ISRAEL: FUTEBOL ÁRABE DE EXPRESSÃO EUROPEIA

14 de Novembro de 2000
Secularmente aprisionado numa encruzilhada história, de contornos religiosos, políticos e territoriais, o futebol israelita viveu sempre por entre dois mundos. Ao longos dos tempos, por força do barril de pólvora que, desde o pós-guerra se tornou toda a região do médio oriente, a mera presença das suas camisolas com a estrela de David ao peito noutros países árabes era um foco de grande tensão capaz de dinamitar os mais profundos ódios latentes entre toda a nação árabe.
Assim, a história do seu futebol, divide-se entre dois tempos, e entre dois continentes. O Asiático, onde jogou até fins dos anos 70, e o Europeu, onde se integrou a partir de 1976, após uma diplomática decisão da FIFA, que, incapaz de contornar um problema milenar, optou por retirar o futebol israelita da fogueira árabe e colocá-lo, tranquilamente a jogar com os países europeus.
Esta astuta possibilidade do futebol lidar com o mapa mundo, parece quase paradoxal face á onda de violência que continua a invadir toda aquela região do globo, perante a impotência de todos os organismos internacionais em resolver o problema. A religião judaica remonta a cerca de 2000 AC. Desde a criação, no pós-guerra, do Estado de Israel, em 1948, em territórios outrora na posse de palestinos, nunca mais foi possível vislumbrar a paz naqueles milenares territórios do médio oriente. A região árabe nunca aceitou de forma pacífica uma pátria judaica na Palestina. O futebol coexistiu por entre todo este ambiente e espelhou os ódios milenares que explodiam quando a selecção israelita visitava outras nações exibindo, com orgulho, na camisola, a cruz de David, o segundo Rei israelita que, séculos antes de Cristo, estabeleceu Jerusalem como capital do reino, e onde mais tarde Salomão construiu o primeiro templo. No final do Séc.XX a fogueira da intolerância continua bem acesa e, também no futebol esse sentimento emerge. Os jogos entre o Beitar Jerusalem e o Hapoel Telaviv, por exemplo, sempre foram mais do que simples desafios futebolísticos. O emblema de Jerusalem foi sempre conotado com a extrema direita, enquanto o clube de Telavive teve sempre ligações com os trabalhistas de Ehud Barak. Esta tensão política e religiosa voltou a ferver no inicio desta época, acompanhando a violência que voltou a explodir no território entre israelitas e palestinos, ao ponto de Gavri Levy, presidente da federação israelita de futebol ter ameaçado suspender o Campeonato. Neste cenário de permanente conflito, era impossível a selecção nacional limitar-se apenas a jogar futebol dentro de toda a região árabe.

A EXPRESSÃO ÁRABE DO FUTEBOL ISRAELITA

Enquanto futebolisticamente considerado um país do médio oriente, a equipa nacional israelita distinguiu-se como uma das mais fortes e internacionalmente competitivas do Continente Asiático. A sua maior proeza, foi a presença no Mundial-70, onde chegou após afastar os países da Oceânia, Austrália e Nova Zelândia. Na fase final, no México, com um onze onde eram as grandes figuras, espantou o mundo, empatando com a Itália, 0-0 e a Suécia, 1-1. A derrota com o Uruguai, 2-0, iria ditar a sua eliminação logo na primeira fase, mas para a história ficava um futebol atraente, sem grandes amarras defensivas, capaz de competir entre os grandes, imortalizando Motale Shpigler, como o único jogador israelita a marcar um golo na fase final de um Mundial. Era então, junto com os coreanos, a mais forte selecção do futebol asiático, o qual também representara dois anos antes, em 1968, nos Jogos Olímpicos de, atingindo os ¼ final. Dentro do seu continente, a maior vitória surgiu em 1964 com a conquista da Taça da Ásia, numa edição então disputada nos seus Estádios, apesar dos protestos da maioria dos países árabes. Com o passar dos anos, o futebol ficou cada vez mais hipotecado a esse cenário, até ao ponto de a FIFA futebolisticamente mudar de continente. Assim, a partir das eliminatórias para o Mundial-82, Israel passou a competir no quadro europeu. Uma das suas primeiras grandes vitórias foi, em 1981, contra Portugal, 4-1. Os seus clubes, onde se destaca o Maccabi, o Hapoel e o Beitar, passaram também a disputar as competições europeias.

