KISPEST HONVED FC: DEFENSORES DA TERRA MÃE

16 de Novembro de 2006
OS DEFENSORES DA TERRA MÃE, numa das mais fascinantes histórias, no apogeu e no declinio, da história do futebol mundial, escrita pelos treinadores Gustav Sebes e Janos Kalmar, com mágicos do danúbio como Puskas, Czibor, Kocsis, Bozsik, Grocis, Lorant, Budai, grandes lendas, até ás sombras do presente perdido o nome e o estilo deslumbrante, que fez a glória imortal da sobrenatural selecção húngara dos anos 50...
Encruzilhada milenar de duas cidades, Buda, a norte, e Peste, a sul, plantadas nas românticas margens do Danúbio, Budapeste é uma das capitais europeias com maior peso histórico. Do lado esquerdo, na velha Peste, existia um pequeno e obreiro bairro chamado Kispest, onde morava um modesto clube com o mesmo nome, que, fundado em 1909, passara quase anónimo até ao inicio da Segunda guerra mundial, período no qual apenas vencera uma Taça, em 1926, e, tivera, como melhor proeza no Campeonato, um honroso segundo lugar. Em meados dos anos 40, torturada pela guerra, a nação húngara vivia mergulhada num profundo sofrimento. Soturna aliada de Hitler, a Hungria fora invadida pelos alemães. Depois, perante o avanço das tropas soviéticas, Budapeste tornara-se num autêntico campo de batalha. Em poucas semanas, a bela cidade ficou esventrada pelas bombas da guerra. Terminado o confronto mundial com a vitória dos aliados, a Hungria caiu nas mãos do triunfante regime soviético que, depois de expulsar o monstro nazi, lançou-se na reconstrução da cidade. A paixão pelo futebol resistira a todo este sofrimento e no clima do pós-guerra transformava-se num grande divertimento para todo um povo devolvido á vida. Sábio, o regime comunista transforma então o futebol, numa bandeira política, elegendo para chefe da selecção nacional, o vice ministro dos desportos da Hungria, Gusztav Sebes, um homem com recomendáveis credencias socialistas que tempos antes, em meados dos anos 30, organizara, em Paris, uma manifestação de operários da Renault e que depois fora um dos principais activistas do movimento sindical na Hungria do pós-guerra. Sebes estava, portanto, perfeitamente identificado com o pensamento do governo húngaro em manusear o futebol como um instrumento de propaganda. Feroz defensor da ideologia comunista, fazia os jogadores sentir isso todos os dias. Qualquer jogo internacional era transformado num confronto político, entre o capitalismo e o socialismo. Costumava dizer que esse desafio acontecia num relvado de futebol, como em qualquer outro sector da sociedade. Para construir uma grande selecção de futebol, Sebes tinha um plano, onde era fundamental que os jogadores jogassem juntos durante o maior tempo possível. Como a selecção só se reunia de tempos a tempos, restava a solução de reunir a maioria deles, a base do onze, num mesmo clube. O maior clube húngaro dessa época era o Ferencvaros, mas no seu passado morava já um legado de exacerbado nacionalismo e alguns dissidentes do regime comunista, sendo, após a guerra, adoptado pelo sindicato dos trabalhadores da comida. Assim, o clube eleito por Sebes seria o modesto Kispest AC, que passando a ser controlado pelo exército, mudaria o seu nome para Honved, Defensores da Terra-Mãe, em húngaro.

