JUVENTUS-MILAN / Um confronto de ciclos: O diabo e a velha senhora

28 de Maio de 2003
JUVENTUS-MILAN LIGA DOS CAMPEÕES FINAL

Frente a frente, no Teatro dos Sonhos de Manchester, duas equipas que, alternando períodos de hegemonia, marcaram e dominaram os últimos 25 anos do futebol italiano e europeu. Um confronto de ciclos, nascido em meados dos anos 70, pela mão da raposa Trapattoni, na Juventus, seguido, nos anos 80, em Milão, pela revolução de Sacchi e Capello, até ao abrir de um novo período de domínio, já no limiar dos anos 90, com a Juventus de Lippi. Em todos eles, sempre passearam grandes jogadores, de Platini a Del Piero, de Gullit a Shevchenko. Um mundo de emoções analisado na hora em que os dois monstros do Calcio se encontram, em Inglaterra, para disputar o titulo europeu.

Ciclo Juventus (1977-1986)

Campeonato italiano: 6 (76/77, 77/78, 80/81, 81/82, 83/84, 85/86) Taça de Itália: 2 (78/79, 82/83) Taça dos Campeões Europeus: 1 (84/85) Taça das Taças: 1 ( 83/84) Taça UEFA: 1 (76/77) Super Taça Europeia: 1 (84/85) Taça Intercontinental: 1 (1985)

Betega, Brady, Platini e a raposa Trapattoni

O ciclo de domínio da Juventus gerado a partir de meados dos anos 70, inicia-se, em 1975, num pequeno hotel da auto-estrada Milão-Turim, local onde Boniperti se reúne com Trapattoni -então jovem técnico que acabara de iniciar a carreira no Milan- e vislumbra nele o treinador ideal para devolver os dias de glória ao lendário clube bianconero. Para qualquer estudioso do futebol italiano, Trapattoni é, por definição, um símbolo da velha escola transalpina, dogmaticamente defensivista e profeta do Catennacio. Analisando o seu perfil, pode-se concluir, no entanto, que a obra da raposa de Cusano, discípulo directo de Nereo Rocco, vai muito para além dessa definição simplista. A sua carreira no banco da Juventus é a prova disso. Numa análise cíclica, ela pode-se dividir em três etapas:

1. 76-80: A construção do espírito de equipa.

Num tempo em que as fronteiras do Calcio estavam fechadas a estrangeiros, Trapattoni forma uma equipa que, sem grandes estrelas, vale sobretudo pelo seu carácter lutador, tacticamente esquematizado em 4x3x3, mas sem, a meio campo, o chamado regista clássico, papel que, nas épocas anteriores, fora desempenhado por um nº10 chamado Fabio Capello. Sublime condutor de homens, Trapattoni transforma simples jogadores em grandes campeões. No meio campo, tornou Tardelli, antes apenas um mediano lateral esquerdo, num médio patrão de grande nível, regendo, a partir da frente da defesa, na zona dos trincos clássicos, um meio campo de grande poder atlético, onde também estavam Furino e Benetti. No centro da defesa, chefiada pelo libero Sirea, um patriarca, inventa dois poderosos centrais de marcação: Morini, excelente no homem-a-homem, e Brio, o gigante pica-pedra. No flanco esquerdo, fez do jovem Cabrini, então em inicio de carreira, um lateral esquerdo ofensivo, em pouco tempo também titular de selecção. No ataque, Causio era o extremo direito, e, como, dupla atacante, surgia um poderoso avançado centro, Boninsegna e um goleador mortífero Bettega, que também se infiltrava pelas alas, exímio no jogo de cabeça. Os três combinavam na perfeição. Pela primeira vez na história, a Juventus conquista uma competição europeia, a Taça UEFA, em 77. Na garra demonstrada nessa histórica conquista, sob a chuva torrencial de Bilbao, estava todo o carácter imposto por Trapattoni. A sua Juve lutadora torna-se no bloco da selecção, nove jogadores, que disputa o Mundial-78: Zoff, Boninsegna, Gentile, Scirea, Causio, Tardelli, Bettega, Cabrini e Fanna.

2. 80-82: O regresso do estrangeiros

A reabertura das fronteiras permite a Trapattoni refinar a sua equipa, resgatando, a meio campo, o posto de regista, o tal nº10 capaz de, só ao tocar na bola, dar maior classe ao sector. O primeiro eleito é o irlandês Liam Brady, contratado ao Arsenal. Tacticamente, mantêm-se o 4x3x3, mas, sem Bonisegna, o ataque, privado do seu elemento possante, adquire um estilo mais dinâmico, com Virdis e Galderisi abertos nos flancos, trocando constantemente de posição, apoiados por Fanna e Marocchino, tentando servir, na área, o perigoso Bettega. No Mundial-82, a sua Juve volta a formar o bloco base da selecção campeã do mundo com seis jogadores: Zoff, Gentile, Cabrini, Scirea, Tardelli e, face á lesão de Bettega, Paulo Rossi.

