionalidade posicional, algo fruto de treino.
Durante a primeira parte, e algum tempo da segunda, o Lyon beneficiou do facto do Potsdam não funcionar como bloco na fase defensiva. A sua pivot juntou-se demasiado às centrais (muito por reacção a Abily e Schelin), a outra média centro (Zietz) compensou demasiadas vezes o facto de Kemme não baixar no corredor esquerdo. Para agravar, Bajramaj “afastou” sempre o ataque das alemãs dos restantes sectores. As centrais foram “arrastadas” inúmeras vezes, pelos movimentos de Schelin para a direita.
Para o demérito há sempre uma causa: a amplitude posicional que as laterais e extremos do Lyon deram para circular a bola em largura, permitiu ganhar esse espaço no corredor central, ora aproveitado pela mobilidade de Schelin, ora por movimentos de ruptura de Abily, ou até mesmo por diagonais interiores de Thomis, Necib e Renard. Provado ficou mais uma vez que sistemas de jogo não ganham jogos, mas sim a Dinâmica e funcionalidade da equipa – a superioridade numérica do meio campo em nada favoreceu o Potsdam!

O aproveitamento rápido dos (poucos) espaços é sem dúvida um dos segredos do Futebol de alto nível. O Lyon não só cedeu menos espaços, como aproveitou os que teve de forma diferente! Fechou sempre com as suas linhas mais recuadas, foi uma equipa muito compacta na sua organização defensiva. Concedeu apenas espaço para que o Potsdam circulasse a bola pela sua defesa e optasse por acelerar o jogo com passe longo, o que facilitou a intercepção por parte das francesas, orientadas de frente para o jogo. O fora de jogo foi uma verdadeira arma para defender. Sem posse, e fruto da solicitação constante das médias laterais do Potsdam, o Lyon manteve sempre um posicionamento que lhe permitiu pressionar com qualidade assim que a bola “entrou” nos corredores laterais.
Essa gestão dos espaços está também intimamente relacionada com as transições: uma equipa só aproveita o que a outra lhe permite, é essa a base de uma interacção! A reacção à perda foi na maioria das vezes agressiva, colectiva e muitíssimo rápida por parte do Lyon, com uma pressão imediata ao portador da bola. O que conseguiram? Contrariar um dos princípios de jogo (evitaram imensos passes em profundidade para as avançadas), uma intencionalidade colectiva do Potsdam, que não soube reagir ao que da situação emergia. Recorreu por isso ao drible e condução das individualidades, sobretudo à criatividade de Bajramaj, espalhando um pouco do seu talento para o muito público presente.

Ao invés, o Lyon acelerou o jogo por passes curtos, um jogo sempre apoiado, no qual as médias Abily e Cruz tiveram um papel fundamental! A predisposição ofensiva da lateral Renard foi admirável, o fermento fundamental para a equipa “crescer”! No entanto, se o Potsdam pecou por não ter equilíbrio enquanto atacou, o Lyon teve como a face menos visível do seu sucesso a média Henry (pivot), um rosto discreto mas com um papel preponderante nas compensações, permutas, recuperações e equilíbrios. Largura e profundidade foram garantidas no momento correcto por toda a equipa, que nunca hesitou em recorrer à profundidade defensiva para retirar a bola das zonas de pressão, mantendo-a em segurança (defesas e guarda-redes).
Venceu a equipa que melhor se soube preparar, focar e adaptar ao que emergiu! No Lyon o treinador foi contratado com a intenção de vencer a Champions: teve uma equipa focada! Por outro lado, a maioria das jogadoras do Potsdam interromperam o estágio da Selecção Alemã (para Campeonato do Mundo que decorrerá em Julho), uns dias antes, para preparar a final! Posturas bem diferentes! Uma realidade impensável para Messi ou Rooney!
Acredito que uma página tenha sido virada na evolução do Futebol Feminino: foi a primeira vez que uma equipa latina venceu uma competição europeia de clubes! E como disse a capitã do Lyon antes da final, “se ganharmos, o presidente vai ter de nos lavar os equipamentos para os treinos”. Outra realidade...
Do Qatar, O "Satelite de Futebol" de Helena Costa
