Quando está em campo, para além da bola, uma equipa joga com outro instrumento invisível que a acompanha 90 minutos: o tempo. Conforme o resultado, a ganhar ou a perder, ele parece andar de forma diferente. Pura ilusão, claro. A equipa mais inteligente é aquela que sabe «jogar» com ele. Gerindo ritmos. Um bom exemplo deste tipo de futebol jogado a olhar para o cronómetro é a selecção do Paraguai. Sabe fazer do tempo o seu maior aliado no jogo. Viu-se frente à Eslováquia e Itália, como guarda a bola e, num 4x4x2 feito sobretudo de zonas de pressão a meio-campo (centro e alas) consegue prolongar os efeitos de um golo por quase todo o jogo. Nesta equação, tendo em conta o facto da maioria das equipas jogarem com duplo-pivot, explica também a importância desses médios de cobertura (Caceres-Riveros no meio, Vera na meia-esquerda) se soltarem e incorporarem, desde trás, no processo ofensivo. Não procura grande profundidade. Basta ter a bola para se sentir bem. Não é aquela equipa defensiva que a trata como uma granada e só pensa em fechar espaços. Não, é uma equipa que a trata como um tesouro. Ao ponto de quando a tem não a querer mostrar a ninguém. E, assim, vai passando o tempo.
Mas, o tempo pode ter diferentes ritmos. Ilhas Fiji, Vanutu, Nova Caledónia e Bahrein. Foi o que bastou para a Nova Zelândia chegar ao Mundial! E, de repente, a Itália. O empate não foi mera obra do tempo (marcou um golo cedo e aguentou até ao fim num imperturbável 5x4x1 com o central Nelsen feito um muro) mas a cada segundo que passava a cabeça dos jogadores italianos ia ficando cada vez mais quadrada. Lippi abandonou o 4x2x3x1, montou o 4x4x2, foi metendo todos os avançados que tinha, mas nunca conseguiu pegar no jogo. Nem dominar o seu «tempo». Foi, pelo contrário, dominado por ele e a ansiedade que ele trouxe. Resta, agora, esperar por Pirlo. O único homem que lhe pode dar essa capacidade de gerir tempo (e bola) em campo. Olhando a equipa, porém, nem será para pivot que ele deve entrar. Neste momento, Pirlo poderá na selecção voltar à sua origem posicional, médio-centro de segunda linha, espaço do 10 regista.
A equipa mais “larga”
Por cada jogo seu parece que já vemos a mesma equipa há mais de uma década. E não anda muito longe disso. A Dinamarca é das selecções mais sólidas (em termos de sistema táctico e saber que terrenos pisar em campo) deste Mundial. Rommedhal e Gronkjaer, quase 32 e 33 anos, parece que estão há duas vidas a correr pelas suas faixas. A forma como venceram os Camarões foi mais uma lição de como se deve aproveitar toda a largura do campo para construir jogo.
Nesse sentido, a Dinamarca deve ser a equipa mais larga deste Mundial. Ou seja, aquela que mais encosta os seus alas às linhas laterais (e, por isso, também aquela que bascula menos em função do flanco onde a bola cai) e, dessa forma, força o adversário também a esticar mais as suas marcações, abrindo, nesse esforço, espaços entre centrais e laterais. É, então, quase sempre, por onde entram os passes diagonais dos seus médios interiores. Em vez de fazer campo grande a atacar (aumentar a distância entre as suas linhas), a Dinamarca prefere antes fazer campo largo. A profundidade, depois, aparece naturalmente. Um case study táctico para ver neste Mundial.