3. 82-86: As estrelas de Platini

A contratação de Michel Platini, em 82/83, ao mesmo tempo de Rossi, o goleador do Mundial-82, e do fabuloso médio polaco Boniek, transforma a Juventus numa orquestra de luxo. A equipa perde o velho espirito lutador dos primeiros tempos, mas ganha maior classe e beleza futebolística, sempre regida por monsieur Platini. Era um onze deslumbrante, ao qual se juntaria, depois, o dinamarquês, Laudrup. Na defesa e no meio campo, Scirea, Cabrini e Tardeli, continuam a assegurar a mística bianconera. Apesar da constelação de estrelas esta é, no entanto, a mais defensiva Juventus da era Trapattoni, que, para dar maior coesão colectiva ao onze, recua de 4x3x3 para 4x4x2, exibindo muitas vezes, para desgosto de Platni, uma postura demasiado conservadora, á espera de um livre em folha seca ou de um cirúrgico passe em profundidade de 30 metros do mago gaulês para resolver os jogos mais complicados. Nesse sistema, porém, atinge duas finais da Taça dos Campeões Europeus e ganha uma, na tragédia do Heysel, frente ao Liverpool, em 1995. No final da época 85/86, dez épocas depois da sua chegada, Trapattoni abandona a Juventus. A alquimia dos títulos mudara-se para Milão, onde já se começava a desenhar outro ciclo de domínio no Calcio.

Ciclo Milan (1987-1996)

Campeonato italiano: 5 (87/88, 91/92, 92/93, 93/94, 95/96) Taça dos Campeões Europeus: 3 (88/89, 89/90, 93/94) Super Taça Europeia: 3 (89/90, 90/91, 94/95) Taça Intercontinental: 2 (1990, 1991)

A revolução de Sacchi e Capello

Com Berlusconi, empresário, político e homem de negócios, o Milan ergueu o maio império desportivo e financeiro dos anos 80/90. Na sua primeira equipa, em 85/86, treinada por Liedholm, ainda estão os ingleses Wilkins e Hateley. É, no entanto, um onze sem personalidade que não entusiasma ninguém. O novo ciclo rossonero nasce no ano seguinte, com a chegada de um técnico desconhecido do grande Calcio, Arrigo Sachi, contratado ao Parma, então equipa da Serie B. Este ciclo de domínio do AC Milan, pode, assim, dividir-se em duas fases:

1. 86-91: A zona pressionante de Sacchi

Para além dos títulos, Sacchi, um estudioso do futebol holandês, vai marcar uma época no Calcio, sob o plano táctico e estílistico. Com Liedholm a marcação á zona já ganhara o respeito de todo o Calcio. Astuto, Sacchi lapida o sistema e acrescenta-lhe o pressing a todo terreno. Desaparece o líbero á italiana e passa a jogar num clássico 4x3x3, com defesa a «4», onde Baresi era o líder, sempre de perfil com os outros elementos do sector, responsável pela eficaz utilização da táctica de fora-de-jogo. Á frente, um trinco espécie de farol da equipa: Ancelotti, e mais dois médios recuperadores de bola: Evani e Colombo. Na época seguinte chega outro trinco holandês de culto, Rijkard, suporte do génio atacante. É a exaltação da chamada zona pressionante a todo o campo. No ataque, dois avançados abertos nas alas, Gullit e Donadini, em apoio ao ponta de lança, Virdis nos primeiras épocas e Van Basten, depois. Tacticamente, o Milan de Sacchi rompeu com o conservadorismo italiano. A marcação individual passara a ser vista como símbolo de incapacidade técnica e reconhecimento das superioridade do adversário. Embora o sistema de marcação não seja em si mesmo um sistema de jogo, a zona marcou uma época, confirmando que mais do que na táctica, os treinadores tinha sobretudo de trabalhar a dinâmica da táctica. A marcação á zona, exigindo de todos grande sentido de sacrifício colectivo, soltou, ao mesmo tempo, os artistas, e, num ápice, a técnica voltou a ganhar espaço e velocidade. Foi esta a verdadeira revolução de Sacchi no futebol italiano. Era o nascer e triunfar de uma nova mentalidade. Apesar do seu cariz inovador, acabaria, porém, preso num, digamos, tacticismo excessivo, colocando, muitas vezes, o sistema á frente dos jogadores.

