A importância de um(a) "central"

5 de Julho de 2011 09:56
Helena Costa no MUNDIAL. Jogo entre percepção e acção. Noruega: O desafio defensivo à construção

SATELITE DE FUTEBOL - HELENA COSTA

FIFA WOMENS`S WORLD CHAMPIONSHIP 2011   (5)

No Planeta do Futebol, a visão do satélite de futebol Helena Costa sobre o Mundial feminino 2011, na Alemanha. Equipas, atmosferas, estrelas e ideias. O futebol feminino na sua máxima expressão, o Mundial, visto a partir de várias dimensões.  

 

 

IMPORTÂNCIA DE UM(A) CENTRAL

 
O jogo Noruega x Guiné Equatorial antevia-se com uma luta desigual, uma espécie de David contra Golias: uma potencia mundial, com currículo e vencedora; uma Guiné inexperiente, a participar num Mundial pela primeira vez.
 
Dadas as tendências evolutivas do Futebol (não só no Feminino), a estratégia defensiva da Guiné surpreendeu por ser no actual calendário táctico um pouco “retro”: a equipa marcou individualmente as jogadoras nórdicas, tendo inclusivamente jogado com libero.
 
O facto de uma equipa depender da movimentação da equipa opositora para se posicionar e organizar (ou desorganizar?) defensivamente, atribui ao acaso e à criatividade individual todo o protagonismo quando se recupera a posse da bola.
 
A Noruega, jogando em 1:4:4:2, procurou sempre construir o jogo a partir da sua linha defensiva: bola na guarda-redes, duas centrais abertas para receber, laterais junto à linha e em maior profundidade. Até aqui, o posicionamento habitual de uma equipa que procura sucesso num primeiro momento de organização.
 
No entanto, as quatro médias posicionaram-se (sempre) nesse momento junto às avançadas. Numa lógica de ocupação racional de espaço, a pivot (ou em alternância, uma outra média) deve surgir como a primeira solução de um meio-campo, sendo uma das mais viáveis soluções para a construção de um jogo apoiado, “curto”, rendilhado e pensado. O seu posicionamento nesse instante precavê também o equilíbrio defensivo, preparando a equipa para o momento de transição defensiva.
 
Poderia (e deveria) este detalhe ter sido estratégico, dadas as marcações individuais a que foram sujeitas. Uma forma de se deslocar (em profundidade defensiva) para receber, ou não sendo isso possível, alguém receber a bola no espaço por si libertado. Mas não! Assistiu-se a uma total apatia táctica e de falta de criatividade, pois um movimento também é ou pode ser criativo.
 
Futebol é uma constante garantia entre percepção e acção: nem nada é fruto do acaso, nem tudo é pré-estabelecido. A possibilidade determina o jogo, a habilidade marca o instante!
 
A missão do treino e do(a) treinado(a) é essa: alertar o/a Jogador(a) para as possibilidades (cenários possíveis), promovê-las e recriá-las em treino e incentivar ao cunho pessoal e à habilidade (treinável) que marcam instantes, momentos, histórias...a História do Futebol!
 
Um(a) defesa central que apenas destrói e impossibilita o jogo adversário é uma referência do passado, um conceito longínquo enterrado com a História e com a evolução do Futebol. Nesta lógica, as centrais norueguesas, únicas jogadoras não pressionadas e momentaneamente sem soluções, deveriam ter sido capazes de progredir com bola, assumindo com segurança o primeiro momento de organização ofensiva.
  
Um(a) bom/boa central é actualmente um(a) jogador(a) mais completa. A sua primeira missão é garantir eficiência e eficácia defensivas, sendo a que deve assegurar sempre. Mas será um(a) central incompleta, ou menos completa, se não for seguro(a) a construir jogo. 
 
Ao progredir com bola, alguma jogadora guineense haveria de a pressionar, desequilíbrios seriam criados, uma ou mais jogadoras ficariam por instantes “disponíveis” para receber, e caso isso não sucedesse (o que seria inesperado), a progressão para a baliza deveria continuar.
 
O cenário táctico “fala” por si e por isso o processo de treino não deve ser mais do que a aprendizagem desse “dialecto”. Duas pessoas, com dois dialectos diferentes não comunicam de forma perfeita. No Futebol acontece o mesmo, para uma boa comunicação nada melhor do que uma “linguagem comum”. Um(a) treinador (a) é um(a) professor(a); o treino corresponde às aulas; a percepção, às letras; a decisão, às palavras; os jogos, aos exames finais! Só assim David ganhará a Golias! Só assim a possibilidade determina o jogo e os momentos marcarão a História!
 
Helena Costa, Alemanha, 2011

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