Mas é justo considerar, como dizem os resultados, o futebol italiano como o melhor do mundo da actualidade?
Sim e Não. Ou seja, não é, decididamente, o mais atraente e espectacular, mas, por outro lado, é, indiscutivelmente, o que melhor interpreta as leis que o dominam o presente, onde se impõe a noção do, digamos, futebol compacto, aquele que transforma as equipas num bloco que defende e ataca com a mesma intensidade, subindo e descendo no terreno sem nunca perder a ligação entre sectores. A nuance que faz a diferença na selecção italiana reside na perfeita cultura táctica e superior capacidade técnica dos seus intérpretes.
A sua filosofia de jogo espelha-se, porém, na máscara de cada jogador em campo. A face de Pirlo lembra o sofrimento dos peregrinos nas longas caminhadas. Os cortes de Canavaro são estados de alma, tal como a garra com que Gattuso festeja os golos apertando o pescoço de Marcelo Lippi. A disciplina de Camoranesi e Perrota a ocupar os flancos tem o rigor das mais complicadas equações matemáticas. Zambrotta e Grosso defendem e atacam com a precisão de um relógio. As defesas de Buffon agarram o jogo pelos colarinhos. Totti é o traço de requinte e Toni o ponta-de-lança solitário. Aqui está, em síntese, o retracto do novo Campeão do Mundo.
No banco, Lippi, é a garantia da essência táctica transalpina. Sete/oito jogadores sempre atrás da linha da bola, desdobramentos posicionais após a sua recuperação, faixas sempre completas, controlo dos diferentes ritmos de jogo e mudanças de velocidade no contra-ataque, quase sempre em triangulações e toques curtos.
Enzo Bearzot, o técnico italiano que também se sagrara campeão do mundo 24 anos atrás, em 82, disse um dia que se o futebol fosse música, seria jazz, a arte da improvisação. Quando disse isso não terá, no entanto, reflectido muito sobre o jogo italiano. Nenhum movimento é por acaso. Tudo obedece a um rigoroso plano pré-concebido.
Para muitos, o futebol até pode ser um desporto. Para os italianos, é uma ciência.