LILLE: A «armadilha» de Puel

14 de Setembro de 2005
UMA EQUIPA MUITO ADULTA NO PLANO TÁCTICO QUE GOSTA DE JOGAR, EM CONTRA-ATAQUE, NOS ERROS DO ADVERSÁRIO.
Tacticamente muito sábia, esta equipa do Lille é, em campo, o espelho fiel dos princípios de jogo do seu treinador: Claude Puel. Um onze esquematizado em 4x2x3x1, mas que, em campo, condicionado pelo rigor posicional defensivo, parte de um 4x5x1 que ganha dinâmica ofensiva no contra-ataque. Uma verdadeira armadilha montada, com disciplina e criatividade, por jogadores como Bodmer, Makoun, Gygax ou Moussilou
Treinador da chamada nova vaga do futebol gaulês, Puel é um construtor que pensa futebol, no sentido em que todas as duas decisões ultrapassam sempre o mero processo intuitivo, sendo antes resultado de uma análise profunda, quase decompondo o terreno de jogo em papel quadriculado. Quando há pouco mais de um ano o seu nome foi falado para suceder a Mourinho no FC Porto, a direcção azul e branca, estava, no fundo, a descobrir um treinador que, na forma e no conteúdo, se enquadra na mesma linha do técnico campeão europeu. A sua ideologia futebolística passa também por estudar muito bem o adversário, decompô-lo ponto por ponto, de forma a, depois, no campo, controlar todos os seus movimentos e, após o manietar, lançar as armas da sua equipa, muitas vezes teoricamente menos forte que esse adversário.

A filosofia e a obra

Tal não significa que seja, porém, um mero treinador defensivista. Não, Puel é, numa definição sintética, um tacticista. Um treinador extremamente sagaz no plano táctico que, quando pegou no Lille, em 2002 (vindo de ser campeão no Mónaco, com um onze estavam Gallardo, Simone e Costinha) teve a missão de reconstruir um onze que após ter chegado à Liga dos Campeões em 2000/01, com Halilhodzic, se encontrava, então, numa crise existencial, de jogo e de resultados. Daquela equipa que esteve na Champions, só resta hoje o lateral esquerdo Tafforeau. Tranquilamente, Puel, sem os recursos milionários do principado, soube construir uma nova equipa. Lançou novos jogadores, criou novas referências, solidificou um modelo de jogo, e, três anos depois, o Lille regressou, com bom futebol, ao topo do futebol gaulês. Um dos pilares da sua ideologia, reside na convicção de que mesmo quando saem jogadores importantes, mudar a composição da equipa, não implica, obrigatoriamente, alterar os seus princípios de jogo. O modelo deve manter-se em nome da coerência do seu conceito de jogar. O segredo reside em manter o bloco sempre coeso, com as ligações entre-linhas sempre activas.

Um 4x5x1 com rosto de 4x2x3x1

No papel, olhando a distribuição em campo do onze, o Lille de Puel desenha-se, aparentemente, num linear 4x2x3x1. A dinâmica defesa-ataque-defesa da equipa, revela, porém, um ponto de partida táctico diferente, preferencialmente, mais próximo do 4x5x1, em nome da segurança defensiva, procurando ter sempre superioridade numérica na zona de recuperação do meio campo, para, desta forma, após resgatar a posse da bola, lançar perigosos contra-ataques. Na conclusão da fase atacante, pode então, adquirir um design de 4x4x2, fruto da subida de um médio mais ofensivo ou da entrada em diagonal de um ala-flanqueador. Neste sentido, a base da equipa, reside na dupla de trincos-volantes que se plantam à frente da defesa, sempre esquematizado numa clássica linha de quatro. Formando uma pequena sociedade de recuperação e transporte de bola, a dupla Makoun-Bodmer gere as transições defesa-ataque-defesa do onze. Enquanto um (Makoun) rouba bolas, pauta o ritmo de jogo e dá o primeiro passe, quase sempre curto, na saída para o contra-ataque, o outro (Bodmer) avança mais no terreno, queima linhas com a bola nos pés e transporta a bola para zonas mais avançadas, o espaço de criação, onde entram em acção a segunda linha de médios, de recorte mais ofensivo, nas costas do ponta de lança.

