
Em 2000, findo o Europeu de Zoff, a nomeação de Trapattoni para o cargo de seleccionador foi recebida com satisfação por todo o futebol italiano. Era um homem puro, vindo dos tempos em que o romantismo anda fazia sentido no futebol, que iria guiar a lendária Sqaudra azzurra. No seu corpo trazia, no entanto, bem colado a ele, a imagem da velha escola defensivista transalpina, aquela que joga com o frasco de veneno do Cattenacio á cintura e arrepia todos os adversários.
Mas, os tempos mudam e, de inicio, nos primeiros tempos á frente da selecção, Trapattoni surpreendeu ao surgir a jogar com dois pontas de lança, procurando, simultaneamente, fazer coexistir no onze Del Piero e Totti, algo que antes de Zoff não conseguira. Nesse sentido, o seu sistema táctico preferencial foi o 3x4x1x2, variação dinâmica do 3x5x2, (o mesmo sistema, de resto, utilizado na Fiorentina que devolvera, após longos anos, á luta pelo titulo) Assim, de inicio –no particular com a Argentina, por exemplo- colocou no papel de organizador de jogo, um homem que o Euro-2000 consagrara: Fiore, agora mais adiantado no terreno, atrás dos pontas de lança Vieri e Inzaghi. Pura ilusão. Em campo a equipa continua a reger-se por duas rígidas linhas de cobertura defensiva, deixando a missão de criar jogadas ofensivas entregues a um homem, o chamado trequartista, quase sempre Totti, o tipo de jogador que actua entre linhas (meio campo-ataque), espécie de falso avançado, um nº10 reciclado ou, para utilizar a terminologia italiana, o novo rosto do clássico rifinitore, um regista com maior profundidade atacante. Quem sofre com isso, porém, é a capacidade técnica do meio campo.
No Oriente, a carga dramática do Mundial, voltaria a ressuscitar os eternos dilemas tácticos existenciais do futebol italiano, eternamente preso ao debate entre sistema-indvidualidades. Um confronto, historicamente, quase sempre favorável ao segundo, como o podem comprovar, cada qual na sua época, Rivera e Baggio.
Os dilemas do Mundial:
Quatro jogos, três sistemas

A opção preferencial pelo 3x4x1x2 seguiu, no fundo, a mesma linha táctica de Zoff, mas só no papel é que os dois sistemas se identificam. A diferença é feita pelos jogadores e pela dinâmica técnico-táctica que as suas características individuais incutem no sistema em campo. Enquanto que com Zoff os médios defensivos eram Albertini e Fiori, com Trapattoni são Gattuso e Tomassi. Nunca como agora fez sentido resgatar a célebre frase de Fluvio Bernardini que, quando foi seleccionador nos anos 70, afirmara estar o futuro do futebol italiano nos chamados piedi buoni, os artistas que resolvem os jogos.
A questão, no Oriente, girou, essencialmente, em torno de Del Piero. Em quatro jogos, Trapattoni apresentou três esquemas tácticos diferentes: Equador (4x4x2), Croácia (4x4x2); México (3x4x1x2) e Coreia do Sul (4x3x2x1). A equipa revelou melhor mecanização quando desenhada em 4x4x2, mas a verdade é que, apesar de, teoricamente, este ser um esquema fácil de sistematizar, se analisarmos as características dos actuais jogadores italianos, verificamos que ele comporta várias dificuldades de aplicação sobretudo no meio campo, pois tendo em conta que se trata de um 4x4x2 em linha, onde jogarão Totti e Del Piero? Ambos são, por definição, trequartistas. Desta forma, seria forçoso a adaptação de um deles a um flanco. A possibilidade de Del Piero alinhar sobre a direita choca, no entanto, com a sua clara intenção de jogar como avançado. Como ele já disse várias vezes, o lugar onde se sente mais confortável é como avançado puro. Embora na Juventus ele, partindo dessa posição, recue muitas vezes parar criar superioridade numérica a meio campo e, após com esse movimento iludir as marcações, embalar para o ataque, na selecção é difícil utilizar esse esquema, pois nela impera uma vocação essencialmente defensivista, onde as tarefas de marcação obrigam a maior disciplina táctica e controle sobre todas as zonas do terreno.
Com Vieri e Inzaghi indiscutíveis no papel de pontas de lança, Trapattoni vê o seu 4x4x2 tornar-se numa equação táctica difícil de materializar em campo, só possível de funcionar, como os resultados claramente demonstram, frente a adversários mais débeis, como Hungria e Equador, mas ineficaz frente á Croácia ou Argentina, conjuntos mais fortes.
A Itália depois do Mundial

