LIVERPOOL: AS CHAVES PARA UM CAMPEÃO EUROPEU

27 de Maio de 2005
OS NOVOS FILHOS DE ANFIELD: Há momentos no futebol que, num ápice, nos reconciliam com a história. Ver o Liverpool realizar uma épica reviravolta e levantar a Taça dos Campeões ao som do arrepiante "You never Walk Alone", foi como ver os novos filhos de Anfield, Gerrard e Carragher, reencontrarem-se, na sua verdadeira dimensão, com os míticos "reds" dos anos 70. Por entre esta atmosfera, escondem-se, porém, várias questões tácticas interessantes. (4x4x1x1, 3x5x2, 5x3x1x1).
Um golo no primeiro minuto. 3-0 ao intervalo, e, mesmo assim, o Milan, perdeu a Taça. Ancelotti controlou o jogo durante 105 minutos, mas bastaram 15 a Benitez para mudar o destino. Como é possível? De inicio, a entrada de Kewell tentou aproveitar o espaço vazio que, por vezes, se abre entre a defesa e o meio campo italiano (trinco incluído) com a aposta num jogador ofensivamente mais criativo atrás de Baros. Para isso, porém, recuou Gerrard para volante, e o onze perdeu o motor no meio campo-ataque. Durante o primeiro tempo, com o jogo a fugir-lhe minuto após minuto, Benitez manteve sempre o 4x4x1x1, limitando-se a incutir maior dinâmica posicional a cada posto. Passa de um pressing "médio-baixo" para um "pressing alto", mas com isso só consegue sofrer mais dois golos em contra-ataque.
A reviravolta surge no regresso do balneário. Após três jogos fechado na sua área o Liverpool teve, por fim, de se expor ofensivamente e surge a surpresa: sai um lateral direito (Finnan), passa a jogar com defesa a «3» (Carragher-Hyypia-Traore), médios ala (Riise-Smicer) transformados em laterais ofensivos, Xavi Alonso atrás a fazer girar a bola e, como factor-chave, no corredor central, resgatou, a distribuição e dinâmica certa: Gerrard adiantou-se para mais perto da área adversária e o gigante Hamman (olhem bem para este jogador!) surgiu á frente da defesa como a âncora que segurou um quase suicida sistema de três defesas. Nesta dinâmica, o Liverpool voou durante 15 minutos e empatou o jogo. Posto isto, recuou linhas e embora não voltasse, como parecia provável, á defesa a «4», redesenhando equilibrios, passou, em vez de três defesas, a jogar com 3 centrais e cinco defesas, 5x3x1x1, pois os laterais-alas recuaram para sobretudo fechar a faixa. No ataque, Baros ou Cissé passaram a ter só o apoio do intermitente Luis Garcia e até Gerrard, no prolongamento, fisicamente esgotado, passou a jogar como defesa-direito. No corredor central, cortando, varrendo e fazendo a equipa respirar, estava, porém, a chave do sucesso: Hamann. A partir dai foram os italianos (Pirlo-Seedorf-Kaká-Shevechenko) com a bola e os ingleses com a alma, reentrincheirados na sua área, guardando as redes com um polaco milagreiro e saltitante na hora dos penaltys, Dudek. O Liverpool resgatava o estilo que o levara á final. Para entender aqueles 15 minutos de ventania, talvez só com o sobrenatural e imaginar os espíritos de Shankly, Paisley e Fagan, empurrando-os, invisíveis, de reencontro á história.

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