Os médios e o solitário ponta de lança

Embora disponha no seu plantel de dois interessantes pontas de lança, o internacional Sub-21 gaulês Moussilou e a promessa nigeriana Odemwingie, ambos altos, fisicamente robustos, com sentido de golo e inteligentes a movimentarem-se sem bola, Puel alinha sempre apenas só com um avançado centro fixo na frente de ataque. Na época passada, Moussilou foi o titular indiscutível. Este ano, Odemwingie tem surgido mais vezes. Muito veloz, sempre com a baliza nos olhos, ambidestro, remata com os dois pés e não para um segundo. Com o esloveno Acimovic, jogador-chave na época passada, fora de forma (só fez ainda um jogo) o médio-enganche ofensivo a vigiar é o suíço Gygax, vindo do FC Zurique. Nas alas, surgem, à direita, o perigoso Debuchy, uma promessa de 20 anos, formado no clube e, na esquerda, um virtuoso driblador marroquino, Aboucherouane. Puel pode, no entanto, para dar maior solidez defensiva, optar antes por jogar com três médios mais de contenção (entrando, assim, Cabaye para o lado de Bodmer e Makoun) e só um extremo. Nesse caso, sairia, em princípio, Aboucherouane, e Gygax jogaria mais solto nas costas do ponta de lança.

Sector defensivo

Na defesa, a equipa revela maior coesão no eixo, onde Puel pode formar várias duplas de centrais muito fortes, com Tavlaridis, Schmitz, Vitakic ou Plestan (a dupla mais utilizada tem sido Vitakic-Schmitz), do que nas faixas, onde Tafforeau, à esquerda, e Lichtsteiner ou Chalmé, à direita, revelam menor astúcia posicional a defender. Quando sobem, é, quase sempre, apenas em apoio, raramente causando desequilíbrios.

QUATRO PILARES

MAKOUN

Posição: Trinco Idade: 22 anos Em 2004/05: 33 jogos, 0 golos Em 2005/06: 6 jogos, 0 golos Grande inteligência táctica, um trinco crucial nas manobras de recuperação. Dá segurança de todo o sector intermediário. Meio franzino (1,72m. e 65 kg), o camaronês cobre bem os espaços a defender, na primeira linha de cobertura do meio campo. Executa, depois, o primeiro passe na saída para o contra-ataque.

BODMER

Posição: Médio centro-volante Idade: 22 anos Em 2004/05: 35 jogos, 4 golos Em 2005/06: 6 jogos, 0 golos Um possante médio-volante todo-terreno (1,88m. e 76kg.) que enche o campo, percorrendo todo o corredor central. Parte da frente da defesa, como um trinco puro, e surge, depois, perto da área adversária, com força, técnica e drible, a traçar as coordenadas atacantes. Por isso, há quem lhe chame o Vieira branco.

GYGAX

Posição: Médio ofensivo Idade: 24 anos Em 2004/05: 30 jogos, 7 golos (no FC Zurich) Em 2005/06:6 jogos, 1 golo Uma espécie de segundo avançado, mais em força do que em técnica, que se movimenta muito bem nas imediações da área, entrando por ambos os flancos, zona onde se sente melhor. Chuta com os dois pés, segura muito bem a bola, e, com excelente leitura de jogo, procura dar sempre sentido colectivo ás movimentações ofensivas do onze.

MOUSSILOU

Posição: Ponta-de-lança Idade: 23 anos Em 2004/05: 34 jogos, 12 golos Em 2005/06: 3 jogos, 0 golos Forte fisicamente (1,82m. e 76kg.), elegante, destemido no um para um, ganhando no choque e com excelente controlo de bola. Remata colocado e é exímio no jogo aéreo. Mesmo jogando sozinho na frente, em 4x5x1, nunca treme. Embora não sendo muito rápido, é muito difícil de ser marcado.

O onze utilizado contra o Toulose. Sistema: 4x2x3x1

Neste jogo (empate 0-0, na 5ª jornada da Liga Francesa), Puel colocou Keita como ponta de lança. As opções preferenciais são, no entanto, Moussilou ou Odemwingie. Na esquerda, o marroquino Aboucherouane, esta época vindo do Raja Casablanca, ainda luta por um lugar na equipa. Sem Acimiovic, é o suíço Gygax o médio ofensivo ou segundo avançado mais importante. As principais referências estão, porém, á frente da defesa com a dupla Makoun-Bodmer.

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