Olhando os diferentes quadros de vencedores das diferentes competições africanas de clubes, (Liga dos Campeões, Taça das Taças e Taça CAF), pode-se vislumbrar a evolução da correlação de forças entre o futebol dos distintos países africanos. Até 1983, o domínio dividiu-se entre as várias regiões, mas a partir dessa data, emergiram, com toda a força as nações económica e estruturalmente mais desenvolvidas, situadas no Norte, habitat de fortes equipas da Tunísia, Marrocos e, sobretudo Egipto, morada do histórico Al-Ahly, o Nacional, na tradução árabe do seu nome, que desde os anos 50 até o presente, ergueu um império futebolístico, onde ao longo dos tempos passaram figuras como Hegozi, Al Tetcha, Abdel Jalel, Saleh Salim –que mais tarde seria presidente do clube- Haihl, Al-Fanagueli e, nos anos 80, um homem que também brilharia em Portugal: Abdel-Ghany, o grande capitão. No final do século, surgiram Abdel Hafeiz, El-Sayed, Ali Maher e, entre outros, o goleador Hossan Hassan, hoje no grande rival Zamalek.
O seu domínio no futebol dos faraós é avassalador, tendo, desde que em 1945 nasceu, oficialmente, a Liga Egípcia, conquistado 18 títulos de campeão nacional. Paradoxalmente, no entanto, seria o Zamalek, a chamada escola do futebol bonito, a atingir maior projecção internacional, vencendo a Taça dos Campeões Africanos por 5 vezes, em 1984, 1986, 1993 e 1996, enquanto o Al-Ahly só a conquistara em 1982 e 1987, até que, no inicio do novo século, sob a batuta de um treinador português, Manuel José, que marcou a ruptura com a tradição de na ultima década em contratar técnicos germânicos, o gigante egípcio regressou ao topo do futebol africano de clubes.
O Al-Ahly de Manuel José e a renovação do futebol egípcio

Este histórico titulo de Manuel José é ainda mais importante, porque surge numa fase em que o clube, e todo o futebol egípcio (afastado do Mundial 2002), se encontra numa fase de renovação. Depois da retirada de nomes como Shoubier, Tolba, Oraby e Reda, para além das saídas de Emara, Youssef, Hosny, e, claro, Hossan Hassan, o Al-Ahli partiu á descoberta de uma nova geração de talentos, onde estão oito jogadores da selecção egípcia que obteve o terceiro lugar no Mundial Sub-20 de este ano. Neste cenário, Hady Khashaba, velho capitão da equipa, 30 anos, é um dos raros resistentes da equipa que, em 1993, conquistara o último trofeu continental para o clube do faraós, a Taça das Taças Africanas, em 1993. Com uma estrutura muito jovem, o Al-Ahly partiu da segurança defensiva, baseada no carismático guarda redes Hadary, um símbolo do clube, no categorizado Ibrahim Said, hoje idolatrado depois de um inicio de época muito polémico quando se falou na sua possível saída para o Zamalek, e nas contratações de Abou Moustafa e Abou Mosallem para construir um onze capaz de prosseguir a cruzada que o levou a ser eleito o clube africano do século. No meio campo, surgem Ghali, Ibejl e Abd El-Hafiz, um trio que joga nas costas dos avançados Farouk, Maher e os goleadores Ibrahim Alaa e Khaled Bebo, 25 anos, muito rápido, autor de três golos no jogo decisivo contra o Sundowns sul africano. Um conjunto de valores quase todos muito jovens que, ao longo da temporada, foi ganhando confiança e sempre sob a sábia orientação de Manuel José, adquiriu maturidade táctica e um mais eficaz posicionamento em campo. O universo milenar do futebol dos faraós continua imponente.
EQUIPAS E FIGURAS DA EDIÇÃO 2001
Sundowns e Petro:
Os novos aromas africanos

Conquistado perante mais de 100 mil pessoas, este titulo do Al-Ahli resgatou para a região norte, historicamente a zona mais desenvolvida do continente, o titulo africano de clubes, mas embora a força do futebol africano ainda continue concentrada na chamada África branca, os últimos tempos já revelam uma aproximação que prova a evolução, não tanto, mais de mentalidade competitiva do que a nível de estrutural, que se tem verificado noutras regiões, sobretudo a sul, com o Orlando Pirates, da África do Sul, campeão africano em 1995, e, mais tenuamente, nos países da região central e Ocidental, a chamada África negra, com o ASEC Bidjan, da Costa do Marfim, guiados pelo feiticeiro branco francês Philippe Troussier, campeões africano em 1998 e com o Hearts OAK, do Ghana, campeão em 2000. Por outro lado, apesar de a selecção nigeriana ser hoje a maior potência do futebol africano, nunca um clube seu ganhou a Taça dos Campeões Africanos.
Esta época, confirmando o despertar do gigante adormecido sul africano, a maior sensação foi o Mamelodi Sundowns, conhecidos como os brasileiros de Pretória, por terem um equipamento igual á selecção do Brasil. Afastado na época passada da final pelo Esperance da Tunisia, apenas pela diferença de golos, o Sundowns, que internamente superou os possantes Kaizer Chiefs e Orlando Pirates, os mais fortes clubes da África do Sul, surgiu esta época mais forte, atingindo a final, após vencer o Petro e o anterior carrasco, o Esperance.
