Di Stefano foi um dos maiores jogadores do mundo de todos os tempos. O primeiro de uma dinastia de quatro Reis. Seguiram-se Pele, Cruyff e Maradona, A partir daí, só príncipes. Mas Don Alfredo foi o primeiro. Veloz e mágico. Fez 82 anos em Julho. Recordou a carreira e a vida. Falando dos tempos do seu futebol de rua, nos baldios da velha Argentina, encolheu os ombros “Se já era bom então? Sim, mas nessa altura, no meu bairro, existiam pelo menos… 40 melhores do que eu!”. Sempre acreditei que o melhor do futebol são os jogadores. Exactamente pela origem da sua conexão com o jogo. A emoção, que recolhem de gerações anteriores. A saga de Di Stefano é hoje, porém, um caso de amor impossível. Os jogadores aburguesaram-se. Domingo, jogam contra o adversário. Durante a semana, competem com os colegas. Ver como se comportam na passagem dos treinos para os jogos é talvez a melhor forma de entender as suas personalidades e origem da sua relação com o jogo.
Percorrendo todas as semanas os relvados do nosso campeonato, à medida que o olhar vai passando de jogador para jogador, as sensações também mudam. Hulk tornou-se um caso de relação sobressaltada. Cada arranque seu é um “jogo particular”. O colega acreditar que ele vai lhe passar a bola é quase um acto de fé futebolístico. Mas, pensando o jogo como algo colectivo, é a única posição –ponta de lança- onde o egoísmo ainda pode fazer algum sentido. Até ser uma qualidade, mesmo. O seu olhar é quase de indiferença. Diferente, porém, do amuo que hoje emerge da face de Yanick Djaló, quando depois de marcar um golo, fecha a cara e não festeja. Estranho num jogador que tem alegria até no nome. Di Stefano dizia que não conseguia explicar como se tornara jogador. “Não sei, jogávamos tão bem que acabaram por nos pagar para o fazer!”. É o lado da emoção a passar para o lado do profissional.
Nessa passagem, porém, o jogador não se pode tornar “só” um “profissional. Festejar o golo, na rua como no relvado. Djaló prefere agora o luxo da indiferença. Liedson passou, nos últimos tempos, a cruzar esse momento de bola na rede com uma declaração de amor. O desenhar do símbolo do coração. Uma ligação que torna o golo como a vida, a mais doce ilusão.
Neste jogo de sensações, também pode entrar o lado épico da vida numa jogada. Como Cristian Rodriguez tenta jogar contra o destino e as criticas, fazendo do golo a última fronteira para as derrotar. Como tentou contra o Arsenal, em correrias loucas, como fez na Amadora, por fim com eficácia., mesmo que no fim soltasse um sorriso malandro, “sim, foi com o ombro”. A relação com o golo é a mais bonita do jogo, mesmo quando o jogador fica longe dela e reage como desabafou Cardozo, condenado a ver do banco a bola passar. Um suspiro de amor não correspondido. De quem sente o jogo.
Mas nem só de golos vive o jogo. Como explica Pedro Emanuel no regresso à sua casa na defesa do Dragão, devolvendo-lhe carácter só de olhar de lado com o sobrolho carregado. O jogador é, por definição, um individualista que tem, no relvado, de render-se à ordem da equipa. Todas estas personagens, Hulk, Djaló, Rodriguez, Cardozo, Pedro Emanuel, vivem o jogo nos limites. Com reacções diferentes. Tentem fazer este exercício numa próxima ocasião. Em vez de seguir o jogo, seguir jogadores. Não é a mesma coisa. É o melhor meio para entrar na essência do jogo e, em cada 90 minutos, decifrar os seus mais profundos mistérios, alegrias e tristezas, vitórias ou derrotas. Como na vida, afinal.