1950-1956:APOGEU E QUEDA DO GRANDE HONVED

Durante toda a primeira metade da década de 50, não houve, na Europa, uma equipa tão brilhante como a do Honved. Quando escolheu o modesto Kispest para incorporar o espírito futebolístico húngaro, Sebes teve a sorte de encontrar já nesse pequeno clube do lado sul de Budapeste, os grandes jogadores Puskas e Bozsik, amigos de infância que não tinham conhecido outra equipa na vida. Partindo deles, começou a construir a grande equipa, requisitando para o clube, em nome do Estado, os melhores jogadores do país, que assim adquiriam patentes militares, visto que o Honved era a equipa do exército húngaro, como foram os casos de Czibor, vindo do Csepel, e do guarda redes Grocis, o defesa Lorant e os avançados Budai, Kocsis e Czibor, vindos do Ferencvaros, praticamente desmantelado. As transferências passariam a ser decididas em função do interesse nacional. Com a morte do pai de Puskas, que fora treinador do Kispest nos primeiros anos, Gustav Sebes apontou Janos Kalmar como o técnico incumbido de fazer o grande Honved. Considerado um dos melhores treinadores do futebol húngaro, Kalmar fez carreira no MTK Budapest, Ferencvaros, Csepel e Dorog. No Honved, reunindo uma grupo de sonho, Kalmar formou uma equipa invencível, que deslumbrou pela sua fantasia técnica e talento táctico, conquistador de cinco títulos de campeão húngaro (50, 52, 54 e 55). Uma autêntica máquina de bom futebol.

A REVOLUÇÃO QUE DESTRUÍU O HONVED

Da mesma forma que foi formado, o Honved também foi desfeito pela força das armas e da política. Em 1954, depois do Wolverhampton ter vencido o Honved, num jogo particular, o Daily Star escreveu muito fanfarrónicamente: Wolverhampton campeão europeu de clubes. As consciências futebolísticas europeias revoltaram-se. Para tal, teriam de bater os campeões latinos, alemães e russos, argumentaram. Passado pouco tempo era lançada a Taça dos Campeões Europeus. Depois de em 55/56, o representante húngaro ter sido o Voros Lobogo de Hidegkuti, campeão em 53, a edição de 56/57, preparava-se para contar com o Grande Honved, que, no entanto, já ultrapassara o seu período áureo, sobretudo depois da derrota da selecção húngara na Final do Mundial-54. Aos poucos essa selecção magiar, baseada no Honved, começava a ser desfeita. Pouco antes, Grocis fora preso acusado de espionagem contra o Estado e Gustav Sebes acabara de ser demitido, após a derrota com a Bélgica, sendo substituído por Bukovi no cargo de seleccionador nacional. Ao mesmo tempo, com a subida ao poder, na URSS, de Krushchev, opositor de Staline, morto em 1953, crescia, pelas ruas de Budapeste, o descontentamento popular para com o duro e repressivo regime estalinista de Rakosi. Futebolisticamente, o sorteio europeu colocava o At.Bilbao no caminho dos campeões magiares. Em meados de 1956, na mesma altura em que o Honved se preparava para jogar em Espanha, o povo de Budapeste revolta-se contra o regime comunista. Era uma revolta que alastrou a toda a Hungria e que ameaça estender-se aos países vizinhos. Foi então que os tanques soviéticos invadiram a cidade e esmagaram a revolução. Pressionados pela FIFA que informara o Honved que a falta ao jogo da segunda mão com o Bilbao, representava uma suspensão de dois anos, os jogadores e directores húngaros, receosos em voltar ao país, decidem fazer a segunda mão em Bruxelas. O Honved é eliminado (2-3 e 3-3). Receosos, muitas figuras da equipa decidem ficar no Ocidente em exílio forçado. Falámos entre todos e decidimos ficar. Nós só queríamos jogar futebol, conta Puskas, um dos que, junto de Czibor e Kocsis, se recusaram a regressar. Unidos, conseguem organizar uma digressão pelo Brasil, onde fizeram vários jogos de exibição que valeram algumas receitas: Jogámos no Maracanã, havia húngaros que nos pagavam os hotéis e as refeições, éramos jovens, repartíamos religiosamente o dinheiro entre todos, lembra Puskas, que seria depois, com os seus colegas, duramente sancionado. A aventura do grande Honved terminava sem glória.

