LIBERIA: A GRANDE MISSÃO DE WEAH

8 de Maio de 2001
Pode um homem só mudar o curso do destino? Na Libéria, em tempo de guerra, George Weah emergiu como um verdadeiro Deus do futebol que silenciou as armas e colocou no mapa futebolístico este pequeno país africano.
Após derrotar a Nigéria, em Monrovia, e o Ghana, em Acra, estará agora em Lagos, para de novo frente ás águias verdes de Kanu, tentar levar a sua estrela solitária, pela primeira vez na história, á fase final de um Mundial.
Triturada por uma guerra civil fraticida, detonada em fins de 1989, a Libéria, pequeno país da costa oeste africana, mergulhou, durante anos, num profundo sofrimento que provocou um enorme êxodo de muitos dos seus nacionais rumo ao Ghana e á Serra Leoa, nações vizinhas. Mas, mesmo durante a guerra, houve algo que, por momentos, silenciou as armas e os viscerais ódios étnicos: o futebol. Hoje, com a nação de regresso á vida, todos recordam aquele dia em que, poucas horas antes de um decisivo Libéria-Tunisia de apuramento para o Can-96, todas as facções beligerantes travaram o conflito, com o aproximar do apito inicial. Primeiro foi o exército do NPFL, National Party of Free Liberia, que pousaram as armas na montanha Barcley e desceram á cidade, a capital Morávia, local do jogo. Depois foram os guerreiros da Lola Defense Force, liderados por Massaquoi, ministro dos desportos após a guerra, a deporem as armas nas margens do Rio Po, e por fim, também os Lutadores da Ulimo depuseram as armas no Suehn e todos juntos rumaram ao Estádio, para juntos assistirem ao jogo. Nesse dia, durante 90 minutos não existiram facções ou ódios, apenas liberianos apoiando vibrantemente a sua selecção, a chamada Estrela Solitária, como é conhecida e adorada por toda a nação, fanática do futebol.

A NOVA ERA DO FUTEBOL LIBERIANO

Filiada na FIFA desde 1962, a Libéria, um país com apenas cerca de 2 milhões e meio de habitantes, entre eles 2 390 futebolistas licenciados, nunca foi um potência do futebol africano. A cultura anglosáxónica tornou, no entanto, atraente o seu futebol, mas sem estruturas, todos os seus talentos –onde estavam outros jogadores do calibre de Weah- foram-se perdendo. Tudo mudou em finais dos anos 90, silenciada a guerra. O primeiro passo foi dado pelo carismático Wilfred Lardner, antigo capitão da selecção e seleccionador nacional desde 1988. Com o seu carisma e os ensinamentos apreendidos num curso em Clarifonataine, na França, sempre apoiado por Weah, guiou, em 96, pela primeira vez na história, a Libéria á Taça de África. O objectivo mundial continuava, porém, distante. Quando iniciou o apuramento para 2002, os seus directores sabiam que não tinham dinheiro para contratar um treinador estrangeiro capaz de incutir rigor e profissionalismo na selecção. A solução seria então, com o patrocínio da FIFA, convidar, por dois meses apenas, o francês Philippe Redon, instrutor da FIFA, para orientar a equipa nos jogos contra o Tchad, que ditavam a passagem á segunda fase de qualificação. Apoiado em figuras como Weah, Nagbe, Sebwey e Debbah, o milagre aconteceu e, pela primeira vez na história, a Libéria ganhou um jogo fora, no Tchad por 1-0, e passou á fase seguinte. Foi nesse momento que Weah tomou conta da equipa e, sem medo, desafiou as grandes potências africanas, Nigéria e Ghana, as favoritas no seu grupo. Venerado com um autêntico Deus, Weah prosseguiu o sonho e para espanto de todo o mundo do futebol, bateu esses dois gigantes e está a um passo de levar a Estrela Solitária da Libéria ao Mundial 2002.

