O monstro de Roberto Mancini começa a ganhar forma de grande equipa. Conserva a carapaça cínica das tradicionais squadras italianas mas o seu bloco ganha cada vez maior solidez, capaz de, para além da obrigatória conquista do Scudetto (na relva, não na secretaria) fazer com a Champions. No campeonato, dez vitórias consecutivas.
Entre o 4x4x2 e o 4x3x1x2, apenas varia a estrutura do «4» do meio-campo. Ora joga com dois alas, ora, como é hoje o sistema preferencial, escala um triplo-pivot defensivo que é a uma espécie de casa das máquinas do onze. Nele moram Vieira, descaído sobre a direita, Cambiasso, no centro ou na esquerda, e Zanetti, que, numa reciclagem táctica surpreendente, passou de lateral-direito para interior-esquerdo. Outra opção, é jogar Dacourt, no centro, ficando então Cambiasso mais preso na marcação.
Neste sistema, Figo, colocado no centro da segunda linha, como trequartista, sente maior dificuldade em encaixar na dinâmica exigida, longe das rotinas de faixa onde o seu jogo de simulação e cruzamento se sente claramente mais confortável. Com a profundidade de jogo pelos flancos dependendo essencialmente da subida dos laterais (sobretudo na direita, com Maicon) é Stankovic que se assume como o elo de ligação criativo com a dupla atacante Crespo-Ibrahimovic, dois pontas-de-lança de passada larga, exímios a jogar no chamado limite do fora-de-jogo.
Adriano parece um caso mais de contornos psiquiátricos do que futebolísticos. É um monstro físico com tudo, técnica e força, para ser um dos melhores pontas-de-lança do mundo, mas, desde há um ano e meio, o seu futebol explosivo mergulhou numa crise existencial da qual não se vislumbra saída. Os seus grandes planos, quando joga ou até quando na berma das quatro linhas se prepara para entrar, mostram um jogador triste, como o olhar escurecido.
O futebol moderno está nas mãos de exércitos tácticos que saibam roubar o jogo ás equipas mais românticas. O Inter de Mancini é, nesse contexto, um onze blindado a esses desequilíbrios.
