HAGI: «Maradona dos Cárpatos»

24 de Abril de 2001
Em Bucareste, no relvado que o revelou ao mundo, despede-se hoje do futebol internacional de selecções, o melhor jogador romeno de todos os tempos: Gica Hagi, o Maradona dos Cárpatos. Para uns foi um anarquista rebelde, para outros um génio de outras eras. Com ele, parte um pouco de um futebol que tende a desaparecer e que constituiu o ultimo grito de revolta contra a táctica que aprisiona o talento.
É um jogador em vias de extinção. Um oásis de magia no deserto de arte em que se ameaça tornar o futebol moderno. O seu estilo pausado, tornado pesadão nos últimos anos, sem grandes correrias, com dribles curtos e maior precisão no remate e passe a 30 metros do que a curtas distâncias, faz lembrar aqueles grandes craques dos anos 40/50, que na nossa memória surgem sempre a preto e branco, quase a jogar em camara lenta. Por isso, para muitos, Hagi é um jogador de outras eras que, nos anos 30 entrou numa máquina do tempo e desembarcou nos nossos dias, para trazer o perfume de um futebol que, na sua essência técnica, já repousa num passado longínquo. A viagem começou há 36 anos, na pequena cidadezinha romena de Constanza, onde Gica Hagi começou, no clube local, o Farul Constanza, a dar os primeiros pontapés na bola.
Era o inicio dos anos 80, a década que marcaria a sua explosão no futebol romeno que, por fim, descobria um jogador capaz de tornar o seu futebol de berço latino e tutela de leste, num fosso de paixões. Com o passar do tempo, o seu estilo impressionista, inventivo e rebelde começou a cativar toda a nação futebolística que até ao aparecimento do mago de Constanza dividia as suas paixões pelos grandes de Bucareste, Steaua e Dinamo. Mas, com Hagi, outro clube começava a despertar a atenção. O Sportul Studentescu, que, em 1986, no ano em que o Steaua se sagrou campeão europeu, desafiou sem medo, nos relvados romenos, o clube da família Ceausescu. Demoníaco, Hagi fez 31 golos, sagrou-se o melhor marcador do campeonato e tornou-se o símbolo para todo um povo que, em Apesar da loucura que sempre o rodeou, Hagi não conseguiria, porém, reconquistar a Coroa da Europa para o Steaua: perdeu a meia final de 87/88 com o Benfica, e em 89/90 foi batido na final, 4-0, pelo Milan. Os seus grandes rasgos de génio seriam sempre com a camisola romena. surdina, contestava o regime e as benesses concedidas ao Steaua.
Foi então que, irritado, Nicoleao Ceausescu, filho do ditador e presidente do Steaua, decidiu, ia a época 86/87 a meio, resgatar para o clube do ministério da defesa, sem pagar a indemnização devida, o homem que, todos diziam, era capaz de sozinho, com o seu fabuloso pé esquerdo, só comparável ao de Maradona, dizia-se (por isso, a alcunha Maradona dos Cárpatos), mudar o curso de um jogo e tornar qualquer estádio no vulcão em erupção.

PORQUE FALHOU EM MADRID E BARCELONA?

Quando um jogador passa por um grande clube e não triunfa, a sua imagem turva-se. Depois de não conquistar Madrid e Barcelona, dos últimos anos da carreira de Hagi ficou a imagem de um jogador demasiado temperamental, por vezes conflituoso até, que apenas brilhava em torneios de curta duração como Europeus e Mundiais, onde todo o onze gira em torno dele e toda a nação o venera como um pequeno Deus a quem tudo é permitido. Nesse habitat, sente-se feliz e pode jogar, sem problemas, no chamado limite do risco. Cada jogada sua é uma obra de arte em potência.
Por isso faz parte de uma elite de estrelas do futebol moderno –onde também se incluem Stoichkov, Cantona...- que jogam sempre num permanente desafio ao impossível. Nuca se escondem. Quanto maiores forem os assobios, quando as coisas correm mal, mais pedem a bola para soltar o génio e depois confrontar o público. Só que em Madrid e no Barça haviam mais estrelas que o anarquista romeno e assim, os altos e baixos da sua classe, acabaram por ser pouco compreendidos. Por isso, teve-se de refugiar, no limiar da carreira, num universo semelhante ao romeno. Na Turquia, com o Galatasaray, Hagi voltou a colocar a coroa real e o seu pé esquerdo, muitas vezes hipotecado a um génio cada vez mais irascível, voltou a cintilar como o mais belo dos diamantes.

125 VEZES HAGI

Já passaram 18 anos. Estávamos no ano de 1983 e Hagi, jovem promessa do Sportul, com 18 anos, fazia no frio de Oslo, contra a Noruega, o seu primeiro jogo internacional com a camisola amarela da Roménia. Era o inicio de uma fabulosa carreira que seria sendo desenhada com jogadas de encantar e golos de outro mundo.
Com o tempo, criou a sua aura de líder, até ao ponto, de nos últimos anos, todos olharem para ele á espera que um lance, ou um simples grito seu, ilumine o jogo mais difícil. Ao longo de quase duas décadas de futebol internacional, Hagi foi deixando marcas de imortalidade: Em 1995, tornou-se, com 31 golos, no melhor marcador de sempre da selecção romena, ultrapassando o mítico Iuliu Bodola.
Em 1998, tornou-se o jogador romeno com maior número de internacionalizações: 128 no total, sendo em 54 delas capitão de equipa. Depois de antes já o ter anunciado por várias vezes, Hagi decidiu, por fim que era a hora de colocar ponto de final nesta aventura. O seu ultimo jogo será esta noite, no Stadonul Steaua Ghencea,. A seu lado estará um onze que irá reunir a nata de duas gerações, anos 80 e 90, que jogou sob a batuta do maestro Hagi: Do velho Lacatus, ao jovem Chivu, passando por monstrinhos como Stelea, Petrescu, Belodedici, Prodan, Munteanu, Dumistrescu, Popescu, Lupescu, Ilie, Raducioio e Mutu.
No banco um trio técnico romeno que marcou a sua carreira: Emerich Jenei, Anghel Iordanescu e Mircea Lucescu, o treinador que o lançou na selecção. Do outro lado, um onze de grandes estrelas do futebol mundial, para um jogo de exibição, presenciado por Cruyff, Pelé, Beckenbauer, Platini e Blatter.
Será o adeus do romeno aos grandes palcos. Uma despedida muito mais justa, do que a que ficára, com sabor amargo, do Euro-2000, onde foi expulso, no seu ultimo jogo oficial, pelo árbitro português Vitor Pereira, após simular um penalty, contra a Itália.
Títulos:
Campeão Romeno 87, 88, 89;
Taça da Roménia: 87, 88, 89;
Campeão Turco: 97, 98, 99, 2000.
Taça da Turquia: 1999.
Taça Uefa: 2000;
SuperTaça Europeia: 87 e 2000.
Presente no Mundial 90, 94 e 98, e no Europeu 84, 96 e 2000.

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