Homens temporariamente sós

23 de Novembro de 2011 09:33
Perceber a posição do treinador, vendo os olhares que se trocam entre jogadores e banco durante o jogo

Um relvado, quatro linhas. Knock, knock! Está alguém ai? O futebol necessita de habitantes reais. O onze do FC Porto, após várias exibições revelando um electrocardiograma de jogo preocupante, desintegrou-se em Coimbra. Ninguém atendeu quando, durante longos 90 minutos, bateram às suas portas tácticas, técnicas e emocionais. Sucede, porém, que em campo estavam jogadores que sabem fazer da bola o que querem. Sucede que no banco estava um treinador que tentou mexer na equipa. Quando o fez, porém, essa alteração voltou-se para eles próprios (equipa e treinador) como um boomerang. O bom futebol ofensivo não se faz na proporção do número de avançados, mas sim da quantidade de equilíbrios tácticos (de construção e definição de jogo) que uma equipa é capaz de fazer em campo.
 
O futebol azul-e-branco caiu numa encruzilhada. Quando ouço, porém, falar que um treinador depende do resultado do próximo jogo para continuar ou não, sinto sempre que todo o processo de avaliação da sua competência está adulterado. Nenhum treinador pode depender do resultado de um jogo. Ele depende de todos os sinais, provas e testemunhos que, num processo de crescimento gradual desde a pré-época, o seu nível de jogo evidencia, alicerçado nas decisões tácticas e relações com os jogadores, empatia e cumplicidade capaz de entrar nas suas cabeças. É neste ponto que o caso-Vitor Pereira no actual futebol do FC Porto deve ser enquadrado.
 
Para além das discutíveis opções tácticas, outra forma de perceber hoje a posição do treinador do FC Porto é ver os olhares que se trocam entre os jogadores e o banco durante um jogo (sobretudo nos momentos mais difíceis). Quando essa comunicação falha, a equipa deixa de existir com «E» grande. O treinador é, por definição sócio-futebolistica, um homem só. Ou, por vezes, «temporariamente só». A equipa, essa, os jogadores, são, nestes momentos, um colectivo sem rosto. Injusto.  
 
No resto, o relvado e a dúvida mais estranha: Varela ou James? Questão demasiado simples para a complexidade do actual problema-FC Porto. James dá ao jogo uma variedade de soluções (técnica, um-para-um, na ala ou no centro a entrar detrás) que Varela (mais extremo de 4x3x3 tradicional) não dá. O actual FC Porto, com Beluschi a perder a bola tão facilmente e Moutinho com os motores em rotação baixa, necessita de James quase como Vítor Pereira necessita hoje dele como único «plano de fuga» individual credível, se a avaliação da sua competência for mesmo feita na tal crueldade de apenas um jogo. Dificilmente, porém, deixará de ser um homem «temporariamente só» como na música dos GNR, letra estendida para «que cabeças no ar» (mais que uma equipa, onze jogadores e uma bola) e finda com «homens sempre sós nunca conseguem casar».
 
Vítor Pereira em Dontesk: fugir a essa solidão e voltar a ter companhia no mundo azul-branco. A «competência» em jogo num…só jogo. Knock, knock!  
 

 

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