2. 91-96: O realismo de Fabio Capello

O mágico ciclo, continua, depois, com Fabio Capello. Apesar dos títulos europeus, o jogo parecia estar a ficar demasiado dependente de rígidos sistemas tácticos que eram ensaiados nos treinos até á exaustão. Faltava iniciativa e fantasia. Com Capello isso regressou e o Milan, que com Sacchi só conquistara um Scudetto em quatro anos, volta a vencer internamente. Mantêm-se o design táctico, mas, em campo, o sistema ganha maior elasticidade e menor rigidez posicional. É um estilo diferente. No intuito de encurtar o terreno e formar um bloco forte, o Milan de Capello jogava praticamente em apenas 50 metros de terreno. Tacticamente, esquematizava-se em 4x4x2, ou, para se ser mais exacto, num 4x2x2x2 com alas, Donadoni e Lentini, mas sempre sob a batuta de Baresi, o libero, responsável pela subida do sector defensivo na hora de fazer o fora-de-jogo. Á frente da defesa, no lugar de Anceloti, surge o ragazzo Albertini. No ataque, Van Basten tem o apoio de Massaro. Na dinâmica de jogo, Rijkard continua a revelar um excelente sentido de penetração e Maldini combina com Lentini no flanco esquerdo. Nas duas últimas épocas, surgem Desailly, poderoso trinco, e Savicevic, regista clássico, mantendo-se sempre o mesmo esquema táctico. Anterior á eclosão da Lei-Bosman, este Milan foi já uma antevisão dos multinacionais onzes da actualidade, ao ponto de, no inicio dos 90, quase se falar num Milan-holandês e num Milan-jugoslavo, lembrando a alternância de titularidade das suas estrelas estrangeiras: Gullit, Rijkard, Van Basten, Papin, Savicevic e Boban. Apesar do aumento de estrangeiros, ainda era o tempo em que as grandes equipas europeias resultavam de uma fabulosa osmose entre as qualidades estilisticas do jogador nacional e a qualidade internacional da estrela estrangeira. Algo evidente neste fantástico Milan, que apesar dos estrangeiros, não seria nada sem a sustentação italiana de Baresi, Maldini, Costacurta, Eranio, Anceloti, Evani, Albertini, Donadoni e Tassoti, entre outros. A genética futebolistica ainda estava protegida.

2º Ciclo Juventus (1996- ?)

Campeonato italiano: 5 ( 94/95, 96/97, 97/98, 2001/02, 2002/03) Taça de Itália: 1 (94/95) Liga dos Campeões Europeus: 1 (95/96) Super Taça Europeia: 1 (95/96) Taça Intercontinental: 1 (1996)

A era de Lippi

Em 1994, os Agnelli sentem que é o momento de lançar a Juventus do Sec.XXI. Nos gabinetes, sai Boniperti, e entra a tríade Bettega-Moggi-Giraudo, abrindo um novo ciclo de domínio no Calcio, sob o comando táctico de Marcello Lippi, que, para já, se pode dividir em dois períodos: 1. Lippi e o regresso do 4x4x3 Marcello Lippi é um fleumático treinador contratado ao Nápoles. Raramente se o vê, no banco, com reacções impulsivas, antes o encontramos sempre sereno, fumador, de olhos fixos no relvado, decompondo cada movimento do 4x3x3 da sua Juventus de passes curtos, uma equipa que há muito tempo que não jogava, sempre, com três avançados. Com Lippi, a Juventus volta a erguer a bandeira do futebol ofensivo e, em 1995, quebra, por fim, a hegemonia do AC Milan e volta a vencer o Scudetto, penetrando dentro do ciclo de domínio milanista. Para a história, fica um equipa onde coexistiam guerreiros e fantasistas. Com a braçadeira de capitão, Vialli, um avançado irascível cujo temperamento assustou o Calcio, imperioso, na frente de ataque, ao lado do vagabundo goleador Ravanelli. Ele foi o homem-golo de uma equipa que adquiriu contornos divinais nos movimentos artísticos de Roberto Baggio, e que vislumbrou no futebol de Del Piero, o renascer do personalizado e sedutor estilo que fez a glória juventina. No comando do meio campo, o sotaque português no nome e na classe orquestral de Paulo Sousa. 2. O trequartista e o 4x3x1x2 Em 96/97, após a conquista europeia, Lippi refaz a equipa. Saem Vialli, Ravanelli e Paulo Sousa. Entram Boszik, Vieri e Zidane. Tacticamente, colocando, ao contrário de Sacchi, os jogadores á frente do sistema, o 4x3x3 dá lugar ao 4x3x1x2, surgindo a figura híbrida do trequartista, o tal regista dos tempos modernos que não é 10 nem 9 e joga nas costas dos avançados. Este é o habitat ideal para a sábia magia de Zidane. Após duas épocas distante dos títulos, derrotado em duas finais europeias, Lippi resolve sair a meio da temporada 98/99. Parece ser o fim de um ciclo, mas, duas épocas depois, em 2000/01, finda a fracassada aventura com Ancelotti, regressa á sua Juventus para abrir, ou continuar, o seu ciclo. Sai Zidane, e, em campo, os novos símbolos do renascimento da era-Lippi, são Nedved e Trezeguet. Depois da vitória em dois Scudettos consecutivos, todos sonham com a reconquista da Europa.

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