Foi como todo o imaginário construído durante o nosso crescimento ruísse como um castelo de cartas. Tinha chegado o ano 2001 e a prometida odisseia no espaço que tanto inspirara a nossa adolescência não passava de uma miragem. Nem uma nave espacial sequer existia. Tudo continuava como antes. Nas ruas, escritórios, jornais (ok, chegara a internet…), casas, carros, futebol…
Calma. Este último capítulo não era bem assim. Porque durante toda a vida o futebol português só conhecera três campeões (illio tempore perdera-se a proeza única do Belenenses, nos anos 40). Subitamente, porém, o castelo de Benfica, FC Porto e Sporting era abalado por uma nova realidade aos quadradinhos: o Boavista era o primeiro campeão do novo milénio. Afinal, 2001 sempre tivera a sua odisseia. Seria o sinal de uma nova era no nosso futebolzinho, até lá macrocéfalo e impassível a novas ideias. Dez anos depois, revisitamos o Boavista e descobrimos o mesmo clube, com um Estádio ainda maior, a jogar, contra o Aliados de Lordelo, na…II Divisão B!
Cada história tem os seus protagonistas, heróis e vilões, mas este apogeu e queda do Boavista, e causas que ditaram umas e outras, é uma parábola perfeita da dupla personalidade que turva a imagem do futebol português na primeira década do Séc. XXI. Ele tem mais de mil e uma imagens.
Os livres-rocket e as jogadas fantásticas de Cristiano Ronaldo. Os muitos jogos sem emoção do nosso campeonato. A euforia do Euro 2004, com Estádios novos, lindos, cheios, e os mesmos estádios hoje quase vazios. Duas vezes o melhor jogador do mundo, Figo e Ronaldo, e acabamos a década tendo na selecção três brasileiros naturalizados. A selecção admirada por todo o Mundo. Os processos em tribunal, a arbitragem sob suspeita. Mourinho e o FC Porto campeão europeu. Os salários em atraso e clubes históricos a desaparecer.
Qual destas fotografias melhor espelha o actual futebol português? Dirão que todas, cada qual no seu contexto. Para fazer esse exercício é, porém, necessário primeiro um polígrafo futebolístico, um detector de mentiras. Mas, mesmo assim, é difícil decifrar uma identidade única para tamanho mundo de luzes e sombras.
As razões estão muito para além da globalização que esbateu fronteiras e turva identidades nacionais. São razões do próprio circuito sanguíneo do nosso futebol. Diferentes imagens, diferentes influências, mas um ponto de clivagem claro entre elas: o futebol jogado na relva e o futebol «jogado» nos bastidores. É o melhor princípio para entender este perturbante jogo duplo. Primeiro sintoma: mudam os protagonistas. De um lado, jogadores e treinadores. Do outro, dirigentes e seus séquitos. Na hora de escolher para onde ir, a bola e as emoções (a essência do futebol) não têm duvidas e vão para dentro das quatro linhas.
Ao invadir os bastidores dos clubes, o novo século deparou-se com os inúmeros esqueletos deixados por tantos anos passados. Ficaram claros os pés de barro de muitos clubes e suas estratégias de gestão (desportiva e financeira). Desapareceram emblemas históricos, outros agonizam. Para recolocar os pés em terra, é paradoxal verificar como a média de salários de um jogador da I Divisão é hoje muito menor do que há… dez anos. Mesmo assim, muitos clubes sofrem para cumprir obrigações.
Quando outro esqueleto do passado resolveu falar, surgiram as suspeitas que colocaram em causa, dirigentes de referência e arbitragens condicionadas, levando o futebol para as sombras dos tribunais, criando-lhe uma terrível imagem de suspeição que afastou as pessoas dos estádios, num tempo em que o futebol, mais do que nunca, se tornara num produto comercial.