PARA ALÉM DE WEAH: OS TALENTOS DA ESTRELA SOLITÁRIA

Embora seja ele o seu líder, a selecção liberiana não joga só á espera dos rasgos de Weah, hoje no Marselha. No resto do onze, estão outros talentos, que dispersos pela Europa, sobretudo na Grécia, também exibem o perfume ofensivo, embora algo ingénuo tacticamente, do futebol liberiano. São os casos dos defesas Kelvin Sebwe, 30 anos, jogador do Istanbulspor, da Turquia, após vários anos na Grécia, no AEK e no Panachaiki. No meio campo, jogam os médios, Joe Nagbe, a alinhar no PAOK Salónica, depois de passar pelo Panionois; Zizi Robrets, também na Grécia, no Panionios, após ter passado pelo Milan, que o emprestou ao Monza. Sem sucesso no Calcio, também rumou á Grécia, onde encontrou o avançado James Debbah, 32 anos, jogador Iraklis, ex-Ankara da Turquia, um dos melhores marcadores do Campeonato grego. Na linha da frente, a actual grande promessa é o avançado do Bastia, Prince Daye, 20 anos, enquanto Cristopher Wreh, primo de Weah, regressou ao Arsenal, depois de passar pelo Den Bosch holandês, embora continue uma segunda opção de Wenger. Mas marca liberiana também passa por outros relvados europeu. Na Hungria, estão Philip Tarlue, no Kispest Honved, Frank Seator, no Videoton e Alvin Kie alinha no AEL Limassol do Chipre. Em Portugal, joga Musa Shannon, avançado do Maritimo, 26 anos, ex-jogador do Tampa Bay dos EUA. Esta época, Nelo Vingada apostou nele em 11 jogos. Na baliza, está Crayton Louis, no futebol suíço passou pelo Grasshopers e pelo FC Horgan. Com as suas defesas tem sido decisivo nas vitórias que colocaram a Estrela Solitária na rota do Oriente.

A UM PASSO DO MUNDIAL-2002

Mesmo se perder na Nigéria, o sonho liberiano de chegar ao Mundial 2002 continuará intacto, permanecendo líder do grupo, com 2 pontos de avanço, á de defrontar, nos jogos decisivos, a Serra Leo e o Ghana. Até agora foram estes os seus resultados: Sudão, 2-Libéria, 0; Libéria, 2-Nigéria, 1; Ghana, 1-Libéria, 3; Libéria, 1-Serra Leoa, 0; Libéria, 2-Sudão,0. Classificação: J V E D F – C P 1º Libéria 5 4 0 1 8 – 4 12 2º Sudão 5 3 0 2 5 – 5 9 3º Nigéria 5 2 1 2 6 – 3 7
Com o tempo, o menino Weah fez-se homem e, desde que foi descoberto, em meados dos anos 80, por Claude Le Roy, que o levou do Youndé dos Camarões para o Mónaco, tornou-se, pelo seu futebol e posições políticas e sociais, mais do que um simples futebolista. Actual jogador-treinador da selecção liberiana, ele é a sua alma e na bandeira pelo mundo. Tudo passa por ele. Conselheiro, fisioterapeuta, director e... financiador. Face á enorme pobreza do país, tomou a iniciativa de, com o agudizar da guerra civil, solicitar à FIFA a organização de uma selecção no exílio para preparar os jogos de apuramento para o Mundia-98, que se disputam no Ghana. Além disso, criou uma fundação para promover o ensino no seu país, custeou os seguros para os jogadores da sua selecção e, todos os meses, dava 25% do seu milionário contrato no AC Milan para ajudar as crianças pobres e órfãos da sua Libéria. Por isso, todos o olham com veneração. Quando em 1995 ganhou a Bola de Ouro de jogador europeu do ano, toda a Libéria entrou em festa. Em George Weah estavam personalizados séculos de sonhos impossíveis de uma nação, independente desde 1847, e que, apesar do enorme atraso estrutural, sempre sentiu o futebol como algo de transcendente.

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