Exibindo um futebol ofensivo, dirigidos pelo treinador romeno Ted Dumitru, o onze falharia apenas na fase da concretização, sobretudo após vender o avançado nigeriano Chukwu para o Bari. O internacional sub-23 Marumo e o veterano Daniel Mudau, 32 anos, ainda o seu jogador mais categorizado, assumiram-se como as principais estrelas, mas no jogo decisivo, no Cairo, contra o Al-Ahli, não conseguiria nunca, apesar de ter dominado durante largos minutos, chegar ao golo.
Flávio e Mbiavanga:
Os goleadores angolanos
Angola continua um filão de diamantes futebolísticos á espera de serem lapidados. Impulsionados pelo treinador brasileiro Djalma Cavalcante, 63 anos, que antes já orientara o Primeiro de Agosto e o ASA, depois de, no Brasil, passar por clubes como Vasco da Gama e Botafogo, o Petro Atlético chegou a sonhar com o que seria uma conquista inédita no futebol angolano, causando sensação ao bater, na segunda fase, o futuro campeão Al-Ahli por 4-2, acabando por ser afastado, na meia-final, pelo Sundowns, por 5-3, no dramático desempate por penaltys. Contando com talentos como Filipe, Didi, Dias Cires, Delgado, Zeca, Maninho, Avelino, autor de seis golos na Liga dos Campeões e, sobretudo, o médio Gilberto, pretendido pelo Al-Ahli, o Petro impôs-se pelo seu jogo técnico, de pé para pé, confirmando-se como o grande embaixador do futebol angolano que, a cada ano que passa, denota cada vez maiores progressos tácticos e competitivos.
As suas grandes estrelas, são, no entanto, a dupla ofensiva composta pelo angolano Flávio e o pelo congolês Mbiavanga, dois terríveis caçadores de golos, que repartiram a liderança da lista dos melhores marcadores da Liga dos Campeões africanos, ambos com oito golos, exibindo todos um futebol buliçoso e de vocação ofensiva, típico da África negra.
Ainda muito novo, com 21 anos e toda a vida futebolística pela sua frente, Flávio cresceu nas escolas do Petro desde os 14. Em 1997, foi cedido á Académica do Lobito, regressando ao mais forte clube de Angola no inicio da época de 2000, na qual se sagraria melhor marcador do campeonato angolano, o Girabola, conquistando, ao mesmo tempo, um posto no ataque da selecção angolana.
Tunisia:
O eterno Esperance
Baseado num legado cultural e desportivo francófono que marcou uma clivagem táctica e estilística clara com o futebol africano da região central e sul, dotada de maior talento individual, mas secularmente atrasado em termos estruturais, o futebol tunisino assumiu-se sempre como um dos mais fortes de todo o continente africano. Uma realidade que ganhou novo impulso a partir de 1998, com a instauração oficial do profissionalismo num país que só em 1960, após a independência, se filiou na FIFA. Mas se a profissionalização dos clubes ditou um aumento competitivo, criou ao mesmo uma clivagem entre várias categorias de clubes, originária da chamada elite dos quatro milionários: Club Africain, Estrela de Sahel, Club Sportif Sfaxien e Espérance, o grande bandeira da Tunísia no mundo. Uma imagem confirmada esta época, sempre guiados pelo guarda redes El Ouaer, que com as suas defesas prodigiosas e os gritos de comando, continua, aos 35 anos, como o grande chefe do Esperance, semi finalista da Liga dos campeões desta época, e da selecção tunisina.
TAÇA DOS CAMPEÕES AFRICANOS /
QUADRO DE VENCEDORES
(1965-2001)
1965 - ORYX DOUALA (CAMARÕES)
1966 – STADE ABIDJAN (CSTA DO MARFIM)
1967/68- ENGLEBERT LUNUMBASHI (ZAIRE)
1969- AL ISMAILI (EGIPTO)
1970- ASANTE KOTOKO (GHANA)
1971- CANON YAOUNDÉ (CAMARÕES)
1972- HAFIA CONAKRY (GUINÉ CONACRY)
1973- VITA KINSHASA (ZAIRE)
1974- CLUB BRAZZAVILLE (CONGO)
1975- HAFIA CONAKRY (GUINÉ CONAKRY)
1976- MOULOUDIA ALGER (ARGÉLIA)
1977- HAFIA CONAKRY (GUNÉ CONAKRY)
1978- CANON YAOUNDÉ (CAMARÕES)
1979- UNION DOUALA (CAMARÕES)
1980 – CANON YAOUNDÉ (Camarões)
1981 – JEUNESSE ELECTRONIQUE (Argélia)
1982 – AL-AHLY (Egipto)
1983 – ASANTE KOTOKO (Ghana)
1984 – ZAMALEK (Egipto)
1985 – FAR RABAT (Marrocos)
1986 – ZAMALEK (Egipto)
1987 – AL AHLY (Egipto)
1988 – ENTENTE PLASTICIENS SÉTIF (Argélia)
1989 – RAJA CASABLANCA (Marrocos)
1990 – JEUNESSE SPORTIVE KABYLIE (Argélia)
1991 – CLUB AFRICAIN (Tunísia)
1992 – WYAD AC CASABLANCA (Marrocos)
1993 – ZAMALEK (Egipto)
1994 – ESPÉRANCE TUNIS (Tunísia)
1995 – ORLANDO PIRATES (África do Sul)
1996 – ZAMALEK (Egipto)
1997 – RAJA CASABLANCA (Marrocos)
1998 – ASEC MIMOSA ABIDJAN (Costa do Marfim)
1999 - RAJA CASABLANCA (Marrocos)
2000 - HEARTS OF OAK (Ghana)
2001- AL AHLY (Egipto)