O primeiro jogo da fase de apuramento para o Euro-2004, no Azerbeijão (após derrota em casa com a Eslovénia, em jogo particular, 0-1) confirmou a ideia base dominante sobre os actuais valores individuais do futebol italiano: faltam, no meio campo, jogadores de referência e com nível capaz de acompanhar o talento de avançados como Del Piro, Totti, Vieri e Inzaghi.
No plano táctico, Trapattoni regressou ao 4x4x2, que na prática se transforma em 4x3x1x2, com o adiantamento de Del Piero no apoio á dupla de avançados, Vieri e Inzaghi. É, no meio campo, porém, que o onze sofre em produzir jogo. Com Di Biagio fora de forma, não se compreende a opção de deixar na bancada Doni, o jogador mais criativo ao dispor em face da lesão de Totti. A vitória, por 2-0, surge com um auto-golo e um livre de Del Piero.
Os dois jogos seguintes, sem Vieri (lesionado), na rota para o Euro-2004, contra a Jugoslávia e Gales, foram um verdadeiro acto de sofrimento. Em Nápoles, frente ao onze jugoslavo, na base das opções tácticas esteve um velho principio que, aso longo dos tempos, caracterizou as selecções italianas: seguir as principais tendências do seu Campeonato. Assim, também Trapattoni tentou transpor para a selecção o idolatrado estilo-Milan e, tal como Ancelotti, colocou Pirlo, antigo regista, como médio defensivo, atrás do criativo Doni, que, por sua vez jogava nas costas dos dois avançados, (Inzaghi e Del Piero). No segundo tempo, porém, após o golo da Jugoslávia, Doni seria substituído para dar lugar, com a entrada de Montela, a um claro tridente ofensivo. O empate (1-1) só voltaria a surgir, porém, de novo através de um livre e Del Piero.
O vulcão da polémica em torno de Trapattoni atingira o auge após a derrota (1-2), em Cardiff, com o País de Gales. Em termos tácticos, a equipa volta a apostar no 4x4x2, com Montela no lugar de Inzaghi (lesionado) e surgindo Pirlo mais adiantado nas jogadas de 4x3x1x2.
A equipa sofre muito sobretudo nos lances de contra-ataque, incapaz de travar os velozes raids de Belamy, endiabrado perante uma defesa italiana irreconhecível. Depois de tudo indicar que Tapattoni a iria a tornar mais robusta com a entrada de Adani no lugar do jovem Zauri, decidiu, na hora do jogo, voltar a apostar no mesmo quarteto que jogara frente á Jugoslávia (Panucci, Nesta, Cannavaro e Zauri), sem nunca transmitir a segurança típica das históricas defesas transalpinas. A meio campo, a troca de Gattuso por Di Biagio, com a intenção de segurar e fazer circular a bola, algo imperioso frente a equipas britânicas fieis ao velho kick and rush, acabou por tirar agressividade ao sector, carente de médios ala genuínos, e sempre incapaz de dominar o lutador, mas tacticamente rudimentar, País de Gales de Hughes.
A actual questão táctica:
4x4x2 ou 3x4x1x2?
Neste momento, tacticamente, Trapattoni encontra-se num dilema: 4x4x2 ou 3x4x1x2? Entretanto, a Juventus de Lippi, dá-lhe novas soluções: Zamborta como lateral-esquerdo, um posto onde Zauri nunca convenceu e o seu dono habitual, Coco, continua lesionado. Ao mesmo tempo, o italo-argentino Camoranesi, médio-ala direito, decidiu-se pela nacionalidade italiana. Num ápice, Trapattoni encontra dois homens capazes de preencher os flancos com grande profundidade e sentido posicional, colmatando o que era uma clara lacuna no sistema de jogo italiano, continuando o duo central defensivo bem definido: Pirlo e Di Biagio..
Com a entrada de Zamborta e Camoranesi, o desenho do seu 4x4x2, poderá, no entanto, voltar a fazer chocar, na mesma zona de terreno, Totti e Del Piero. Desta forma, tendo em conta que Vieri é fixo como ponta de lança, para os fazer coexistir, Trapattoni terá de convencer Del Piero a recuar, actuando como um trequartista forçado sobre a faixa esquerda, posto para o qual Del Vecchio também é uma boa opção.
A outra solução seria regressar ao 3x4x1x2, incutindo no onze uma postura mais ofensiva, dando lugar e espaço aos piedi buoni e alinhando um tridente ofensivo com os três melhores marcadores do actual campeonato italiano: Vieri (17 golos), Del Piero (12) e Totti (11). Esta será um opção, porém, só para o próximo jogo de apuramento (contra a Finlândia, em 29 de Março). Para o encontro com Portugal, a lesão de Del Piero parece ter condenado esta alternativa. Observando o actual cenário do Calcio, o único elemento capaz de fazer o lugar de Del Piero como trequartista num sistema de 3x4x1x2, seria o jovem Miccoli, revelação do Perúgia, cuja convocação todo o status do futebol italiano espera que se concretize. Neste momento, no entanto, tudo indica, que Trapattoni, apesar das dúvidas táctico-existenciais, se mantenha fiel ao seu clássico 4x4x2.


AS OPÇÕES TÁCTICAS DE TRAPATONNI