INTER: Mancini e as chaves do 4x4x2

22 de Fevereiro de 2005
É, á 25ªjornada, a única equipa sem derrotas do Campeonato italiano, mas, paradoxalmente, já está a 11 pontos do primeiro lugar. Em 25 jogos, ganhou nove e empatou dezasseis. Tem o melhor ataque (47 golos), mas durante muito tempo, teve das piores defesas. Só sofreu, no entanto, oito golos nos últimos doze jogos. Os grandes dilemas moram, porém, no meio campo, onde alterna entre o clássico e o rombo.
Preso a várias contradições táctico-técnicas, o actual Inter de Mancini é ainda uma equipa que, apesar de não ter perdido um jogo, carece de consistência colectiva entre-linhas. A falta de mecanização emerge, desde logo, da ausência de um onze base, sobretudo a meio campo, com constantes alterações. Embora tacticamente as diferentes versões do 4x4x2 não representem, na prática, grandes alterações de posicionamento, a falta de extremos e de um médio centro criativo impede o desenvolvimento eficaz do sistema na sua pleinitude. A construção deste Inter de Mancini já passou por diferentes fases. Em termos tácticos, parte sempre do 4x4x2 e suas variantes. O grande problema reside, essencialmente, no desenho do meio campo, o sector onde moram os principais dilemas existenciais do onze, no qual se sente, claramente, um déficit de criatividade em contraste com a, digamos, linha dura protagonizada por jogadores como Verón, Davids, C. Zanetti ou Cambiasso, responsáveis pela maior dimensão física do jogo do onze. Neste sentido, o sector pode adquirir vários designs, entre o 4x3x2x1, com três médios de contenção e dois alas, e as diferentes versões do 4x4x2, em linha ou desenhando o losango, com rombo, em 4x1x2x1x2, inserindo, nestes dois casos, um trequartista, o tal segundo avançado que joga nas costas dos pontas de lança.

As adaptações á esquerda

No inicio, tentou fazer coexistir Veron e Davids, mas, por serem jogadores que pisam as mesmas zonas, o sistema nunca ganhou, nessa combinação, a dinâmica atacante adequada, ficando, ao mesmo tempo, desde logo, evidente a principal lacuna do meio campo neroazzurro: o lado esquerdo, onde durante quase toda a época, face á lesão de Kily Gonzalez, não existiu um médio ala esquerdo de origem, pelo que Mancini teve, sucessivamente de fazer adaptações. Depois das experiências com Davids, Emre e Verón, o eleito foi Stankovic, destro, um jogador que rende muito mais no centro ou na direita, incapaz de incutir grande profundidade ao sector, revelando sempre tendência para flectir no terreno á medida que se aproxima da área. Esta lacuna de profundidade na faixa esquerda ficou ainda clara mais pela lesão e quebra de forma dos laterais desse sector, Coco e Favali, este um jogador pouco ofensivo, o que motivou, em alguns jogos, a adaptação do lateral direito Zanetti á esquerda, surgindo, nesse caso, o recuo do médio Zé Maria para lateral direito. Com estas duas adaptações, o onze fica quase com um rosto contra-natura, e nunca encontra a mecanização ou a dinâmica de jogo certa pelos flancos, zona chave para o desenvolvimento do clássico 4x4x2 que, por definição, exige alas de raiz. O regresso de Kiliy, nos últimos dois jogos, deu, digamos, um rosto mais natural á dinâmica de jogo pela ala esquerda, mas com o argentino muito longe da sua melhor forma, a crise estrutural permanece. Á direita, o dono natural do lugar é Van der Meyde, que após uma época irregular, inadaptado ás marcações do Calcio em contraste com os espaços holandeses, está um jogador renovado. Precisa, no entanto, de ser bem servido.

O «puzzle» do meio campo

A incapacidade em fazer coexistir Veron-Davids estaria na base da transformação do modelo de jogo, passando do 4x4x2 mais clássico (com a linha Van der Meyde-Davids-Veron-Stankovic) para o 4x4x2 em rombo, desenhando o losango a meio campo. A primeira experiência neste modelo surgiu na Liga dos Campeões, contra o Anderlecht, em Bruxelas, com Cambiasso no vértice recuado como trinco-pivot, Veron sobre a direita e Stankovic na esquerda. No vértice ofensivo, fazendo o rombo como trequartista atrás dos avançados, surgiu Emre. Neste modelo o meio campo revelou uma ocupação mais racional dos espaços, a defender e a atacar, e, desde essas data, passou a ser a variante de referência de Mancini, elegendo Cambiasso como o pêndulo táctica e tecnicamente mais equilibrado para jogar sozinho á frente da defesa, pois Veron sobe muito no terreno e Davids, na ânsia de fazer o pressing alto, descompensa muitas vezes a equipa, sem bola, nesse sector. Foi neste sistema (embora com Stankovic á direita e Veron á esquerda) que fez ganhou em Valência por 5-1.