O JOGO QUE MUDOU A HISTÓRIA DO FUTEBOL

Nos anos 50, pode-se dizer, começou o futebol da era moderna, quando, pela mão de Gustav Sebes, a Hungria, onde estavam sete jogadores do Honved, -Grocis, Lorant, Bozsik, Budai, Puskas, Czibor e Kocsis- mostrou ao mundo um novo caminho táctico, o 4-2-4 reduzindo a cinzas o “WM” de Chapman, que muitos criam como definitivo e invencível. Não podia escolher melhor palco para essa lição táctica: Em pleno Wembley, diante do nariz dos altivos ingleses. Em 1953, pela primeira vez os números nas camisolas – até hoje uma referência á posição dos jogadores em campo- foram utilizados para confundir os adversários. Nessa tarde, os britânicos, no relvado e na bancada, não entendiam onde jogavam os magiares, com o nº9 na defesa e o nº3 no ataque, inseridos num dinâmico esquema que se desenhava em “MM”, de posse da bola, e em “UM”, sem a bola. O segredo era um falso ponta de lança, Hidegkuti, que recuando no terreno obrigava o seu marcador a subir para o acompanhar. Era então nesse momento que metia a bola nos espaços vazios, nas costas da defesa inglesa, onde, após velozes diagonais, surgiam Czibor, Puskas, Budai e Kocsis, isolados diante Merrick. Tacticamente, o onze húngaro desenhava-se num elástico 4-2-4.Nesse sistema, que no fundo apenas mexia uma peça do WM, os húngaros esmagaram a Inglaterra, 6-3! Um mês depois em Praga venceram por 7-1! Baseando-se no mágico grupo do Honved, demolidor a nível interno, a selecção húngara, construiu a célebre lenda da Aranycsapat, a equipa de ouro, em húngaro, que permaneceu invencível durante 31 jogos consecutivos, entre 1950 e 1954, contando 27 vitórias, 4 empates, 142 golos marcados e 30 sofridos. Muito do que hoje se fala sobre polivalência dos jogadores, ou até o futebol total da Holanda nos anos 70, já tinha sido feito pelos húngaros 40 anos atrás.

PUSKAS: O MARAVILHOSO MUNDO DO MAJOR GALOPANTE

Nascido em Budapeste, em 2 de Abril de 1927, no bairro de Kispest, Ferenc Puskas, de ascendência alemã, cresceu desde menino junto ao campo de futebol do Kispest AC, onde começou muito novo a dar, sempre acompanhado o seu grande amigo Bozsik, os primeiros toques na bola calçando chuteiras, nessa altura pesadas demais para o seu tamanho. Com 16 anos, em 1943, estreou-se na primeira equipa, já na Iª Divisão húngara, sob as ordens de seu pai, que foi treinador do Kispest até perto dos anos 50, data da sua morte. Em 1945, com 18 anos, foi, pela primeira vez, internacional pela Hungria, contra a Áustria. Intregrado, a partir de 1949, no grande Honved, tornou-se em pouco tempo, uma grande estrela do futebol magiar, então a viver a sua idade de ouro. Chamavam-lhe o Major Galopante, porque sendo o Honved a equipa do exército todos os seus jogadores eram oficialmente militares e Puskas tinha, artificialmente, a patente de Major. Em toda a sua carreira, fez 84 jogos e 83 golos pela Hungria, sagrando-se campeão olímpico em 1952 e vice campeão do mundo em 54. O seu futebol tinha duas grandes armas: velocidade e um pé esquerdo fabuloso. Quando os tanques soviéticos esmagaram Budapeste, Puskas decidiu não regressar, seguindo para Vienna, onde se reuniu com a sua família que então fora ter com ele. Inclemente, a FIFA, pressionada pela Federação húngara aplicou-lhe um castigo de 18 meses sem jogar. Quando terminou o castigo, em Julho de 1958, Puskas estava com 31 anos e tinha engordado 18 quilos. Os grandes clubes não se interessaram pela sua contratação. Foi então que surgiu o Real Madrid.

