A ciência ou a relva. De um lado, o cientista Mourinho. Do outro, os empíricos Ferrara e Leonardo. Inter, Juventus e Milan vivem em mundos opostos, mas o ponto táctico mais interessante é ver as diferentes formas de construir os seus projectos de jogo. Estilo discurso e táctica. Embora no primeiro jogo todos tenham, no papel, partido do 4x4x2, em campo, adquiriram diferentes dinâmicas de jogo.
Principal diferença: o Inter não tem um trequiartista. Isto é, um médio ofensivo criativo e organizador que jogue atrás dos avançados. No losango com que iniciou contra o Bari, lançou Stankovic nessa posição. Ao mesmo tempo, a Juventus contra o Chievo, soltou Diego atrás de Amauri e Iaquinta. O Milan puxou Ronaldinho para essa posição, nas costas da dupla Pato-Borrielo. Jogaram porém ambos numa variante diferente, em 4x3x1x2, sem rombo. Na estratégia de Ferrara e Leonardo, nota-se, claramente um trio recuado. Na Juventus, ainda sem Felipe Melo, Poulsen assumiu a posição 6. Desapareceu o duplo-pivot. Essa é a melhor noticia para Tiago que assim regressa à posição onde pode render mais: interior-direito, como fazia no Lyon, ficando Marchisio à esquerda. Na criação pura, Diego cai muito para a direita, pois Amauri é o avançado mais móvel que gosta de cair na esquerda. Nesses instantes até parece um 4x4x2 clássico. Diego respira cada vez melhor.
Penso, no entanto, que a ideia dele criar agora melhor os espaços para se mover nasce de uma ilusão, pois vem quase sempre buscar a bola a zonas muito recuadas onde as marcações adversárias abrandam, pois no Calcio quase todas as equipas ditas pequenas (estilo Chievo) jogam num declarado bloco-baixo com muitos jogadores atrás da linha da bola. O crescimento de Diego, por isso, notou-se mais na forma como quando chegava à zona de pressão entre-linhas, soltava a bola rápido ou escondia-se na direita.
Vendo a limitação criativa do vértice ofensivo, Mourinho mudou a estrutura logo à meia-hora. Desfez o trio de aço (Vieira- Motta-Muntari) que jogava nas costas de Stankovic e, com Balotelli aberto na direita, passou para 4x3x3 que, na segunda parte, com Quaresma na esquerda, virou 4x2x4. A equipa partiu-se na sua fase de construção e desequilibrava-se defensivamente como há muito não se via numa equipa de Mourinho. Falta ao onze um médio forte de transição. Um trequartista que também saiba recuar. Capaz de primeiro organizar e, depois, criar, dentro duma filosofia de jogo onde mais do que extremos devem existir avançados móveis (seja em 4x4x2 ou 4x3x3) para trocar posicionalmente com Milito e, sobretudo, Eto`o, a nova grande referência de ataque
O Milan de Leonardo
Um pato à solta na relva de Siena. A melhor imagem do Milan no arranque do Scudetto. A mobilidade que o avançado brasileiro dá ao ataque é a melhor inspiração para fazer renascer Ronaldinho que neste primeiro jogo apareceu mais metido ao jogo. Mesmo sem bola, não se limitava a esperar por ela e aproximava-se dos colegas para a receber. Depois, destacou-se no passe, jogando quase na posição 10, sem preocupações defensivas, porque atrás, Leonardo (em 4x3x1x2) manteve a fórmula-Ancelotti: três médios de contenção (Gattuso e Flamini em pressão alta e Pirlo, atrás, o farol que inicia a saída de jogo).
Uma questão em aberto: qual o melhor companheiro de Pato para o ataque. Borrielo está longe de ser um craque. Inzaghi é sempre uma opção, mas muitas vezes é Ronaldinho quem surge perto dele. Nessa equação, o lugar de médio-ofensivo poderia abrir-se para Seedorf. A profundidade pelas faixas é dada, preferencialmente, pela subida dos laterais: Zambrotta, na direita. Jankulovski, na esquerda, sempre com as costas protegidas, nas dobras, pelas derivações dos interiores Gatuso e Flamini.
Na defesa pós-Maldini, surgiu, com personalidade, no corte e na saída de bola, o brasileiro Thiago Silva que há anos passou pelo FC Porto, então com uma complicada questão médica. Aos 24 anos, tem tudo para se confirmar como um grande central do futebol europeu.
Génova: bom futebol
Seguindo as várias equipas do Calcio, há um onze (ver quadro ao lado) que merece ser visto com atenção por entre o clássico drama do futebol italiano: o Génova de Gasperini, um treinador com bom futebol na cabeça que monta um 3x4x3 destemido, com agressividade táctica e capacidade criativa no processo ofensivo. A ideia não fica só no papel e, em campo, são mesmo três defesas (Biava-Moretti- Papastathopoulos). De cabeça levantada, iniciam a saída de bola, permitindo aos laterais ir embora para o meio-campo. No centro, um duplo-pivot que joga de área a área: Juric-Zapater.
No ataque, a intenção de jogar pelos flancos traduz-se em procurar a dinâmica de extremos puros. Jogaram Mesto e Sculi, mas, vendo o jogo, pensei 90 minutos em como Quaresma, deprimido e assobiado no Inter, encaixaria neste onze como uma luva. Na posição 9, a permanente visão de baliza de Crespo, enquanto Palácio, que na segunda parte entrou para a ala-direita, um pouco fora da sua posição, ainda busca perceber as teias tácticas que o Calcio tece.