Mas, claro, existe o outro lado, o dos heróis. O futebol com bola. Num tempo em que os projectos faraónicos de espanhóis, ingleses e italianos mandam no futebol europeu, irrompeu por entre eles um irredutível onze português guiado por um treinador capaz de, por si só, mudar o curso desse destino: Mourinho e o seu FC Porto, campeão europeu em 2004 (após vencer a Taça UEFA em 2003). Depois disso, o special one, foi para Inglaterra e Itália e ganhou mais campeonatos com a naturalidade como respira. Enquanto o futebol português se perdia nas suas guerras internas, lá fora, consagrava-se como sendo o país do melhor treinador do mundo, Mourinho, e do melhor jogador do mundo, Cristiano Ronaldo. Como é possível inferno e paraíso viverem tão perto um do outro?
Ao mesmo tempo, a selecção caminhou de nariz no ar nos relvados de todo o Mundo. A Final do Euro-2004 e a meia-final do Mundial-2006. Scolari e as bandeiras nas janelas. Agora, falta apenas o resto do século. A geração de ouro eclipsou-se com o avançar da idade, mas existem razões para crer no futuro. Apenas no jogado dentro do relvado, claro. Só que, como gostam de dizer treinadores e jogadores: “o futebol é o momento!”. E o momento, agora, é 2010.
Gostava muito de terminar este artigo dizendo que a imagem mais fiel do futebol português é Cristiano Ronaldo e seu génio. Não é. Porque Ronaldo já descolou há muito do futebol português profundo. Tornou-se um “jogador do Mundo”. É uma imagem de marca. Não personifica uma identidade. É quase uma fuga à realidade. E para procurar uma identidade deve começar-se pelas bases. Não pelos ícones.
FIGO
Cristóvão Colombo com bola
Quando ainda nas camadas jovens, num jogo dos Sub-18, o vi pela primeira vez, pensei estar a ver Cristovão Colombo em forma de jogador de futebol, tal era o seu penteado estilo medieval. Havia, porém, algo de premonitório nesse visual. Em breve, Figo sairia da “Ocidental praia lusitana” e, conquistador dos tempos modernos, devolver, quatro décadas depois da de Eusébio, o futebol português ao topo do Mundo. Entretanto, claro, mudou de penteado. Nos ventos da moda, o fashionstyle do seu futebol não só reconquistou Espanha como abalaram as seculares rivalidades Castela-Catalunha. De Barcelona a Madrid, cada finta, arranque, de novo outra finta, centro ou remate, levaram-no, em 2001, ao título de melhor jogador do Mundo.
Mais do que o futebol puro e simples, Figo revolucionou a imagem de Portugal pelo mundo. Cada jogo é uma parábola do seu percurso de vida. O ar descontraído com que desce do autocarro e chega ao estádio, desaparecem quando entra em campo, mal começa o aquecimento, e aquela cara antes solta como que se fecha, sobrolho carregado, concentração absoluta. E, depois, a bola começa a rolar. Movida lusitana nos tacnones lejanos espanhóis. Imparável. Irresistível. Como dizia, das bancadas, a aficion enlouquecida: “No pares, Figo, no pares…”
RONALDO
O meu nº7 é uma «pop-star»
No futebol, não existem modelos. Todos podem jogar. Altos, baixos, magros, gordos. No jogo de imagens em que ele se tornou, porém, um grande jogador de futebol é hoje muito mais do que apenas relva, bola e chuteiras. É um produto comercial, exaltação do marketing, misto de pop-star e futebolista, um ícone dos tempos modernos, onde a roupa de marca e a namorada bonita coexistem com a finta fantástica e o grande golo. Tudo isto apaixona tanto como perturba. Cativa como confunde.
Nesse mundo de fantasia, Cristiano Ronaldo atingiu uma dimensão que ultrapassa o seu simples futebol. Mas, mesmo que uma sua imagem na discoteca venda tanto como uma a festejar um golo sem camisola, foi pelo seu futebol das mil maravilhas que ele entrou nesse universo que simples ser terrenos só conseguem ver de longe.
As longas aventuras com a bola colada ao pé, fintando e ultrapassando adversários, quase desafiando a velocidade do som, até explodir num remate que, ainda a bola vai no caminho, já faz tremer a baliza. O título de melhor do Mundo, em 2008, seguiu essas pegadas do seu talento, nascido na picardia do futebol de rua. Porque, apesar de toda a atmosfera galáctica que rodeia, é esse, ainda hoje, o ADN do seu futebol. Aquele que, depois de Manchester, começa a fascinar Madrid.