Há imagens que nunca se esquecem. 21 de Junho de 1982. No Estádio Nuevo Zorilla, em Valladolid, um homem de turbante e túnica branca, a chamada dechdacha, indignado com o árbitro por este ter validado um golo que considerava ilegal, ordena, na tribuna, para que a sua equipa abandonasse o campo. Perante a confusão instalada e a hesitação dos jogadores, decide descer ao relvado, acompanhado pelo seu séquito, e falar com o árbitro. Solicito, este dirigi-se á linha lateral e, por minutos, ambos conferenciam perante uma batalhão de repórteres e a estupefacção dos jogadores franceses e seu treinador, Michel Hidalgo. Finda a conversa, o golo é anulado e o Sheikh regressa á tribuna para continuar a assistir á partida. Estávamos, pasmem-se!, no palco de um campeonato do mundo e disputava-se o França-Kuwait (os franceses ganhavam por 3-1...) válido para a primeira fase. Esse homem era tão só o Sheikh Fahd-Al-Ahmad-Al Sabah, um excêntrico príncipe árabe com uma grande paixão na vida: o futebol e a sua selecção kuwaitiana que, nesse momento, pela primeira e única vez na história, disputava um Mundial.
Com o tempo, porém, este episódio, á medida que se foi conhecendo melhor a personalidade do Sheikh louco por futebol, foi perdendo a carga dramática que então tivera, ao ponto de, poucos anos depois, a sua recordação apenas provocar sorrisos em todo o mundo futebolístico. A razão estava no facto desse homem, diz quem o conheceu, ser, na realidade, uma personalidade fascinante que fazia amigos, por todo o mundo, com uma facilidade impressionante, tal a forma simpática e comunicativa de se relacionar com toda a gente, inclusive em Portugal, onde, nos anos 80, patrocinou, entusiasmado, a deslocação de vários clubes portugueses (como o Sporting de Braga) ao Kuwait, para jogos particulares com a selecção ou equipas kuwaitianas. Uma acção de divulgação que, sendo ele Presidente da Federação Kuwaitiana de futebol, fez desenvolver, ao longo dessa década, o futebol por toda a região do golfo pérsico, impulsionando também outras selecções árabes.
Toda esta revolução, teria, porém, um fim trágico, em 1990, durante a invasão do Kuwait pelo Iraque, na qual o Sheikh do futebol seria morto, após ocupação do palácio real pelas tropas de Sadam Hussein. O mundo perdia um grande senhor do futebol árabe, como confirmaria, anos mais tarde, o próprio Michel Hidalgo, seleccionador francês á data da célebre invasão de campo em 1982, com o qual faria amizade, ao ponto de, desde esse dia, lembra o técnico gaulês, o Sheikh lhe mandar sempre, antes dos jogos, um telegrama de felicidades.
Parreira, Zagalo, Scolari e Carpegiani

Nunca mais, desde essa era, na qual mora também a sua única conquista (em 1980) da Taça da Ásia, o Kuwait voltou a formar uma selecção capaz de discutir, dentro da Confederação Asiática, o apuramento para a fase final de um Mundial. Para a história, é ainda é o Sheik Fahad e a sua inolvidável selecção de 1982, a emergirem, até hoje, como grandes símbolos do futebol kuwaitiano. Dentro do relvado, um nome se destaca nos registos: Al Dakhil, autor do golo do empate (1-1), com um forte remate de fora da área, contra a Checoslováquia de Venglos. Foi o único ponto conquistado pela selecção kuwaitiana, que, nos outros jogos, perderia com a França (4-1) e a Inglaterra (2-0). Era seleccionador desse histórico onze, o brasileiro Carlos Alberto Parreira, dentro de uma política de apostas em técnicos brasileiros que vinha já desde a década de 70, com Zagalo, e que se prolongou nos anos 90, então com Scolari, que, após orientar, a nível do clubes, o Al Qadsia, guiou, em 1990, a selecção do Kuwait á conquista da Taça do Golfo, um competição destinada apenas a países árabes da região do Golfo Pérsico, também ganha pelo onze kuwaitiano noutras nove ocasiões (70, 72, 74, 76, 82, 86, 90, 96 e 98).
Vinte e um anos após a passagem de Parreira, outro treinador brasileiro também sonha em fazer história: Paulo César Carpegiani, estrela, como jogador, da selecção brasileira no Mundial 74, e treinador do Paraguai, na edição de 1998, assumiu o comando da selecção do Kuwait em Fevereiro deste ano. Desde a sua chegada, o nível de jogo da equipa tem revelado enorme progressão exibicional, tendo sido a primeira selecção a lograr o apuramento para a Fase final da Taça da Ásia, a disputar em 2004, após uma exemplar campanha sem derrotas, com cinco vitórias e um empate, tendo, nesse percurso, vencido e eliminado a forte selecção do Qatar (2-1 e 2-2).
Ásia-Europa: o choque dos mundos

Actual 50º classificado no Ranking FIFA, o Kuwait, que, nesta classificação, apenas tem á sua frente, das nações asiáticas, a Coreia, o Japão e a Arábia Saudita, é das selecções da Península Arábica aquela que, nos últimos tempos, tem revelado, apesar do clima de enorme instabilidade política que se sente por todo Médio Oriente, maiores progressos competitivos. Mesmo assim, nenhum dos seus jogadores consegue lograr reconhecimento internacional, destacando-se, nos registos, apenas os nomes do avançado Jasem Huweidi, o goleador da equipa, e dos veteranos Abdullah Wabran e Jamal Mubarak, ambos jogadores do Al Tadanon, como as principais figuras do actual futebol kuwaitiano.
São escassos, porém, na sua história, os contactos com selecções de outros continentes, sobretudo o Europeu. Assim, nos últimos dez anos, os seus grandes momentos foram três empates: em 1994, com a Bulgária (2-2) e em 2002, com Roménia (1-1) e a Islândia (0-0). Para além disso, defrontou e perdeu com a Republica Checa (1-2, em 95), a Finlândia (0-1, em 96, e 3-4, em 2001) e a Alemanha (0-7, em 2002). Tudo resultados que espelham o abismo que separa estes dois mundos futebolísticos. Uma imagem exótica que desperta, no entanto, o interesse dos olhares europeus, sobre os quais o futebol asiático, pela carga misteriosa que transporta, sempre exerceu um especial fascínio.