HISTÓRIA: Mister McCrum e a invenção do penalty.

26 de Janeiro de 2005
MISTER MCCRUM, O EMPRESÁRIO TÉXTIL QUE INVENTOU O PENALTY.
Recuemos até finais do Século XIX. O cenário, a pacata cidadezinha de Milford, na Irlanda profunda. O principal protagonista, Robert Garmant McCrum. O tema: a secreta história da introdução do penalty nas regras do «foot-ball». Embarque, pois, numa máquina do tempo e viaje até ao passado...
Milford é uma pequena e pacata vila da Irlanda do Norte, na província de Armagh. Apesar da natureza imaculada que a rodeia ainda nos nossos dias, poucas pessoas, perto de um milhar, habitam hoje as suas velhas casas de pedra, palacetes de traço italiano e belas moradias vitorianas, todas construídas, em tempos remotos, pelos seus antecessores. Entre eles, nessa distante era de prosperidade, em finais do Séc.XIX, estava a família McCrum, muito respeitada, sobretudo pelo facto do seu patriarca, Robert Garmant McCrum, ser um próspero empresário têxtil, dono da fábrica que suportava toda a vila, e, sobretudo, chefe de polícia, o High Sheriff, de toda a província, muito empenhado a dar a melhor educação aos seus filhos. Nesse sentido, quando chegou a idade adulta, matriculou um deles, William, no reputado Trinity College, Universidade de Dubin. Muito responsável e estudioso, William McCrum distinguiu-se como um dos mais eruditos da sua classe. De regresso a Milford, foi trabalhar para a fábrica da família, a McCrum, Watson e Merver company.
Dentro de si trazia, no entanto, também a paixão por um moderno elitista jogo, o foot-ball, inventado noutra universidade, Cambridge, na Inglaterra. Nesse sentido, passou a jogar no clube da terra, como guarda-redes do Milford Football Club, um dos mais velhos emblemas da Irlanda. Foi por sua iniciativa que, em 1887, passou a disputar-se a Taça dos Clubes do Mid-Ulster. Muito educado, um verdadeiro gentleman, em todas as suas conversas e actuações em campo, revelava-se um modelo de fair-play. Por isso, demonstrava-se cada vez mais preocupado com a infracções ás regras do jogo que se assistia cada vez mais, sobretudo quando alguém se preparava para marcar um golo e era derrubado. Nesses casos, era marcada uma simples falta. Para melhor entendermos a confusão que se podia gerar nessas situações, rezam os registos, que no último minuto dos quarts-de-final da Taça de Inglaterra, em 1889, entre o Stoke City e o Notts County, com o marcador em 1-0, Hendry, jogador do Notts defendeu com a mão, quase sobre a linha de baliza, um remate que ia dar o golo do empate. Como castigo foi marcada uma falta a centimetros da linha de golo. Toda a equipa do Notts se perfilou na baliza, com o guarda-redes, de pé, imóvel, como uma parede, em frente á bola que, claro, quando rematada, foi contra ele e, depois, chutada para longe. Pouco depois era o apito final. O Notts County ganhava a FA Cup. 1-0. Para um cavalheiro do football como Wiliam McCrum tal situação era intolerável.

The Holm, o campo junto ao rio onde nasceu o penalty

Nesse sentido, pensou numa nova regra, que junto de outro pensador dos regulamentos, Jack Reid, seu amigo, director-geral da Federação Irlandesa e também seu antigo jogador internacional, propôs, em 1890, ao International Board, fundado pouco tempo antes, em 1886. Em tradução livre, ela dispunha: sempre que se derrubar, agarrar ou deliberadamente jogar a bola com a mão, será marcado um livre directo (até essa data só existiam livres indirectos). Se tal ocorrer a uma distância de 12 metros da baliza será ordenado um penalty. Com esse fim, desenhou-se uma área de demarcação, a chamada zona de penalty (não existiam nesse tempo a grande área dos nossos dias), que se estendia desde a linha de fundo, com a baliza no meio, fazendo um semi circulo com uma distância equidistante de 12 metros da linha de golo. O remate podia ser executado, sem oposição, de qualquer ponto dessa linha e o guarda-redes podia mover-se até aos 6 metros. Só em 1902 a grande área adquiriria o desenho que hoje conhecemos, com a respectiva marca de penalty. Após uma primeira rejeição, por ter como subjacente a falta de correcção dos futebolistas, algo impensável se praticado pelos gentlemans que o inventaram que nunca dariam um pontapé noutro só por ele ir marcar um golo, a “moção irlandesa”, como ficou conhecida, acabou por ser aprovada e introduzida nas leis oficiais do foot-ball em 2 de Junho de 1891. Durante o ano que mediou entre a sua recusa inicial até á data da aprovação, disputou-se, porém, na época de 1890/91, o primeiro campeonato irlandês da história, no qual participou o Milford Everton. O seu guarda redes, nessa pioneira edição, foi William McCrum. O clube perdeu todos os jogos e terminou em último lugar da classificação, com um gol-average de 10 golos marcados e 62 sofridos. Apesar destas copiosas derrotas, o seu campo de jogos, o The Holm, ficou famoso, sendo propriedade da família McCrum, por nele se ter inventado e marcado, ainda em fase experimental, o primeiro penalty da história do futebol mundial.

Milford, 2005: cidade fantasma

Esse terreno e campo de jogos ainda hoje existe, embora esteja desactivado para a prática do foot-ball. Nos últimos anos, coreu mesmo perigo de ser destruído e passar a ser propriedade de uma imobiliária que viu no local um paraíso cercado pela natureza, ideal para, talvez, construir um hotel. Com efeito o The Holm, situado nas traseiras da mansão McCrum, um palacete de inspiração arquitectónica italiana típica do Sec.XIX, era um campo invulgar. Apenas tinha uma pequena bancada, onde estava a única entrada e na qual não cabiam mais de 200 pessoas. As outras três margens do campo eram rodeadas por um rio. Hoje, a casa, que nos últimos anos, com a desertificação da cidade e o desaparecimento da dinastia McCrum, acabou por ser utilizada como centro de saúde, repousa abandonada há mais de uma década, apresentando um aspecto fantasmagórico. William McCrum morreu em 1932, após longa doença. Com o tempo, as raízes familiares foram-se perdendo nas brumas do passado até as propriedades e memórias caírem no esquecimento. Foi então que um pequeno grupo de resistentes habitantes ou amigos da vila formou uma associação para defender a história de Milford. Entre as suas lutas, está, claro, o objectivo de preservar o campo perto do rio onde se inventou o penalty. Apesar da maioria das ruas e suas velhas casas permanecerem quase todas abandonadas, a biblioteca e a escola encerradas com o passar do tempo, e a velha fábrica com a sua patriarcal chaminé demolida, habitadas hoje só pelos fantasmas do passado, os últimos habitantes de Milford continuam orgulhosos da sua terra e história, outrora próspera, das primeiras a ter luz eléctrica em toda a Irlanda. O Clube, Milford Everton FC ainda hoje existe, depois de ter sido refundado em 1964, está nas divisões regionais, mas já não joga nos terrenos da cidade, tendo-se mudado, em 1994, para um novo campo, perto da capital do distrito Armagh, o pequeno New Holm Park, construído por um grupo de amigos, o Armagh Boys Club, com o apoio do Conselho Distrital da região.

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