Cidade portuária, Hamburgo foi, em finais do Séc.XIX, um dos núcleos mais importantes na implantação do futebol na Alemanha. Fundado em 1887, o Hamburg Sport Verein foi uma das grandes forças do futebol alemão dos longínquos anos 20. O primeiro grande titulo data de 1922, quando venceu a chamada Taça da Liga, a grande competição que dominou as primeiras décadas do futebol germânico. Os registos da época assinalam porém que, após o Nuremberga ter ficado reduzido a apenas sete jogadores, durante a Final, devido a uma sucessão de lesões, o Hamburgo, muito desportivamente, não aceitou receber o titulo. Assim, o primeiro grande trofeu, surgira no ano seguinte, em 1923, na mesma Taça da Liga, que voltaria a vencer em 1928.
Nos anos seguintes, através da década de 30, o Hamburgo conservou a sua imagem de grande equipa, até que, chegados os anos da guerra, de 1938 a 1945, foi aprisionado, como outros clubes, por forças militares que se apropriaram da sua história e emblema, dando-lhe o nome dos seus respectivos departamentos. Foi o que sucedeu com o Hamburgo que durante o tempo que durou a Segunda Guerra Mundial se converteu na equipa da Luftwaffe, então a força aérea nazi.
Só em meados dos anos 50, o clube recuperou o seu verdadeiro carácter vencedor e voltou a lutar pelo domínio do futebol alemão. Após ter estado perto do titulo em 1957 e 1958, regressou por fim ás grandes conquistas em 1960, sagrando-se novo campeão alemão. Seria a época mágica do Hamburgo, repleta de grandes jogadores que fariam dele um autêntico monstro do futebol germânico. O grande símbolo foi o avançado centro Uwe Seeler, bem apoiado por Dorfel e Dieter. A partir da explosão dessa fabulosa equipa, falar do Hamburgo era falar em futebol de ataque, sempre de olhos postos na baliza.
Em 60/61 atingiu a meia final da Taça dos Campeões, que perdeu para o Barcelona, no jogo de desempate por 1-0, e apesar de durante quase as duas décadas seguintes, não voltar a conquistar a Bundesliga, manteve-se sempre como um gigante do futebol força.
ANOS 80:
O LABORATÓRIO DE HAPPEL
CONQUISTA A EUROPA

Quando Seller se retirou, em 1972, já despontava no clube uma nova geração de possantes talentos, que iriam cavalgar de forma triunfal sobre os relvados teutónicos e de toda a Europa. Em 1977, sob a orientação técnica de Klotzer e com um onze regido pelo maestro Felix Magath, um jogador quase latino tal a classe com que tratava a bola e lançava os companheiros de ataque, conquistou a Taça das Taças frente ao Anderlecht, vencendo na final, disputada em Amesterdão por 2-0, com dois golos nos últimos dez minutos, apontados por Magath e pelo ponta de lança Volkert. Os grandes dias de glória ainda estavam, no entanto, para chegar. Em Janeiro de 1978, Gunther Netzer, antiga glória do Borussia Monchegladbach, assume, com 35 anos, pouco depois de terminar a carreira nos relvados, o papel de manager geral do clube. Impulsionado por uma dinâmica de vitória, praticando um futebol ofensivo que o tornava temido em toda a Europa, o Hamburgo, financeiramente solido, prosseguiu a sua saga, contratando a grande figura do futebol europeu de meados dos anos 70, o médio inglês que, dono do estilo Mickey Mouse, parecia voar baixinho com a bola: Kevin Keegan.
Com o pequeno furacão inglês, reconquistou, em 1979, a coroa da Bundesliga, 19 anos depois da última vitória. Na época seguinte, ainda sob o impulso de King Keegan, atinge a Final da Taça dos Campeões, que, no entanto, perde, para o kick and rush, chuta e corre, britânico do Nottigham Forest de Francis.
Os insondáveis desígnios do futebol, ditariam que seria já sem o mágico inglês, mas com o cerebral Magath já na maturidade dos 30, que chegaria a grande conquista da sua história: a Taça dos Campeões 82/83 frente á Juventus de Bettega e Platini, orientada por Trapatonni, naquele que seria um grande duelo táctico, regente de dois diferentes estilos. No banco alemão estava então uma velha coruja austríaca: Hernst Happel. Ainda hoje, Trapatonni conserva a lição táctica dessa lendária final de Atenas, onde chegava como grande favorito.
Sabe-se como tradicionalmente a escola italiana é adepta da marcação ao homem, mas nessa noite, frente a um dos grandes profetas da zona, Happel, o Trap foi tacticamente derrotado quando o sábio austríaco lançou Rolf sobre o espaço de Platini, renunciando á marcação individual que todos esperavam, em face do valor e da influência do francês do jogo da Juve, e, assim, ganhou a batalha do meio campo e, depois, o jogo, com um golo marcado cedo, logo aos 12 minutos, através de um pontapés em soupless, meio chapéu, de Magath sobre Zoff, que, impotente, limitou-se a ver estático, a bola anichar-se no fundo das redes pelo angulo superior esquerdo da sua baliza.

