INTER: O «caranguejo» de Mancini

3 de Dezembro de 2004
O CASO-INTER: AINDA NÃO PERDEU, MAS JÁ ESTÁ A 15 PONTOS DO PRIMEIRO LUGAR.
É, á 13ªjornada, a única equipa sem derrotas do Campeonato italiano, mas, paradoxalmente, já está a 15 pontos do primeiro lugar. Em 13 jogos, ganhou dois e empatou 11. Tem o melhor ataque (25 golos) e a pior defesa (22). Um mundo de contradições que submerge o actual onze de Mancini.
É, porém, no meio campo, que mora a chave para a transformação do modelo de jogo, entre o 4x3x2x1, com três médios centro e dois alas, e o 4x4x2, em linha ou com rombo, versão 4x3x1x2. Para a eficácia destas variações tácticas, Mancini depara-se, porém, com um problema de base: as características dos médios, quase todos centrais, e a falta de alas flanqueadores, agravada com as lesões de Kily Gonzalez e Coco. Para ocupar o centro, dispõe de um núcleo duro (Davids, Cambiasso, Véron, Stankovic), mas nas alas, têm de fazer adaptações. O único verdadeiro ala apto é Van der Meyde, á direita, onde combina com o lateral Zanetti. Á esquerda, é o vazio em todo o corredor, surgindo as adaptações de Stankovic, Verón ou Davids aos flancos, solução que retira profundidade ao 4x4x2, pois nenhum deles é jogador de faixa. Neste contexto, a melhor solução, já testada, com grande sucesso, em Valência (vitória 5-1) seria o 4x3x1x2 em rombo, com a linha recuada do triângulo composta por Stankovic, á direita, Cambiasso no meio, e Veron (ou Davids), á esquerda, ficando Emre a fazer o rombo atrás dos avançados. Nesta encruzilhada perde-se, ainda, o talento de Recoba, que poderia jogar no vértice ofensivo do rombo, ou adaptado á esquerda (como fazia com Cuper), enquanto Verón insiste em demonstrar que o seu lugar é no centro, como box to box que, em vez de partir da frente da defesa, parte do grande circulo, terreno pisado sobretudo por Stankovic como forma de colmatar a falta de um clássico médio nº10 organizador de jogo.
No inicio da época, mais do que apostar no Inter como grande candidato ao titulo, esperava-se, sobretudo, que, com Mancini, resgata-se o principio do bom futebol. 18 jogos depois (em Itália e na Europa), a equipa tornou-se no grande case study da época. As razões para a debilidade táctico-colectiva atravessam os três sectores, mas, em termos de modelo de jogo, situam-se, sobretudo, no meio-campo. Na defesa, sempre a «4», sente-se a falta de um lateral esquerdo de classe e os centrais, tirando Córdoba, são lentos (Mihajlovic) e faltosos (Materazzi). Esquematizada á zona, sofre muito quando apanhada em contra-ataque, onde revela graves erros de dinâmica posicional, como sucedeu, esta semana, no segundo golo da Juventus, onde central e lateral foram, ao mesmo tempo, fechar no flanco, abrindo uma cratera no corredor central, num momento em que todo o sector, sem ordem, já descurara um dos princípios básicos da zona segundo a qual quando uma defesa assim esquematizada corre toda para a sua baliza em recuperação, é uma defesa morta. No ataque, emerge o debate sobre a complementaridade Adriano-Vieri, dois jogadores demasiado iguais. Nesta perspectiva, a melhor dupla seria, talvez, Adriano, mais de área, força e técnica, e Martins, fugindo pelos flancos, velocidade e leveza.

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • NOTAS INTERNACIONAIS (21) NOTAS INTERNACIONAIS (21) 17 de Fevereiro de 2012 1. Javi Martinez, sinal de bom futebol; 2. O `mapa dos flancos`; 3. Os pivots (in)ofensivos; 3. O...
  • O lugar das "boas ideias" O lugar das `boas ideias` 28 de Janeiro de 2012 Nascer craque é fácil. Difícil é sê-lo. Em que tipo de jogador se está a transformar Gareth Bale?