A MARCA DE PUSKAS, EL CAÑONCITO

Conta Gento, uma das estrelas dessa fabulosa equipa merengue, que a intenção de contratar Puskas nascera já um ano antes quando durante o caminho para a final da época 57/58. O jogo com o Vasas de Budapeste para a meia-final tinha terminado há pouco. A superioridade do Real fora clara (4-0). No balneário, enquanto os jogadores festejavam, entrou o húngaro Csordas que, depois de felicitar todos pelo triunfo, disse que, sim senhor, o Real Madrid era formidável, mas que o Honved era superior e que, desde logo, Puskas era melhor que Di Stefano. Don Santiago Bernabeu ouviu, mas não se preocupou muito em resolver a questão de saber quem era, de facto, o melhor. Poucos meses, depois, Puskas assinava pelo Real Madrid. Reza a história, porém, que Bernabéu hesitou muito antes de o contratar. Valeu, na altura, que o secretário técnico do Real era o húngaro Emil Osterreicher, antigo director do Honved, que o convenceu de que Puskas, apesar de já ter 31 anos e uns quilos a mais, continuava um grande jogador, capaz, ainda, de fazer muitos golos. Assim foi. Em Madrid, Puskas, entre 1958 e 1966, fez 372 jogos e marcou 324 golos, sendo 5 vezes campeão espanhol e 3 vezes campeão europeu. Entre a Hungria e a Espanha, de 1943 a 1966, apontou 511 golos em 533 jogos oficiais. Naturalizou-se espanhol e alinhou pela Selecção da Espanha em 4 jogos do Mundial-62, ficando então conhecido como Pancho Puskas, El Cañoncito. Retirou-se dos relvados com 39 anos. Esteve 25 anos fora da sua Hungria. Regressou em 1991. Foi recebido como um herói pelo povo e pelos seus antigos companheiros do Honved, onde já não estava o amigo de infância Bozsik, morto em 1978 e que ao contrário dele regressara depois do jogo de Bilbao. Fez um jogo de exibição com a camisola magiar e sentiu-se nascer de novo. Em sua honra, o Kispest retirou do onze, em 2000, a camisola nº10, que será de Puskas para a eternidade. Um sentimento que o faz hoje confessar, com 74 anos, que para ele o futebol foi mais do que a própria vida.

HISTÓRIAS DE PUSKAS (I)

O ano de 1971 marcou o inicio da lenda de Cruyff. Em Wembley, o Ajax vencia o Panathinaikos e conquistava a sua primeira Taça dos Campeões Europeus. No entanto, apesar do talento de El Flaco, para muitos que estiveram presentes a principal memória reporta aos minutos antes do jogo, onde, durante cerca de meia hora, o relvado fora pisado por um mago de outras eras, Puskas, pois claro, ao tempo treinador do campeão grego, que durante o período de aquecimento ao guarda redes Ikonomopoulos deslumbrou as bancadas repletas com um festival de remates fora da área que terminavam invariavelmente no fundo das redes. Para muitos foi aí que o Panathinaikos começou a perder o jogo, como mais tarde o próprio guarda redes helénico admitiria num desabafo: se levo golos do velho, o que me espera frente a Cruyyf, Kaiser, Muhren e companhia? Nesse tempo, o major galopante, já tinha 44 anos mas continuava, como até hoje, a passear o mesmo porte com o cabelo reluzente cheio de brilhantina.

HISTÓRIAS DE PUSKAS (II)

Conta Best, no seu livro As minhas histórias de futebol favoritas, que quando há anos foi com outras estrelas do passado visitar uma escola de futebol, notou que um dos grupos de miúdos resmungava com a sua sorte: Com tantos craques logo a nós nos havia de calhar este velho gordo e baixote. Best reparou, chamou tal figura e pediu-lhe para, diante da plateia, matar a bola no peito e, a cerca de 30 metros da baliza, chutar á barra. Dito e feito. Repetiu o truque uma e outra vez. Depois, quando lhe pediu, parou a bola no calcanhar, levantou-a suavemente e, com um tiro colocado, colocou-a no baliza mesmo junto ao ângulo. Num ápice os miúdos ficaram boquiabertos. Mas nem sabemos o seu nome, Coach!, disse um míudo. De dedo espetado, Best olhou para o petiz futeboleiro e disse-lhe com solenidade: Eu, posso-o tratar por tu. Para vocês, ele é Mister Puskas!

