Após um ciclo muito criticado pela excessiva dimensão física e estagnação táctica do jogo (selecção e clubes) o futebol italiano busca, esta época, desmentir essas «crónicas de morte futebolística anunciada». É o único país que mete três equipas nos oitavos da Champions (Milan, Inter e Nápoles). A nível interno, é, tacticamente, a Liga mais rica. Para perceber esta permanente vocação táctica italiana, refira-se que dos actuais seis primeiros classificados, cinco já experimentaram sistemas de defesa a «3».
Para Udinese e Nápoles é mesmo sistema preferencial. O Inter, com Gasperini, começou nessa estrutura, mas com Ranieri regressou ao 4x4x2. É verdade que, em muitas fases, o sistema passa para cinco defesas com o recuo dos laterais, mas, por princípio, estes têm missão ofensiva pelo flanco (Basta-Armero na Udinese; Maggio-Zuniga no Nápoles). A Juventus de Conte e a Lazio de Reja (surgiu assim contra a Udinese) utilizam esta variante em jogos específicos.
Nesse contexto, surpreendeu ver Conte, depois de boas exibições em 4x4x2 ou 4x3x3 com alas atentos nas transições defensivas, surgir num esquema a «3» contra Nápoles e Udinese. O jogador-chave para transformar o sistema é Estigarribia, que entra para lateral-ala esquerdo, passando Chilleni, defesa-esquerdo na defesa a «4», para terceiro central junto de Bonucci e Barzagli. Na direita, Lichtsteiner fica mais solto para atacar. Varia entre o 3x4x1x2 ou 3x4x2x1, depende de a meio-campo manter o triângulo com Pirlo a 6 e Marchisio-Vidal interiores subidos, ou tirar um médio e jogar com duplo-pivot Pirlo-Marchisio.
Dependendo da opção, surgem três avançados ou dois (na versão três avançados, Pepe-Vucinic nas alas, Matri 9; na versão dois avançados, Pepe e Matri soltos). A equipa verticaliza mais o jogo, mas perde a construção apoiada desde trás que faz a essência de Pirlo. Em qualquer variante, ele é o inicio da construção. Por isso, muitos treinadores marcam-no com o seu trequartista.
Mas onde os princípios de jogo neste sistema estão mais rotinados é na Udinese de Guidolin e no Napoles de Mazzarri. A Udinese tem um meio-campo muito forte com Pinzi atrás e Asamoah-Isla a gerirem avanços-recuos no centro. Já foi, porém, mais forte, quando tinha Inler que foi este ano para o…Nápoles, para jogar na mesma posição e sistema, com Gargano ao lado e Hamsik, médio-segundo avançado, nas costas de Lavezzi-Cavani. É mais um 3x4x1x2, enquanto a Udinesse ora joga em 3x4x1x1 (Com Abdi atrás de Di Natale) ou num 3x5x2 puro (com a dupla atacante Floro Flores-Di Natale).
Pela superior exigência táctica (sobretudo defensiva) em relação a outros, é difícil imaginar este sistema como alternativo. A sua eficácia exige um rigor de aplicação de princípios com tratamento preferencial no treino. Por isso, o sucesso de Udinese e Nápoles em contraste com outras aventuras neste armadilhado mundo táctico dos «três defesas».
O Milan de Allegri
É a única equipa entre os grandes de Itália a nunca experimentar sistemas de três defesas. O Milan de Allegri é um devoto do 4x4x2, versão 4x3x1x2, com um losango assimétrico a meio-campo. Isto é, na prática é um triângulo com um pivot e dois médios mais de contenção (Van Bommel a nº6 e dois descaídos sobre as alas, habitualmente Aquilani e Nocerino) atrás de um médio-centro organizador, trequartista, Boateng ou Seedorf (este que também pode jogar na meia-esquerda, deixando o lugar mais avançado a Boateng).
Na frente, Ibrahimovic e Pato ou Robinho (Pato é, claramente, muito mais jogador) a profundidade pelas alas é dada sobretudo pelos laterais, Abate e Antonini ou Zambrota. É a equipa que cultiva mais posse apoiada. As verticalizações só surgem quando joga Pato, altura em que Ibrahimovic funcionava como avançado de apoios, forte a dar assistências de costas para a baliza para quem entra de trás.
O problema é que nunca se sabe que Ibrahimovic vai aparecer, a querer fazer um jogo «só seu» ou a jogar como a equipa. A permanência constante dos três médios defensivos na transição-organização defensiva asseguram sempre, porém, o equilíbrio da equipa que apenas falha, por vezes, a sair para o ataque, por tornar o jogo demasiado lento, o que aumenta a distância entre-linhas para o ataque. É então que surge Seedorf a uni-los uma corda de classe técnica nas chuteiras.
Cultura de passe curto
Na estatística, a Liga italiana é, entre os maiores Ligas europeias, a que tem, por jogo, melhor precisão de passes certos (percentagem verificada sobretudo no último terço do terreno, com as equipas no momento ofensivo). Tem, também, o maior número de cruzamentos. Penso que esta qualidade do passe tem muito a ver com o ritmo de jogo, estruturalmente lento, e também serem, nesses espaços adiantados, quase todos passes curtos ou médio-longos quando tentam circular a bola perante adversários que fecham com muitos jogadores (no mínimo, sempre 6 ou 7) atrás da linha da bola.
É, porém, também, no entanto, uma questão de cultura de jogo, expressa de forma mais evidente em algumas equipas, como a Roma de Luis Henrique, a principal referência nessa proposta de jogo que, no inicio da época, foi muito contestada. Actualmente, com os princípios assimilados dentro do 4x3x1x2, fixando De Rossi a 6 e Greco-Gago ou Pizarro a apoiarem nos vértices com Pjanic solto atrás da dupla atacante e Lamela-Osvaldo (penso que é este hoje o seu melhor onze actual) é a equipa que melhor faz da técnica a sua…táctica de jogo.