A variante 4x1x3x2

Dentro do mesmo sistema, outra opção baseia-se no 4x1x3x2, testada frente á Udinese, só com um trinco puro (Cambiaso) e três homens com rosto ofensivo de perfil na segunda linha do meio campo (Sankovic, á direita, Kily Gonzalez, á esquerda, e Veron no centro). Nesta dinâmica, Verón revela um papel crucial na distribuição, assumindo-se como uma espécie de box to box atípico, pois em vez de partir da frente da defesa, parte do centro do terreno, para depois subir e descer gerindo o jogo. Nesta encruzilhada perde-se, ainda, o talento de Recoba, que poderia jogar no vértice ofensivo do rombo, ou adaptado á esquerda (como fazia com Cuper). Para colmatar a falta de um clássico médio nº10 organizador de jogo, Stankovic flecte muitas vezes da esquerda para o centro, lugar onde Recoba, que, em rigor, não é um médio clássico nem um avançado puro, poderia encaixar como um trequartista, ora de organização, ora como rompedor, entrando de trás nas costas dos avançados. Mancini não lhe reconhece, no entanto, rigor táctoico-defensivo para fazer esse lugar.

A opção 4x3x3

Com o sucesso do 4x4x2 comprometido pela falta de médios ala capazes de dar profundidade de jogo pelas faixas, Mancini tentou, a certo ponto, lançar o 4x3x3. O primeira experiência surgiu contra a Fiorentina, fora, embora adiantando um flanqueador, Van der Meyde, na direita do ataque. A má exibição comprometeu, desde logo, esta opção. Assim, o 4x3x3 só surge como solução de recurso no curso do jogo, quando este já está, digamos, tacticamente partido, apesar da tentação que é combinar, no ataque, desde o inicio, um tridente ofensivo (Martins-Vieri-Adriano). Foi neste esquema que conseguiu, por exemplo, a fabulosa reviravolta, de 0-2 para 3-2 em sete minutos, frente á Sampdoria, após começar no 4x4x2 em rombo. Neste caso, saindo C.Zanetti para entrar Marins, passando Stankovic-Cambiasso-Veron formaram a linha de três médios.

A DEFESA E O ATAQUE

Olhando o frio registo dos números, um dos aspectos mais intrigantes deste Inter de Mancini reside no elevado numero de golos sofridos (30). Nos últimos jogos, porém, o sector revela maior consistência e sentido posicional. Só sofreu oito golos nos últimos doze jogos. Após um longo período de alternância, testando várias duplas de centrais (Burdisso, Mihiaijlovic, Gamarra) fixou-se como titular um quarteto com Zanetti, lateral direito, Favalli, lateral esquerdo, e, no eixo, Materazzi-Cordoba, uma dupla de centrais mecanizada, enquanto sai na antecipação, outro fica na dobra. Nesta sociedade, Materazzi destaca-se mais em acções de marcação, exímio no jogo aéreo, enquanto Cordoba, muito rápido e forte no takle, surge na cobertura. Com Mihiaijlovic, ganha-se um exímio marcador de livres, mas o sector fica muito mais lento. No ataque, o principal foco de debate, já nascido na era de Zacheronni, reside na pretensa incompatibilidade Vieri-Adriano, considerados jogadores demasiado semelhantes para poderem jogar juntos. Embora continua oportuno e muito inteligente nas movimentações, Vieri perdeu a velocidade e agilidade de outrora. Nesta perspectiva, a melhor dupla seria, talvez, Adriano, mais de área, força e técnica (embora tenha de melhorar o pé direito para ser um doa melhores avançados do mundo) e Martins, fugindo pelos flancos, velocidade e leveza.

Modelos para o meio campo-ataque

1. Opção 4x4x2 (losango)

2. Opção 4x1x3x2

3. Opção 4x4x2 (com dois trincos)

4. Opção 4x3x1x2

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • NOTAS 2011/12 (31) NOTAS 2011/12 (31) 1 de Março de 2012 1. Nelson Oliveira: será `9` de 4x3x3?; 2. Braga muda meio-campo; 3. Feirense: a defesa sem...médios;
  • Chelsea: As fronteiras da táctica Chelsea: As fronteiras da táctica 26 de Fevereiro de 2012 De Mata a David Luiz: Jogar bem nas zonas erradas ou o caso do defesa que pensa como um avançado!