Era a consagração de uma grande equipa, que também vencera a Bundesliga em 81/82 e 82/83, para além da SuperTaça Europeia em 1983. Para sempre, a memória futebolística reterá, desse tempo, o perfume tecnicista de Magath. Formado no Sarrebruck, era um grande orquestrador com grande visão de jogo e precisão de passe, embora um pouco lento e aparentando sempre peso a mais (1,74m. e 75 kg). Nas neste lendário onze também estavam outras grandes figuras do futebol alemão dos anos 80: Kaltz, que com 581 jogos é o jogador que mais vezes vestiu a camisola do Hamburgo. Na retina ficou o fulgor de um ofensivo defesa direito, que avançou no tempo a dinâmica ofensiva que os laterais adquirem hoje no futebol moderno, fazendo todo o seu corredor, durante noventa minutos, em forma de rolo compressor. Para se entender melhor a polivalência defesa-ataque de Kaltz, basta dizer que, mesmo jogando como lateral, ele ainda é o quatro melhor marcador da história do Hamburgo, com 76 golos, apenas atrás de Seller, Von Heesen e Hrubesch.
No meio campo, passearam figuras de peso, como Rolf, Von Heesen e Hartwig. Na frente de ataque, destacou-se o avançado armário Hrubesch, um carro de assalto em forma de ponta de lança, um autêntico arranha céus a jogar de cabeça. Era um fantástico grupo de jogadores que contou entre 1980 e 1982 com a presença do grande Kaiser Beckenbauer. Regressado á Alemanha depois de um par de anos nos EUA, no Cosmos, entendeu ainda poder continuar a jogar por mais algum tempo. Foi assim que, para surpresa geral, ingressou, com 35 anos, no Hamburgo, convidado por um homem com quem, no passado, enquanto jogador, entrara em choque na selecção: Netzer. Embora sem a potência física de anos atrás, mantinha o mesmo estilo imperialmente elegante. Foi com essa postura que esteve presente na caminhada do Hamburgo para mais um titulo da Bundesliga, o ponto de partida para a epopeia europeia de 1983, onde Beckenbauer já não estaria, após ter decido, no final da época de 82, com 37 anos, encerrar definitivamente a sua brilhante carreira.
Com esta histórica vitória encerrava-se o ciclo de glória do Hamburgo SV. Desde esse fantástico inicio dos anos 80, o Volksparkstadion apenas voltaria a levantar-se com a conquista da Taça da Alemanha em 1987. No final dos anos 90, no culminar de uma década em que, durante algumas épocas, agoniou no fundo da tabela, o clube recuperou a estabilidade abalada e, embora distante do lendário tempo de Magath, sonha em refazer uma equipa capaz de voltar a conquistar a Europa.
No seu legado futebolístico ficava uma equipa, que de entre todos os onzes germânicos que dominaram o futebol europeu durante os anos 70 e inicio de 80, foi, talvez, a mais refinada tacticamente. Num país que nunca foi inovador em termos tácticos, o seu estilo de jogo mais apoiado, contrastava com o praticado pela maioria das equipas na Bundesliga. Embora o sistema de marcação não seja em si mesmo, um sistema de jogo, ele sempre foi, no entanto, conforme a opção recaia na zona, na marcação ao homem ou até na zona mista, determinante para a dinâmica da táctica quando esplanada em campo.Com Hernst Happel no banco, o Hamburgo foi a única equipa germânica a preferir a zona. Este dedo táctico do sábio treinador austríaco foi decisivo para que o Hamburgo figure para a eternidade como um dos grandes clubes europeus a conquistar a Taça dos Campeões.

Muitos não o conseguem imaginar sem uma caneca de cerveja e uma suculenta Brathwurst, as opulentas salsichas alemães, ao lado. Morfologicamente arredondado, roçando o gordito, Der Dick, não passando dos 1,70 metros de altura, longe das torres de músculos que caracterizavam os jogadores germânicos, ele foi o terrível goleador que marcou os anos 60 do futebol alemão: Uwe Seller. Não era um génio, mas dentro da área o seu futebol adquiria contornos demoníacos. Um panzer dono de um remate fulminante, muito astuto nas desmarcações e com grande capacidade de drible. Quando pegava na bola, os adeptos, eufóricos, gritavam “Uwe, Uwe”, como prevendo o aproximar do balançar das redes.
Estreou-se na National Manshaft com apenas 18 anos, em Outubro de 1954, num onze ainda com os louros frescos do titulo mundial conquistado poucos meses antes.
Ao longo da sua carreira fez 43 golos em 72 jogos pela selecção, mas apesar do prestigio mundial que foi alcançando, a vida de Seeler é sobretudo uma enorme história de amor a um clube, ao qual, apesar dos tentadores convites para sair que teve ao longo dos anos, se manteve fiel toda a carreira: o Hamburgo SV, o emblema da sua cidade onde nasceu a 5 de Novembro de 1936 e pelo qual assinou, com apenas 8 anos, a sua primeira licença. Em toda a sua vida não conheceu outro clube, nele conquistou os seu maiores títulos, e fez 446 golos em 520 jogos de Campeonato. Hoje, respeitado sexagenário, é, mais do que simples dirigente do HSV. É o seu grande embaixador. Aos 63 anos, continua a conservar o mesmo olhar travesso de menino pleno de esperança. Permanece com as faces rosadas, que, quando jogador, quase fazia parecer, tal a forma vermelha com que ficava com o esforço, que jogava com um cachecol amarrado ao pescoço.