RICHARD MOLLER NIELSEN: O ESTILO ISRAELITA

Mesmo quando inserido no quadro competitivo asiático, o estilo do futebol israelita adquiriu sempre mais contornos europeus. É um estilo de toque curto, apoiado e que privilegia a circulação de bola em curtos espaços de terreno. Revela, no entanto, ainda uma grande ingenuidade táctica, sobretudo a nível defensivo. Estes factores ficaram sempre presentes nas exibições ao longo dos anos 90, quando aos poucos, depois do choque inicial, Israel foi-se tornando mais competitivo. Nunca apresentado um sistema demasiado fechado, ao contrário da maioria das equipas teoricamente mais fracas, e com os seus jogadores tecnicamente dotados, proporcionou excelentes espectáculos de futebol, que lhe valeram, em alguns casos, resultados surpreendentes, como foi o caso, em 1994, da vitória frente á França, no Parque dos Príncipes, 3-2, afastando a selecção gaulesa do Mundial dos EUA. Depois, inserido no apuramento para o Euro-2000, venceu a Bulgária e a Polónia, ambas por 2-1. Em 1999, chega ao play-off de apuramento para o Euro-2000, mas, sem rigor táctico, é goleado, em ambos os jogos, pela Dinamarca. Os responsáveis pelo futebol israelita sentiram então que, face ao crescente talento dos jogadores, era urgente trabalhar o conjunto a nível técnico e táctico. Foi nesse contexto, que, este ano, decidiu contrastar o experiente técnico dinamarquês campeão da Europa em 1992, Richard Moller Nielsen, que substituiu no comando da selecção israelita o carismático Shlomo Sharf, antigo técnico do Maccabi Haifa, onde conquistara três campeonatos, e que estava, junto do seu fiel adjunto Izzhak Shom, no banco nacional desde 1992. As primeiras palavras de Moller Nielsen foram de elogio para o trabalho de base feito pelos seus antecessores, mas desde logo sentiu que tinha um longo e árduo trabalho táctico pela frente para colocar Israel entre as fortes selecções europeias. As vitórias sobre a Rússia (4-1 num particular) e Bósnia (3-1 para o Mundial2002), para além da boa exibição frente á Espanha (derrota, 1-2) indicam que está no bom caminho.

ESTRELAS INTERNACIONAIS: DE ROSENTHAL A REVIVO

No presente, Haim Revivo é o jogador israelita mais credenciado internacionalmente. O seu futebol veloz, virtuoso e directo á baliza, levou a que, em 1996, fosse contratado ao Macabi Haifa, pelo Celta de Vigo. No futebol espanhol, após um primeiro ano de adaptação, cativou toda a afición galega. No sistema do Celta de Victor Fernandez, ele era um típico segundo ponta de lança, o homem que entra de trás, em drible, a rasgar as defesas adversárias. É nessa posição que Revivo se sente melhor. Quando se falava que podia saltar para Madrid ou Barcelona, acabou por, no inicio desta época, rumar ao emergente futebol turco, assinando pelo Fenerbache. Mas, o jogador israelita mais famoso do futebol mundial foi o faíscante Rony Rosental, que, após ter saído da nação árabe, jogou na Bélgica, no Standard de Liege e no Brugge, ingressou, em 1990, no Liverpool e fez carreira no futebol inglês. Em Anfield Road venceu uma Liga, 90/91 e tornou-se uma grande figura da equipa. Seguiu-se o Tottenham e o Watford, onde aconselhou a contratação do médio criativo Alon Hazan, uma jovem promessa israelita, mas que, ao contrário do carismático Rosenthal , no entanto não se adaptou ao kick and rush, chuta e corre, britânico e regressou a Israel, onde joga hoje no Ashod SC. Rosenthal era uma força da natureza. Possante, combinava a condição atlética com a técnica e tinha um potente remate. Nos últimos meses na Velha Albion, jogou no Huddersfield, até que, em 1999, retirou-se, com 37 anos, tornando-se agente de jogadores.

BERKOVICH E A BASE DO MACCABI HAIFA

Nas últimas épocas, outros jogadores israelitas que se destacaram fora da nação árabe, foi o médio criativo Avi Nimni, que passou pelo At. Madrid e Derby Conty, mas que nunca se adaptou ao estilo europeu e regressou ao Maccabi, enquanto no Everton, joga desde há um mês, após conseguir o workpermit, Petah Tikva, ex- Maccabi, uma aposta do técnico Walter Smith. A base do onze nacional que Richard Moler Nielsn está a construir encontra-se a jogar no futebol israelita, sobretudo no Maccabi Haifa, o crónico campeão, onde jogam o guarda redes Dadidovich, os defesas Keisi, Shelah e Benado, o médio Idan Tal e Benayoun, e o avançado Yaniv Katan, ao lado de Alon Mizrahi jogador do Beitar Jerusalem., mas as duas grandes estrelas jogam no futebol europeu: Revivo e o playmaker da equipa, Eyal Bercovich que abandonou o Macabi em 96 para ingressar no Southampton, onde jogou durante época e meia, até assinar pelo West Ham. Em Londres, a sua grande visão de jogo, com assistências mortais para os ponta de lança Hartson e Kitson, tornaram-se uma referência de qualidade. Muito pretendido, acabou por assinar pelo Celtic Glasgow, onde após a euforia inicial, arrasta agora um diferendo com a direcção e o técnico Martin O`Neill, que lhe vem custando a titularidade nos últimos jogos. Apesar disso, Moler Nielsen continua a apostar no seu talento e experiência internacional, mas para Berkovich, esta é uma das últimas oportunidades para assegurar um bom contrato para o seu final de carreira.

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