Historicamente, Helénio Herrera é o grande símbolo dos treinadores defensivos. Os seus fundadores, porém, foram outros, embora também na região transalpina. Quando, nos anos 50, esses traiçoeiros sistemas eclodiram em Itália, o seu grande inspirador fora o treinador austríaco Karl Rappan, que, poucos anos antes, inventara, na Suíça, um maquiavélico sistema defensivo nunca antes visto: o Verrou, isto é, o ferrolho, rígido sistema de marcações individuais, a cargo de três defesas fixos, os quais tinham, nas costas, outro elemento a jogar nas dobras, e, na frente, dois médios recuados, com tarefas apenas defensivas, os trincos, apoiados pelos outros médios, criando, assim, uma verdadeira muralha de betão, pelo que se lhe chamou também, o sistema Beton, isto é, cimento. Em breve, a obra de Rappan, inspiraria outros treinadores de equipas mais modestas. Os seus grandes seguidores surgiriam, porém, no futebol italiano.
Tudo começou em 47/48. No banco do Inter estava Alfredo Foni. Ao mesmo tempo, um velho técnico, Gipo Viani, levava, com uma sagaz táctica defensiva, o modesto Salernitana á Serie A. Basicamente, Viani, num tempo em que os números nas camisolas correspondiam á posição dos jogadores em campo, alinhava um nº9, Piccinini, avançado centro, a médio. Logo após o inicio do jogo, porém, ele recuava para marcar individualmente o avançado centro adversário. Ao mesmo tempo, o médio Buzzegoli, colocava-se atrás da linha de defesa. Assim, quando o nº9 contrário pensava, depois de fugir á marcação de Piccinni, encontrar caminho livre para a baliza, nele surgia, a dobrar, Buzzegoli, varrendo a bola para longe. Nascia assim o primeiro libero, isto é liberto de tarefas de marcação directa, da história do Calcio. Astuto, Foni decide então aplicar o mesmo sistema (esquematizado em 1-4-3-2) no seu poderoso Inter, usando o contra ataque como arma secreta. Com esta ideologia táctica, conquistou dois scudettos consecutivos. Foi então que os italianos chamaram ao sistema Catenaccio, derivado da palavra chavistelo, em tradução livre, cadeado. A base era o ferrolho de Rappan, mas, ao contrário deste, que, com dois trincos, reconhecia ser inferior ao adversário, o catenaccio, por sua vez, era uma arma para vencer posta em prática por um adversário teoricamente superior.
Historicamente, pode-se, assim, afirmar que o pai do catenaccio foi Viani, o inventor dos sistemas defensivos foi Rappan, mas o homem que o tornaria uma referência, seria, já nos anos 60, Helénio Herrera, de novo no Inter.
INTER, JUVENTUS E MILAN:
Os diferentes estilos defensivos

Apesar de, estruturalmente, Inter, Juventus e Milan tenham o suporte do seu jogo na postura defensiva, é errado defini-los todos, sem distinção, como modernos profetas do catenaccio. A única equipa que se identifica, quase na perfeição, com esse satânico sistema, é o Inter de Cuper. No papel, o sistema é o 4x4x2 mas, em campo, a sua dinâmica é puramente defensiva. Entre a linha de quatro médios e os dois avançados, existe, á partida, um espaço vazio de 20/30 metros. Só os dois avançados jogam á frente da linha da bola. O grande responsável da presença nesta meia-final é o seu fabuloso guarda-redes Toldo.
A Juventus, mesmo em 4x4x2, ou 4x3x1x2, é muito diferente, compondo, preferencialmente, o meio campo, como contra o Barcelona, com uma linha de médios formada por Tacchinardi-Davids-Camoranesi-Nedved, na qual só alinha um homem mais recuado, Tacchinardi, também dono de grande visão ofensiva, enquanto que Davids é um box to box, joga de área a área, e Camoranesi é, nas alas, um volante ofensivo. No Nou Camp, com Nedved trequartista, e Del Piero e Di Vaio na frente, a Juventus assumiu, de inicio, as despesas do jogo. O catenaccio só surgiu após a expulsão de Davids. A partir desse momento, o onze, de facto, recuou quase todo, formou uma defesa de cinco elementos, e jogou com nove homens atrás da linha da bola, ficando Zalayeta sozinho na frente. Foi, no entanto, apenas por força das circunstâncias. Noutras situações, Lippi já provou ser um treinador liberto desses dogmas defensivistas.