JOZSEF BOZSIK: O grande amigo de Puskas

Cresceu junto com Puskas no bairro de Kispest. Quando menino, sonharam juntos em se tornarem jogadores de futebol. Era um médio centro que na grande selecção húngara dos anos 50, formou uma admirável dupla com o cerebral Hidegkuti. Gostava de rematar de fora da área. Após a Revolução de 1956, decidiu, ao contrário de Puskas, regressar á Hungria, onde prosseguiu a carreira. Campeão olímpico em 1952, fez a ultimo jogo pela Hungria em 1962. Nessa altura festejou com um golo, frente ao Uruguai, a sua 100ª internacionalização. Morreu em 1978, sem nunca mais voltar a ver o seu grande amigo de infância, Puskas, que só voltou á Hungria em 1991. Muito respeitado, tornou-se seleccionador nacional em 1974 e depois, fiel socialista, foi deputado no parlamento húngaro. Em sua homenagem, o velho Estádio do Kispest-Honved tem hoje o seu nome: Bozsik Stadium.

SANDOR KOCSIS: O PÁSSARO LOUCO

Ficou conhecido como o homem que queria conhecer os pássaros, tal a forma como saltava ou voava para a bola. Em Espanha, chamaram-lhe pássaro louco. A sua história é das mais emocionantes da história do futebol mundial. Nasceu em 1930, filho de um carpinteiro dos arredores de Budapeste. Com 16 anos, ingressou no Ferencvaros, que reparou no seu talento em 1946. Poucos anos depois, começava-se a formar a grande equipa do Honved, que de imediato vislumbrou nessa jovem promessa, então com 19 anos, um jogador de grande futuro. No onze do exército e na selecção magiar, Kocsis, alinhando como interior direito, mesmo nas costas de Puskas, tornou-se um dos jogadores mais influentes. Rápido, exímio nas diagonais, surgia muitas vezes como um verdadeiro ponta e lança, no centro da área, para cabecear os centros precisos de Budai, na direita, e Czibor, na esquerda. Um estilo que, na Hungria, lhe valeu a denominação de Cabeça de ouro. Marcou 75 golos em 68 jogos internacionais, sagrando-se o melhor marcador do Mundial-54 com 11 golos, sendo elevado á categoria de capitão de infantaria pelos serviços prestados á nação. Foi sempre um homem introvertido, que não gostava de falar muito. A invasão soviética de Budapeste também o apanha junto com os seus colegas do Honved, em Bilbao. Como todos os outros, hesita muito em regressar. Ao contrário de Puskas e Szabo, é autorizado a reentrar no país. Pensa muito e decide partir com a sua família para Berna, onde passa um ano como jogador-treinador do modesto Young Fellows. É então que o seu amigo Laszy Kubala, há 6 anos em Barcelona, resolve falar deles aos dirigentes catalães. Diz-lhes que Kocsis é só um dos melhores jogadores do mundo. Pouco antes já os convencera a contratar Czibor. Em 1958, o cabeça de ouro ingressa no Nou Camp. Os seus primeiros tempos foram de difícil adaptação. Passa os dias triste, nostálgico da sua Budapeste onde ficaram todos os seus amigos. Quando começa a falar a sua língua, o bom futebol, torna-se um temível avançado que vai marcar uma era no clube blaugrana, conquistando duas Ligas espanholas, 59 e 60, duas Taças UEFA, 58 e 60 e uma Taça de Espanha, 59.

