KANU: O coração de África

1 de Novembro de 1999
Um jogador preso na armadilha do destino que tornou o futebol num desafio ao impossível. Do fundo do coração, a história de Kanu, o «perna longa» nigeriano que foi dado como terminado para o futebol, mas que, destemido, inventou uma nova vida. Da África profunda à selva do Velho Continente, a história de milagre futebolístico.
Os jogos Olímpicos são, por definição, o palco-mor da exaltação atlética. Desde a antiga Grécia aos tempos modernos, trôpegos profetas de Coubertin, um lema e uma máxima: mais alto, mais forte, mais longe. Em 1996, ao lado de Bubka ou Michael Jonhson, em Atlanta, duas décadas depois de dar os primeiros passos em Oweri, cidade nigeriana com forte tradição futebolística, um jovem gigante africano, que o técnico Fanny Amun definiu como “a pele e os ossos”, irrompeu nesse Olimpo com uma bola colada aos pés: Nwankwo Kanu, o maestro das pernas longas que, do alto do seu 1,97 m., levou a fabulosa Nigéria ao Ouro. Num ápice, as “Águias verdes” devolveram todos os amantes da bola á essência do futebol puro, jogado com alegria, velocidade e imaginação. Kanu era o símbolo desse empolgante onze. Pensar em África faz o coração bater mais depressa. Estrutural e economicamente mais desenvolvido, produto da colonização cultural francófona que ainda hoje perdura, a força do futebol africano situou-se quase sempre a norte do continente. Os últimos anos revelam, no entanto, outras tendências. A Nigéria é a maior prova disso. Na região central, o movimento dos negros, mesmo nos mais simples toques corporais, confunde-se com a dança. Parecem marcar o ritmo do som dos tambores, domando a selva que os contempla. Juntar uma bola a esta atmosfera divina torna o simples drible de um menino descalço numa hipnotizante obra de arte. Como todos os filhos da história africana, Kanu teve de lutar para sobreviver. Um dia descobriu como fintar o destino. O segredo estava na tal bola, muitas vezes feita de trapos velhos. “Em África o futebol é muito diferente. As pessoas adoram ver jogadores fazer coisas diferentes com a bola. Se num jogo ninguém tentar algo diferente, mesmo que falhe, as pessoas aborrecem-se. Só passes, passes, e golos não satisfaz as pessoas. Não as faz felizes. Em África elas esperam sempre truques e quando eles surgem todos ficam contentes.”
Quando em 1993 conduzira a selecção nigeriana á conquista do Mundial Sub-17, a sua magia ficou na retina dos astutos olheiros do Ajax, suprema escola de talentos. Num ápice, junto com Finidi e Oliseh, Kanu rumou para Amsterdão. Dois anos depois, sob a orientação de Van Gaal, já era campeão europeu. “Magia negra” que o levou a receber um tentador convite do Inter Milão. Ao desembarcar na “bota da Europa” o impensável sucedeu. Cruéis, os exames médicos de pré-época revelam uma grave insuficiência cardíaca já antiga mas nunca antes detectada. Kanu não pode continuar a jogar futebol. Com a aura dos velhos chefes, o perna longa nigeriano, não se conforma: “Estou disposto a dar a volta ao mundo para regressar aos relvados”. O segredo milagroso não estava no entanto nos enigmáticos feitiços africanos. Em Novembro de 1996, nos EUA, foi sujeito a uma delicada operação a coração aberto para substituir as válvulas afectadas. Poucos porém acreditavam no seu retorno, mas em Abril de 1997, os médicos anunciavam que Kanu estava curado. Restava reconquistar o seu espaço na selva do velho continente. Sem espaço no Inter de Ronaldo, um mestre francês voltou a crer na sua magia. Em Londres, com o apoio de Wenger e o emblema do Arsenal encostado ao coração, resgatou o feitiço que o tornara membro da elite Olímpica. Ao lado Overmars e Bergkamp, antigos colegas no Ajax, redescobrimos o seu estilo desengonçado que hipnotiza a bola, o instinto mortífero, dribla como se caminha-se sobre uma corda suspensa no ar, parece em permanente desequilibro mas o seu malicioso toque de bola descobre sempre um novo truque, tudo desenhos do magico futebol africano de Kanu, um jogador em forma de “arranha-céus”, terror dos defesas, o símbolo futebolístico da atracção pelo impossível. «Quando recebe a bola, parece que tem todo o tempo do Mundo, para decidir o que fazer com ela», disse dele Keown, possante defesa do Arsenal. “Tudo o que aprendes-te enquanto jovem tem de permanecer contigo para sempre”, explica a estrela nigeriana, para quem o futebol tem de viver sempre junto com o divertimento. Em Higbury Park, o coração de África voltou a bater depressa.

Artigos Relacionados