O Milan é um caso psiquiátrico. O inicio de época foi uma ilusão. Vendo Rui Costa, Rivaldo, Seedorf, Pirlo e Inzaghi juntos pensou-se estar face a uma revolução do belo jogo. Bastou, no entanto, alguns resultados negativos para Anceloti resgatar o defensivismo, pelo que, hoje, já é natural ver Rivaldo no banco e Brocchi como titular. Contra o Ajax, em Amsterdão, Rui Costa jogou como ala direito, enquanto o centro, a zona dos maestros, ficou para os rudimentares Ambrosini e Gatuso. O confronto com o Inter, nas meia-final, será, por isso, quase certamente, um confronto do chamado futebol de trincheira, com ambos na expectativa de ver quem ataca primeiro...
Helénio Herrera e Hector Cuper
são realmente parecidos?
Em comum, a mesma origem, a Argentina e terem chegado a Itália vindos de Espanha, Herrera do Barcelona e Cuper do Valência. Nos anos 60, Herrera tivera como presidente Angelo Moratti. No presente, foi o seu filho, Massimo que contratou Cuper. Como jogadores, ambos foram defesas discretos. Cuper consagrou-se no FerroCarril, Herrera jogou no Stade Français, onde, diz, enquanto jogador, inventou o libero, quando uma vez, na hora de defender o resultado, saiu, por iniciativa própria do seu lugar, lateral-esquerdo, para se plantar nas costas das defesa. Como principais mestres, tiveram técnicos defensivos. Herrera, que cresceu em Marrocos, influenciado pela cultura francófona, teve o gaulês Gabriel Hanot, Cuper teve Babington e, sobretudo, Griguol, de quem herdou a célebre palmada no peito com que incentiva cada jogador na entrada em campo. A nível de carácter, são muito diferentes. Herrera foi polémico, Cuper é discreto.
A grande semelhança de que todos falam é, no entanto, de ordem tácticas. Ambos são acusados de defensivistas. Herrera consagrou o catenaccio, Cuper é acusado de o estar a ressuscitar. É, de facto, verdade?
Na essência, ambos montam as equipas a partir da segurança defensiva, colocam o sistema á frente dos jogadores, e, apesar das estrelas ao dispor, procuram ganhar os jogos aproveitando sobretudo os erros dos adversários. No papel, o sistema é o mesmo: 4x4x2, mas, ao contrário de Herrera, Cuper, na defesa a «4», prefere ter laterais encarregues sobretudo de missões defensivas, enquanto que o mago dos anos 60 foi dos primeiros treinadores a utilizar laterais ofensivos, no qual se destacou Facheti, antes central, mas adaptado por Herrera, em face da sua visão ofensiva, ao corredor esquerdo. Para além disso, Cuper joga com dois centrais de marcação, Materazzi e Canavaro, ou Córdoba, enquanto que Herrera utilizou sempre um libero á italiana: Pichi.
A meio campo, é igual a postura em linha, com os artistas recuados. Foi o caso de Suarez com Herrera, é o caso de Emre com Cuper. Ambos consideram a condição física essencial, e admiram avançados atléticos: Mazzola com Herrera, Vieri com Cuper. Para atenuar o facto das linhas meio campo-ataque jogarem tão distantes, falta a Cuper, um avançado rápido no contra-ataque, como foi Jair para o Herrera, ou até Lopez no seu Valência. Ambos se incrustavam no meio campo vazio, fugiam ás marcações e depois partiam em velocidade. Hoje, essa tarefa é entregue a Recoba, sem perfil para essa missão.
Em suma, apesar das diferenças de época e jogadores, são, essencialmente, treinadores de contenção, preconizadores da defesa atenta e sagazes em aproveitar os erros dos outros, pelo que, salvaguardando as distâncias, pode-se dizer que a ideologia futebolística é a mesma.