KOCSIS (1929-1979): O último salto

A 16 de Outubro de 1968, com 39 anos, Kocsis, abandonou os relvados. Naturalizado espanhol, tenta a carreira de treinador, no Alicante. Um ano depois, porém, sente-se insatisfeito. Não encontra mais prazer no futebol fora dos relvados e abre um bar-café perto do Nou Camp, a que chama Le Kocsis. O negócio não corre muito bem. Depressivo, Kocsis refugia-se na bebida. Pouco tempo depois, recebe a noticia de que a sua perna esquerda sofre de trombose. Após inúmeros exames, com vários médicos, chega a brutal decisão que o obriga á amputação da perna. É o desespero. Em poucos dias o seu cabelo fica quase todo branco. Ao mesmo tempo fica a saber que, na Hungria, Bozsik e Lantos tinham morrido e Budai agonizava com uma hemorragia cerebral. Kocsis recusa usar uma prótese e todos os dias diz desejar a morte para ir ter com o seu pai e amigos. Esconde-se num quarto do Hotel Royal, onde estava com sua mulher, deixa de falar com todos, não quer saber sequer os resultados dos jogos e começa a delirar. Um dia, quando sozinho, cambaleia até uma janela e, suicida-se, atirando-se para a rua, onde todos ficam estupefactos. Recusam-se a acreditar ser aquele o fim do futebolista que anos antes os fizera felizes. É um Domingo de Julho de 1979. O dia em que o mundo parou para Kocsis. Ás portas do Nou Camp, continua a existir um bar que anos antes fora seu, chama-se agora Ya-Ya. Para a história, fica a memória do homem que, dizia-se, falava com os pássaros quando saltava para cabecear a bola...

ZOLTAN CZIBOR

Esquerdino como Puskas, jogando como um extremo á moda antiga, Czibor jogou no Ferencvaros, para onde foi levado pelo seu grande amigo, Budai e no Csepel, um clube de uma fábrica de produtos químicos, antes de ingressar no Honved, onde se tornou capitão do exército húngaro. Foi uma das principais figuras da selecção magiar dos anos 50, tendo sido internacional por 43 vezes. Antes de jogar futebol, fora atleta de salto em altura. Tinha um remate portentoso. Depois da invasão soviética de 1956, ficou dois anos sem jogar, ingressando em 1958, junto com Kocsis, no Barcelona de Kubala, onde actuou durante mais 5 épocas, inclusive a de 60/61, onde defrontou o Benfica na final da Taça dos Campeões. Antes de findar a carreira, ainda jogou no Español, regressando depois a Budapeste. Morreu em 1997, vitima de doença prolongada.

AS SOMBRAS DO PRESENTE

Após o fim da era dos mágicos magiares, nos anos 50, o futebol húngaro conheceu, a nível de clubes e selecção, o mais dramático colapso na história do futebol moderno. Nos anos 80, o Honved recuperou a liderança do futebol magiar, conquistando 6 títulos nacionais durante toda a década, na qual emergiu um talentoso jogador com o estilo doas glórias do passado: Lajos Detari. Um médio criativo que passeava uma técnica e uma visão de jogo invulgar. Com o seu estilo a fazer recordar os velhos mitos, foi jogar para Itália, mas, ao nível da selecção húngara ficou como que isolado num deserto de talentos. Nos anos 90, o clube recuperou o seu nome original, passando a denominar-se Kispest Honved, voltando a vencer mais 3 Campeonatos, iniciados com o treinador Marti Kusella. São, porém, vitórias que despertam grande nostalgia, face a uma Liga húngara que se joga sempre perante bancadas quase vazias. Quando há pouco, Puskas visitou Espanha, deu montes de entrevistas, mas em todas avisou, logo de entrada, que falo de tudo menos do actual futebol húngaro, ok? O seu Honved, o Ujpest, o Vasas e o Ferencvaros, nunca mais atingiram grande dimensão competitiva a nível internacional.

KISPEST-HONVED

Fundado em 1909 Onde Joga: Bozsik Stadium Campeão Húngaro: 1950 (Outono), 1950, 1952, 1954, 1955, 1980, 1984, 1985, 1986, 1988, 1989, 1991, 1993 e 1996 Taça da Hungria: 1926, 1964, 1985, 1989 e 1996.

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